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Jiadistas: “Ódio de Trump vai facilitar o nosso trabalho porque vamos conseguir recrutar milhares”

KENA BETANCUR

Líderes de movimentos jiadistas dizem à Reuters que planeiam usar retórica do Presidente eleito contra os muçulmanos para atrair novos militantes à causa

Os movimentos jiadistas espalhados pelo Médio Oriente e Norte de África, da Argélia ao Afeganistão, planeiam usar a vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais norte-americanas como um instrumento de propaganda para atrair novos militantes às suas batalhas. A notícia é avançada esta segunda-feira pela Reuters com base em declarações de comandantes talibãs, apoiantes do autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) e líderes de outros grupos de militância jiadista sobre a retórica de ódio contra os muçulmanos, em que o Presidente eleito apostou em força durante a corrida eleitoral, que ficou concluída na passada terça-feira com a surpreendente vitória do empresário sem experiência política sobre a candidata democrata Hillary Clinton, que as sondagens apontavam como vencedora.

"Este tipo é um maníaco completo", disse à agência Abu Omar Khorasani, um dos principais líderes do Daesh no Afeganistão. "O seu profundo ódio pelos muçulmanos vai facilitar muito o nosso trabalho porque vamos conseguir recrutar milhares" de novos militantes, acrescentou.

Durante a campanha eleitoral, Trump prometeu durante vários meses que, se fosse eleito, iria proibir totalmente a entrada de muçulmanos no território norte-americano e derrotar "o terrorismo radical islâmico tal como ganhámos a Guerra Fria", declarações que lhe valeram críticas de xenofobia e discurso de ódio por equiparar os milhões de seguidores do Islão que estão espalhados pelo mundo com o reduzido grupo de muçulmanos que apoiam as ações de grupos extremistas como o Daesh.

Mais perto da reta final das presidenciais, o agora Presidente eleito pareceu moderar o tom da retórica contra os muçulmanos, sublinhando que vai suspender temporariamente a imigração para os EUA de pessoas de países com "um historial de exportação de terroristas". A poucos dias das eleições, o compromisso de impedir a entrada de qualquer muçulmano no país desapareceu do site de campanha do candidato republicano. Até agora, continuam por revelar os pormenores dos seus planos para combater a tendência de radicalismo e grupos jiadistas como o Daesh, os talibãs e a Al-Qaeda, que representam uma variedade de visões políticas distintas.

"Ele não faz distinção entre as tendências islamitas moderadas e extremistas e, ao mesmo tempo, ignora [o facto] de que o seu próprio extremismo vai gerar mais extremismo", disse Moqtada al-Sadr, poderoso clérigo xiita do Iraque, num comunicado citado pela Reuters. A agência nota que o movimento reformista liderado por Sadr, que integra milhares de seguidores, se opõe ao radicalismo sunita de movimentos como a Al-Qaeda e o Daesh e não promove ataques contra o Ocidente.

Ao longo da campahha presidencial, as autoridades norte-americanas avisaram que o país enfrenta um elevado risco de ataques ordenados ou inspirados pelo Daesh, à semelhança do massacre de 49 pessoas em junho numa discoteca gay de Orlando por um homem que telefonou para um canal de televisão a jurar fidelidade ao Daesh ou do tiroteio de dezembro em San Bernardino, na Califórnia, executado por um casal de simpatizantes do grupo que matou 14 pessoas.

"Os nossos líderes seguiram com atenção as eleições dos EUA e foi inesperado que os americanos cavassem as suas próprias sepulturas como fizeram", disse Khorasani, descrevendo o Presidente Barack Obama como um "infiel moderado" que pelo menos tem um cérebro quando comparado com o seu sucessor na Casa Branca.

A Reuters nota que a Al-Qaeda, que continua a subsistir no Médio Oriente desde os atentados contra as Torres Gémeas e o Pentágono a 11 de setembro de 2001, ainda não reagiu oficialmente à vitória de Trump e que deverá fazê-lo assim que Trump tomar posse a 20 de janeiro. Hisham al Hashemi, conselheiro do Governo iraquiano que monitoriza os movimentos jiadistas sunitas na região, sugere que o grupo está à espera de ouvir o discurso de tomada de posse de Trump com a certeza de que dele poderá retirar mais comentários e declarações a serem usados na propaganda de recrutamento de novos apoiantes. "A Al-Qaeda é conhecida pela sua estratégia de recrutamento que contém citações de discursos da Casa Branca e de outras autoridades ocidentais", disse à agência.