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Aung San Suu Kyi continua em silêncio face a ataques renovados contra a minoria Rohingya

RAVEENDRAN

Exército birmanês executou este fim-de-semana “operações de limpeza” em vilas do estado de Rakhine, provocando pelo menos 33 mortos. Forças de segurança que atuam naquele estado são controladas pelo Exército e não pela líder de facto da Birmânia, a Nobel da Paz Aung San Suu Kyi, que para já continua a recusar a abertura de uma investigação independente aos acontecimentos de sábado e domingo

O Exército de Myanmar (antiga Birmânia) confirmou esta segunda-feira que pelo menos 33 pessoas foram mortas em aldeias do estado de Rakhine, onde habita a maioria dos muçulmanos de etnia Rohingya que são perseguidos há décadas no país. As forças armadas birmanesas lançaram ataques coordenados contra a região ao início de sábado, com recurso a helicópteros de assalto, provocando pelo menos oito mortos, incluindo dois soldados.

Ontem, pelo menos outras 25 pessoas perderam a vida em confrontos com os soldados, que dizem terem sido forçados a disparar porque parte da população estava armada com catanas e tacos de madeira. Os ataques, disse o Exército em comunicado citado pela BBC, foram “operações de limpeza” que tinham como alvos extremistas armados.

Imagens e vídeos divulgados nas redes sociais mostram que haveria mulheres e crianças entre as vítimas da operação “de limpeza”, suspeitando-se que centenas de habitantes das aldeias atacadas tenham sido forçados a abandonar as suas casas durante o fim-de-semana. O correspondente da BBC no terreno nota que não há, para já, garantias de acesso independente ao estado do norte de Myanmar, pelo que as versões dos dois lados devem ser recebidas com uma certa dose de ceticismo.

Segundo a versão do Exército, homens Rohingya armados apenas com “tacos de madeira e catanas” estavam a preparar-se para executar ataques contra os soldados, cujo armamento é menos rudimentar e mais letal. Também de acordo com membros da Junta Militar que governou o país durante décadas, alguns Rohingya pegaram fogo às suas próprias casas, tornando-se pessoas sem abrigo de forma voluntária para “causar desentendimentos e tensões” e para obterem ajuda internacional, avançaram os meios de Comunicação estatais, ao noticiarem que a população sob ataque incendiou 130 casas numa das aldeias de Rakhine no domingo.

A versão avançada pelos nativos do estado — a minoria étnica muçulmana que é perseguida e discriminada há várias décadas em Myanmar — é diferente. Imagens e vídeos divulgados nas redes sociais mostram mulheres e crianças mortas e pessoas a fugirem de casas a arder, ouvindo-se os helicópteros do exército ao fundo. O correspondente da BBC diz que também esta versão deve ser recebida de forma crítica, já que no passado os Rohingya exageraram alguns relatos de alegadas atrocidades cometidas contra si, embora sublinhe que as imagens em questão serão “certamente genuínas”.

Perseguidos e discriminados há décadas

O estado de Rakhine está sob bloqueio militar desde outubro, após nove membros das forças de segurança terem sido mortos numa série de ataques em postos fronteiriços. Aung San Suu Kyi, líder de facto de Myanmar cujo partido Liga Nacional para a Democracia (LND) venceu as eleições de há um ano que vieram pôr fim a décadas de ditadura militar, e que foi laureada com o Nobel da Paz em 1991, continua em silêncio sobre os recentes incidentes na região que concentra os mais de um milhão de muçulmanos Rohingya que vivem no país. De acordo com a BBC, até agora a líder tem recusado as exigências de diplomatas para que seja aberta uma investigação credível e independente aos incidentes.

Os Rohingya não são reconhecidos como habitantes de Myanmar, sendo perseguidos e discriminados há várias décadas tanto pelas autoridades estatais como pela maioria da população budista. Dezenas de milhares vivem em campos de alojamento temporário, após uma onda de ataques de budistas em 2012, que provocou centenas de mortos. A maioria dos habitantes de Myanmar considera os muçulmanos daquela etnia imigrantes ilegais do Bangladesh, apesar de muitos viverem no país há várias gerações. Grupos de direitos humanos dizem que a população Rohingya continua a ser sujeita a restrições de movimento e a ver os seus direitos mais básicos negados.

Um estudo divulgado há um ano pela Iniciativa Internacional de Crimes do Estado da Universidade Queen Mary em Londres apontava que a minoria muçulmana está a ser alvo de genocídio e que está à beira da “aniquilação total”. Em setembro deste ano, o Ministério da Informação do Governo de Suu Kyi proibiu o uso do nome Rohingya para classificar os muçulmanos do norte de Myanmar, declarando que a partir de agora os que pertencem à minoria étnica devem ser classificados como “pessoas do estado de Rakhine que acreditam no Islão”.