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Internacional

Os homens do Presidente Trump

Bannon assumiu o leme do Breitbart, o mais conservador site de notícias dos EUA, em 2012. Abandonou o cargo em agosto para substituir Paul Manafort, até então diretor da campanha republicana

Chip Somodevilla

Líder do Comité Nacional Republicano, Reince Priebus, será o chefe de gabinete da nova administração norte-americana e Stephen Bannon, controverso líder da “direita alternativa” e ex-diretor executivo do grupo ultraconservador Breitbart News será o máximo responsável pelas estratégias políticas do novo Governo dos EUA

A equipa do Presidente eleito norte-americano divulgou este domingo, em comunicado, os nomes dos dois homens fortes da futura administração Trump, anunciando que Reince Priebus, o atual líder do Comité Nacional Republicano, órgão máximo do partido vitorioso, será o chefe de gabinete de Donald Trump, responsável por fazer a ponte entre a Casa Branca e o Congresso (as duas câmaras estão sob controlo republicano), e que Stephen Bannon, controversa figura da chamada "direita alternativa", será o estratega-chefe da nova administração.

Até agosto, Bannon era diretor-executivo da Breitbart News, um conglomerado de media tido como o mais conservador e antissistema dos Estados Unidos, que os críticos dizem ser um site de propaganda xenófoba e misógina mascarado de portal de notícias. Nesse mês, abandonou o cargo para substituir Paul Manafort, até então diretor de campanha de Donald Trump, após a sua demissão.

Quanto a Priebus, o homem que dirigia o Comité Nacional Republicano desde 2011, sendo o porta-voz e o principal responsável pela angariação de fundos para o partido, terá agora a seu cargo a tarefa de aproximar os republicanos do novo Presidente que ajudaram a eleger, mas do qual se tentaram afastar ao longo de quase toda a campanha presidencial.

Em comunicado, o Presidente eleito dos EUA descreve Priebus e Bannon como "líderes altamente qualificados que trabalharam bem juntos durante a nossa campanha e que nos conduziram a uma vitória histórica". Priebus, de 44 anos, foi o grande responsável por manter vivas as reduzidas ligações do candidato Trump ao Partido Republicano, que tentou contrariar a subida de popularidade do empresário alegadamente antissistema e que chegou a ponderar recorrer aos mecanimos legais definidos na cartilha republicana para impedir que fosse ele a conseguir a nomeação republicana no final das primárias, em julho. O novo chefe de gabinete de Trump é aliado próximo de Paul Ryan, líder da maioria republicana no Congresso, que segundo vários analistas deverá ser instrumental na orientação da agenda legislativa da nova administração.

"Estou muito grato pela oportunidade que me foi dada pelo Presidente eleito de o servir e a esta nação para trabalharmos na criação de uma economia que funcione para toda a gente, na segurança das nossas fronteiras, na rejeição e substituição do Obamacare e na destruição do terrorismo islâmico radical", declarou Priebus este domingo.

Priebus foi dos poucos líderes republicanos que nunca criticou abertamente o candidato do partido à Casa Branca durante a campanha

Priebus foi dos poucos líderes republicanos que nunca criticou abertamente o candidato do partido à Casa Branca durante a campanha

Mark Wilson

Stephen Bannon, de 62 anos, entrou na corrida eleitoral em agosto, quando abandonou o seu cargo no grupo Breitbart para substituir Paul Manafort na direção da campanha de Trump, altura em que sublinhou que ia "apostar em força na estratégia [política] ao estilo empresarial da campanha de Trump".

Antigo oficial da Marinha norte-americana, banqueiro de investimento e produtor de Hollywood, Bannon assumiu a liderança do Breitbart em 2012, prometendo transformar o site no "Huffington Post da direita". O grupo de media conservador está diretamente ligado ao movimento da "direita alternativa", que rejeita tanto as ideologias de esquerda como o conservadorismo mainstream representado por uma faixa considerável do partido e do eleitorado republicano. Os membros do alt-right, como o movimento é conhecido, defendem que a liberdade de expressão lhes garante o direito de ofender opositores e os seus críticos classificam-no de racista, antissemita e sexista.

No passado, o site gerido por Bannon até há poucos meses causou controvérsia com artigos intitulados "Preferia que o seu filho tivesse cancro ou feminismo?" e "Métodos anticontraceptivos tornam as mulheres feias e loucas", defendeu que a bandeira da confederação, dos tempos da segregação racial nos EUA, simboliza uma "herança gloriosa" e acusou o Presidente Obama de chorar "lágrimas fascistas impostoras" no rescaldo do massacre de Sandy Hook, em que um rapaz matou 20 crianças num dos mais letais tiroteios em massa da História dos EUA.

"Quero agradecer ao Presidente eleito Trump a oportunidade de trabalhar com Reince na orientação da agenda da administração Trump", disse Bannon este domingo. "Tivemos uma parceria de grande sucesso durante a campanha, que nos conduziu à vitória. Teremos o mesmo tipo de parceria ao trabalharmos juntos para ajudar o Presidente eleito a concretizar a sua agenda."

De acordo com próprio Trump, na sua primeira entrevista oficial desde que venceu as eleições de 8 de novembro, essa agenda vai passar, entre outras medidas, por deportar ou prender até três milhões de imigrantes clandestinos "perigosos" assim que tomar posse a 20 de janeiro (de acordo com um relatório do Congresso, apenas 178 mil dos 11 milhões de imigrantes que vivem ilegalmente nos EUA têm cadastro). Na mesma entrevista ao programa "60 Minutos" da CBS, o Presidente eleito disse que vai nomear para o Supremo Tribunal juízes "pró-vida" (leia-se, antiaborto) que defendem o direito constitucional à posse de armas de fogo pelos cidadãos, prometeu não reverter a legislação federal que, há dois anos, reconheceu o direito de casais do mesmo sexo a casarem e garantiu não vai aceitar o salário de presidente, no valor de 400 mil dólares por ano, recebendo apenas um dólar por cada ano de mandato.

Membros da oposição no Congresso dizem que as nomeações oficiais de Trump "não são surpreendentes mas são alarmantes". É o caso do democrata Adam Schiff, membro da Câmara dos Representantes, que ontem escreveu no Twitter que "as visões antissemitas e misóginas da direita alternativa [de Bannon] não deviam ter lugar na Casa Branca".