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Diretor dos serviços secretos norte-americanos demite-se. “Soube muito bem”

CARLOS BARRIA/REUTERS

James Clapper, que teve de responder perante o Congresso depois de Edward Snowden ter acusado os serviços secretos de espiarem os cidadãos norte-americanos, diz que sai quando Obama sair e que se sente bem com a decisão

Ana Baptista

Ana Baptista

Jornalista

O diretor dos Serviços Secretos dos EUA, James Clapper, demitiu-se, mas ficará no cargo até à saída de Barack Obama. "Entreguei a minha carta de demissão ontem à noite e soube muito bem. Faltam 64 dias", disse ao Comité dos Serviços de Inteligência do Congresso.

Esta decisão surge num momento em que o presidente eleito, Donald Trump, se prepara para nomear a sua equipa e os responsáveis pelas instituições tuteladfas pelo Governo, mas Clapper já tinha dito numa entrevista recente à NBC que abandonaria o cargo quando o Presidente Obama terminasse o seu mandato.

Clapper, de 75 anos, ocupa este cargo há sete anos, ou seja, desde 2010, quando foi escolhido por Obama. A sua carreira é maioritiariamente militar, começando no Vietname como oficial da Força Aérea, há cerca de 50 anos. Mais tarde, passou pela direção dos Serviços de Inteligência da Defesa, esteve no sector privado e regressou depois ao sector público em 2001, para a agência de mapeamento e imagem, onde ficou até ser convidado por Obama para o cargo atual.

Debaixo da sua alçada estão 17 agências diferentes, incluindo a CIA (Central Intelligence Agency), a DEA (Drug Enforcement Agency) e o FBI (Federal Bureau of Investigation), num total de mais de 107 mil colaboradores.

Talvez por isso seja intitulado em vários meios de comunicação internacionais como "top spy" - o maior dos espiões.

Aliás, a sua imagem foi bastante prejudicada em 2013 quando Edward Snowden revelou que os serviços secretos estavam a espiar e a recolher informação sobre os cidadãos norte-americanos. Nessa altura, numa audição no Congresso a que foi chamado para esclarecer este tema, Clapper disse primeiro que não, mas quando questionado novamente se tinha a certeza que não, respondeu "não conscientemente".

"Há casos em que o podemos ter feito inadvertidamente, talvez, mas não conscientemente", disse na altura.

Mas a polémica não se ficou por aqui. Pouco depois desta audiência, Clapper terá feito uma série de declarações contraditórias e até foi chamado “mentiroso”, mas mesmo assim Obama decidiu mantê-lo no cargo.

Numa entrevista à revista Wired, publicada pouco antes de apresentar a sua demissão, Clapper conta tudo sobre o caso Snowden, entre outros temas, e garante que não mentiu. "A narrativa popular é de que menti. Sim, cometi um erro, mas não menti. Há uma diferença muito grande", disse. Mas acrescenta: "Tenho a certeza que será a primeira linha do meu obituário no Washington Post. Mas é assim é vida na grande cidade".

Esta não foi, contudo, a única polémica a manchar os mandatos de Clapper, noticia o The Guardian. Em 2014, assumiu um papel de relevo na demissão do diretor dos Serviços de Inteligência da Defesa, Michael Flynn, apesar de o seu cargo ser formalmente considerado um cargo não político. Nem de propósito, Flynn assumiu-se com o apoiante de Trump e antecipa-se que venha a ocupar o cargo de consultor para a segurança nacional da administração de Trump.