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Expresso

Internacional

Chefe da polícia ucraniana demite-se, vítima da corrupção (alheia)

O Presidente ucraniano Petro Poroshenko durante uma cerimónia de graduação de polícias em Kiev

SERGEI SUPINSKY / AFP / Getty Images

É o último de mais de vinte casos em que um alto funcionário se declara impotente na luta contra o maior flagelo social e político do país

Luís M. Faria

Jornalista

A chefe nacional da polícia ucraniana Khatia Dekanoidze demitiu-se esta segunda-feira, alegando que o governo não quis fornecer-lhe os meios para atacar a corrupção no país. Dekanoidze é a última de duas dezenas de funcionários que ultimamente se demitiram pelo mesmo motivo no país. Também esta segunda-feira, demitiu-se a responsável pelos serviços alfandegários na região de Odessa, e antes tinha-o feito o governador da província de Odessa Mikhail Saakashvili, o antigo Presidente da Geórgia.

Saakashvili, após conquistar uma reputação como promotor de reformas modernizadoras no seu próprio país, fora encarregado pelo presidente Petro Poroshenko de fazer a mesma coisa na Ucrânia. Mas agora acusa Poroshenko de bloquear os seus esforços. Uma acusação semelhante à feita pelos outros funcionários que agora se demitiram.

Dekanoidze fala de um conflito “entre os que querem mudar e os que estão presos ao passado”, e pede aos políticos que deixem de interferir nos assuntos policiais, avisando-os de que, se não o fizerem, “estão condenados a uma nova confrontação com a sociedade, mais cedo ou mais tarde”.

A referência é aos protestos da Praça Maidan, que levaram ao derrube do anterior governo e geraram uma esperança de que a Ucrânia pudesse embarcar no caminho para se tornar um país europeu moderno. Foi nesse contexto que Yulia Marusheva, uma ativista estudantil, chamou a atenção de Poroshenko. Nomeada chefe dos serviços alfandegários em Odessa, deram-lhe por missão acabar com o sistema de subornos nesse porto, antigo e endémico. Mas a tarefa provou-se impossível. O que não surpreende, dadas as recentes revelações sobre o próprio Presidente, um bilionário que surge nos Panama Papers como utilizador de offshores e não cumpriu a sua promessa de vender as suas empresas quando subisse ao poder.

Mesmo a declaração de bens que passou a ser obrigatória para os altos funcionários – uma imposição do FMI – teve um efeito desmoralizador, pois limitou-se a revelar as fortunas que muitos políticos detêm, não raro sem explicação aparente, sem fazer nada para os responsabilizar.