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Um ano depois de Paris, continuo uma besta

CHRISTOPHE PETIT TESSON / EPA

Nelson Marques, jornalista do Expresso, estava a jantar no centro de Paris quando ocorreram os ataques de novembro de 2015. Um ano depois, a ferida aberta pelo horror daquela noite ainda não sarou

O mais difícil de esquecer é aquele tinoni incessante a noite toda, a imagem do comboio de ambulâncias em marcha lenta, transportando os corpos que tingiram de sangue o Bataclan. Foi lá que os cobardes mataram a Précilia e quase 90 pessoas, incluindo o namorado dela, o Manu. A sangue-frio. Tínhamos falado nessa tarde, no Facebook, ela a lamentar-se que eu não dissera que estava na cidade, eu a dizer-lhe para deixar "de ser queixinhas". Foi a última coisa que lhe disse.

Resisti dois meses a ver o vídeo daqueles momentos de terror, pessoas desesperadas a arrastar pelo chão os corpos de amigos, amantes, desconhecidos, alguns se calhar já sem vida. De todas as coisas que podia ter feito de forma diferente, essa é a que mais me arrependo: ter clicado no "play". Há portas que é melhor não abrir, porque não há nada que nos prepare para aquele horror.

Percebi-o nessa noite, dois meses depois dos atentados, quando despertei do sono com uma sensação de sufoco e corri a abrir a janela de casa, no 5.º andar, para conseguir respirar. Percebi-o em todas as outras noites depois dessa, e foram muitas, em que o ar me foge do peito e sinto um aperto no coração. Quando pensamos que já superámos tudo, a realidade arranja sempre forma de nos explodir na cara.

Um ano depois daquela agonizante noite em Paris, não aprendi nada. Às vezes, ainda viajo sem avisar a família. Visito-a menos do que devia. Zango-me com os amigos por coisas sem importância. Esqueço-me, com facilidade, que só temos uma vida. E que não há uma segunda oportunidade para ver alguém pela última vez. Precisamos mesmo de um aperto no peito para nos lembrar disso?

Quando parti, há um ano, Paris estava submersa num silêncio perturbador, ferida de morte pelos ataques mais sangrentos desde a II Guerra Mundial. Por causa do trabalho, voltei lá duas vezes desde então. Fiz amigos novos, como a Ana, uma daquelas surpresas que a vida nos reserva para compensar o que nos tirou. Não tive ainda coragem de me aproximar do Bataclan ou de nenhum dos outros sítios manchados de sangue naquela noite, mas andei pelas ruas com o mesmo deslumbre de sempre, como só ali é possível. Os terroristas podem tirar-nos muita coisa, mas nunca nos tirarão Paris. Por mais tempo que as feridas demorem a sarar.

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