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Internacional

Equipa de Trump já está a discutir criação de base de dados de muçulmanos

Mario Tama

Kris Kobach, atual secretário de Estado do Kansas que ajudou a criar uma série de duras políticas anti-imigração em vários estados norte-americanos, diz que tem participado em teleconferências com os conselheiros de Trump para preparar o sistema de registo de seguidores do Islão e acelerar a construção do muro na fronteira com o México, que poderá avançar sem o apoio inicial do Congresso

Kris Kobach não é conhecido fora dos Estados Unidos nem tão pouco o será entre a maioria da população norte-americana. Mas isso pode estar prestes a mudar numa altura em que o republicano é apontado como a provável escolha de Donald Trump para procurador-geral dos EUA. Atual secretário de Estado do Kansas, nos últimos anos Kobach foi responsável por criar uma série de políticas anti-imigração adotadas em vários estados norte-americanos e o programa de registo de muçulmanos que George W. Bush ponderou introduzir no país após os atentados de 11 de setembro de 2001, uma proposta que rapidamente abandonou após duras críticas de discriminação e xenofobia.

Em entrevista à Reuters, Kobach disse há alguns dias que tem estado em contacto permanente com a equipa de transição do Presidente eleito para discutir o reavivar desse sistema de registo de muçulmanos, em linha com a promessa de campanha feita por Trump de criar uma base de dados com as informações sobre todos os imigrantes fiéis ao Islão que vivem nos Estados Unidos. Na mesma entrevista adiantou que a futura administração está a acelerar os planos para construir um muro na fronteira com o México, outra promessa de campanha, e que Trump poderá avançar com esse plano sem procurar o apoio imediato do Congresso, cujas duas câmaras continuam sob controlo dos republicanos.

Diz Kobach que o grupo de conselheiros para a imigração do próximo Presidente tem estado a debater uma série de ordens executivas para que “Trump e o Departamento de Segurança Interna comecem a trabalhar” rapidamente no muro fronteiriço e no esquema de registo de muçulmanos, que na prática será, de acordo com a mesma fonte, semelhante ao sistema criado pela administração Bush no rescaldo do 11 de setembro para forçar todos os turistas árabes e muçulmanos e residentes temporários que seguem a religião islâmica a fornecerem os seus dados ao Estado. Sob o esquema que estará a ser discutido pela equipa de transição de Trump, os alvos serão não só esses grupos como os imigrantes de países muçulmanos que vivem atualmente nos EUA.

Criado em 2002, o Sistema de Registo de Segurança Nacional de Entrada e Saída (NSEER, na sigla inglesa) exigia que os muçulmanos de países onde existem organizações terroristas a operar fornecessem informações sobre si próprios e as suas famílias, fossem sujeitos a entrevistas com funcionários estatais e notificassem periodicamente o Governo sobre o seu paradeiro, sempre que queriam viajar dentro ou fora dos EUA. Esse programa estava focado nos turistas e em homens não-americanos com mais de 16 anos oriundos de 24 países de maioria muçulmana; a enorme controvérsia que motivou críticas de várias organizações de direitos humanos levaram a que fosse abandonado em 2011, durante o primeiro mandato de Barack Obama.

Na sua primeira entrevista desde que ganhou as eleições de 8 de novembro, ao programa “60 Minutes” da CBS, Trump disse que assim que tomar posse em janeiro vai avançar “de imediato” com a deportação ou detenção de entre dois a três milhões de imigrantes clandestinos “perigosos”, apesar de os registos mais recentes sobre clandestinos que foram julgados e condenados por variados crimes nos EUA apontarem para a existência de apenas 158 mil pessoas nessa situação. Na mesma entrevista, o Presidente eleito deixou em dúvida quando e de que forma planeia avançar com o muro no México, dizendo que mantém a promessa de campanha mas que, nalgumas partes da fronteira, poderá ser “apenas uma barreira”.

De acordo com fontes próximas da futura administração norte-americana, Trump está a considerar Clare Lopez para o cargo de conselheira de segurança do seu vice-presidente, Mike Pence, uma mulher que tem disseminado teorias da conspiração sobre a infiltração do Governo norte-americano por muçulmanos e que chegou a acusar Huma Abedin, braço-direito de Hillary Cinton na campanha democrata, de ter ligações à Irmandade Muçulmana do Egito. Esse é só mais um nome que está a gerar preocupações quanto ao ultraconservadorismo do próximo Governo dos EUA, depois de o Presidente eleito ter anunciado formalmente que o estratega-chefe da sua administração será Steven Bannon, ex-CEO do site Breitbart News que é acusado de antissemitismo, racismo e misoginia e que defende que o “nacionalismo branco étnico”, leia-se a supremacia dos brancos, é uma resposta legítima aos problemas que o país atravessa.