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China dá lição de História a Donald Trump sobre as alterações climáticas

Liu Zhenmin (esq) é o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros do Presidente Xi Jinping

ROMEO GACAD

O empresário é o primeiro negacionista do aquecimento global a ser eleito chefe de Estado de um dos maiores emissores de dióxido de carbono e de outros gases tóxicos do mundo

O Governo chinês pediu ontem a Donald Trump que tome uma “decisão inteligente” quanto ao compromisso dos Estados Unidos no combate às alterações climáticas, rejeitando as acusações do Presidente eleito de que o aquecimento global é um “embuste chinês” e pedindo-lhe que reverta os planos anunciados numa entrevista ao programa “60 Minutes” de retirar os EUA de todos os acordos transnacionais de proteção do clima e redirecionar o financiamento desses programas para a economia e a exploração de petróleo e outros combustíveis fósseis.

Durante a campanha eleitoral, o empresário tornado candidato republicano — que há uma semana se transformou no primeiro negacionista do aquecimento global a ser eleito Presidente de um dos maiores poluidores do mundo — disse que o fenómeno cientificamente comprovado é um “disparate que sai muito caro” e que foi “inventado por e para os chineses poderem tornar a indústria dos EUA menos competitiva”.

Numa cimeira a decorrer em Marraquexe, o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros da China, Liu Zhenmin, lembrou o Presidente eleito que foram os seus antecessores, e não a China, que lançaram as primeiras negociações para a proteção do clima há quase 30 anos. “Se olhar para a história das negociações sobre as alterações climáticas, verá que na verdade foram iniciadas pelo IPCC [Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas] com o apoio dos republicanos durante as administrações de Reagan e de Bush sénior no final dos anos 1980”, disse Liu citado pela Bloomberg.

Esse painel foi criado no âmbito do Programa Ambiental da ONU e da Organização Mundial Meteorológica em 1988 numa tentativa de melhor compreender e responder aos riscos das alterações climáticas, que alguns cientistas dizem que estão a entrar numa fase irreversível. Em 2007, a academia do Nobel da Paz laureou o IPCC por ajudar a construir “um consenso informado ainda maior sobre a ligação entre as atividades do ser humano e o aquecimento global”.

A eleição de Trump é tida como uma grande ameaça aos avanços já de si limitados que foram alcançados desde então, quando há menos de três meses ativistas e cientistas estavam a celebrar o facto de a China e os EUA, os dois maiores emissores de gases com efeito de estufa do mundo, terem alcançado um acordo para ratificar as propostas delineadas na Cimeira do Clima de Paris em dezembro, durante um encontro entre os Presidentes Barack Obama e Xi Jinping na cidade de Hangzhou, no início de setembro.

Sob esse acordo de Paris, que entrou em vigor no início de novembro uma semana antes de Donald Trump ter derrotado Hillary Clinton nas presidenciais norte-americanas, os signatários comprometem-se a limitar o aquecimento global a um máximo de dois graus centígrados acima dos níveis pré-industriais; após esse limite, os cientistas dizem que os efeitos das alterações climáticas provocadas pelo Homem vão tornar-se irreversíveis e, a longo prazo, ditar a extinção da nossa espécie. “Na América temos um ditado sobre passar das palavras às ações [put your money where your mouth is] e é isso que estamos a fazer no que toca às alterações climáticas, estamos a dar o exemplo”, disse Obama no encontro com Xi em setembro.

A vitória surpreendente de Trump nas presidenciais norte-americanas vem pôr todos os esforços em risco, depois de ter feito campanha contra o acordo do clima de Paris e o Plano de Energia Limpa que Obama pôs em prática nos Estados Unidos para limitar as emissões de dióxido de carbono e de outros gases tóxicos no setor industrial — compromissos que, a julgar pelo que disse na primeira entrevista desde que foi eleito, Trump não planeia cumprir. “Uma presidência Trump vai ser o fim do jogo para o clima”, disse há uma semana Michael Mann, proeminente cientista do clima, em entrevista ao “Guardian”. Num artigo publicado no site ambiental China Dialogue há seis dias, Deborah Seligsohn, especialista de governação ambiental da Universidade de San Diego na Califórnia, disse que “não só as alterações climáticas não são um embuste chinês, como a seriedade da China pode ser a nossa última esperança”.

Incerteza quanto ao futuro das políticas climáticas

Estas preocupações têm dominado a conferência do clima que começou em Marraquexe na véspera das eleições americanas e que será concluída na próxima sexta-feira, no primeiro grande encontro mundial dedicado às alterações climáticas desde que o histórico tratado de Paris foi alcançado no final de 2015.

“Esperamos que os EUA continuem a desempenhar um papel de liderança no processo das alterações climáticas dado que as pessoas estão preocupadas com uma repetição da experiência do protocolo de Quioto”, disse o número dois da diplomacia chinesa aos jornalistas em Marrocos, citando o falhanço do último grande acordo de combate às alterações climáticas que foi ratificado em 1999 e que ficou, em larga medida, por cumprir. “Vamos ter de esperar para ver que posição vão adotar [ao leme de Trump]”, acrescentou Liu citado pela agência estatal Xinhua. “Esperemos que tomem uma decisão certa e inteligente para ir de encontro às expectativas de todo o mundo.”

Na mesma reunião, o ainda secretário de Estado norte-americano, John Kerry, tentou acalmar o nervosismo de políticos e ativistas, embora tenha admitido que a vitória de Trump deixou a comunidade internacional a “sentir incerteza quanto ao futuro” do planeta. “Embora não possa especular sobre que políticas o Presidente eleito vai levar a cabo, posso dizer-vos isto: durante o período que passei [enquanto chefe da diplomacia dos EUA], uma das coisas que aprendi é que alguns assuntos parecem um bocado diferentes quando se assume o poder em relação ao tempo de campanha eleitoral. Ninguém deve duvidar que uma esmagadora maioria dos cidadãos dos EUA sabe que as alterações climáticas estão a acontecer e que estamos determinados em manter os compromissos de Paris.”