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Internacional

Ex-líderes da NATO pedem cimeira extraordinária com Donald Trump

O dinamarquês Anders Fogh Rasmussen (esq.) substituiu o holandês Jaap de Hoop Scheffer na liderança da NATO em 2009 e permaneceu no cargo até 2014, altura em que foi substituído pelo norueguês Jens Stoltenberg

Ralph Orlowski

O ex-secretário-geral da aliança, Anders Fogh Rasmussen, e o seu antecessor no cargo, o holandês Jaap de Hoop Scheffer, querem encontrar-se com o Presidente eleito dos Estados Unidos logo a seguir à sua tomada de posse em janeiro. Querem convencê-lo a não reconhecer a anexação da Crimeia e a abandonar a proposta de exigir compensações financeiras aos aliados que os EUA venham a proteger

Dois antigos líderes da NATO pediram esta quarta-feira ao Presidente eleito dos Estados Unidos, Donald Trump, uma reunião extraordinária assim que este tomar posse a 20 de janeiro, para lhe assegurar que os aliados tradicionais dos EUA vão continuar comprometidos com os estatutos da aliança que definem a ajuda imediata a um Estado-membro quando sob ameaça.

Anders Fogh Rasmussen, o dinamarquês que ocupou o cargo de secretário-geral da NATO até ter sido substituído pelo atual líder Jens Stoltenberg em 2014, e o seu antecessor, o holandês Jaap de Hoop Scheffer, que liderou a aliança até 2009, querem ainda alertar o Presidente eleito contra quaisquer acordos apressados com Vladimir Putin que cedam a Ucrânia e a Crimeia anexada à esfera de influência da Rússia.

A notícia está a ser avançada esta manhã pelo "The Guardian", que integrou uma conferência de imprensa convocada pelo think thank Conselho Atlântico. "Se aceitarmos a anexação da Crimeia, vamos estar a desistir da ordem instituída com base em regras e isso terá consequências noutras partes do mundo", declarou Rasmussen aos jornalistas convidados.

Durante a campanha eleitoral para a Casa Branca, Trump foi acusado de manter ligações ao Estado russo e gerou controvérsia ao declarar que o povo da Crimeia — que Moscovo anexou em março de 2014 na sequência da queda do Presidente ucraniano pró-Rússia, Viktor Ianukovitch — quer ser governado pela Rússia e que, se fosse eleito, ia analisar a possibilidade de reconhecer legalmente a anexação da península.

Numa entrevista ao "New York Times" em julho, logo após ter conseguido a nomeação do Partido Republicano para disputar a presidência com a democrata Hillary Clinton, Trump sugeriu ainda que os aliados da NATO vão ter de pagar a Washington por qualquer proteção, caso contrário ele irá dizer-lhes "Parabéns, vão ficar a defender-se sozinhos". Essa mesma ideia foi repetida pelo agora Presidente eleito no terceiro e último debate televisivo com Hillary Clinton, a duas semanas das eleições.

Na conferência desta manhã, Scheffer disse temer que Trump transforme o que poderá ter sido mera retórica de campanha numa política da sua administração num grande acordo com Putin, cedendo a Crimeia e o leste da Ucrânia, em guerra há quase três anos, em troca da não-interferência da Rússia nos estados do Báltico.

"Ao aceitar a anexação da Crimeia, esta será a primeira vez desde a II Guerra Mundial que as fronteiras vão ser alteradas através da força", disse o holandês que esteve ao leme da NATO entre 2004 e 2009. "Tal acordo seria visto pela Rússia e pelo Presidente Putin como um álibi político para alargar a sua esfera de influência para o que ele considera ser o 'estrangeiro mais próximo'. Penso que isso seria um mau precedente com o potencial de dar ao Kremlin a impressão errada de que, se aguardar tempo suficiente, a NATO e a União Europeia e os americanos vão enfim ceder."

No périplo de despedida à Europa iniciado por Barack Obama esta semana, o ainda Presidente dos EUA, que amanhã vai encontrar-se com os aliados em Berlim, deu garantias de que Trump está empenhado em manter e respeitar os estatutos da NATO, minimizando as suas ameaças e promessas de campanha. Contudo, Rasmussen e Scheffer dizem que essas garantias terão mais peso e importância se vierem do próprio Trump, que vai tomar posse como Presidente a 20 de janeiro do próximo ano.

"Penso que é importante organizar uma cimeira da NATO o quanto antes, assim que Trump tomar posse como novo Presidente da América", disse o dinamarquês, acrescentando que um tal encontro extraordinário irá servir para reafirmar o compromisso dos EUA para com os seus aliados e para que todos honrem a promessa de alocar 2% dos seus orçamentos anuais em defesa. Scheffer foi mais longe, falando de Trump como um homem que, durante a campanha, deu a entender que "não gosta de alianças" e dizendo que ele tem de agir rapidamente para reverter essa impressão. Sobre isto, o antecessor de Jens Stoltenberg disse estar "preocupado que o Presidente Putin já se sinta encorajado" por causa da retórica de campanha de Trump.