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Jaime Nogueira Pinto: “Trump contraria a tradição republicana”

O empresário e professor universitário considera que Donald Trump venceu porque “compensou com povo o défice de apoio dos clãs tradicionais” e que o desafio do novo Presidente americano será “balançar o radicalismo que lhe deu a vitória com o equilíbrio que lhe vai permitir governar”

Luísa Meireles

Luísa Meireles

Redatora Principal

Como é que foi possível a Donald Trump fazer-se escolher e depois eleger?
Trump contou com a dispersão dos adversários, uma dúzia de notáveis, todos mais ou menos parecidos, que dividiam os eleitores com base na região ou em clientelas tradicionais. O outsider era ele e começou por agredi-los com diminutivos fáceis — “Little Marco”, “Low Energy” — sempre ao ataque, sempre política e socialmente incorretíssimo, sempre diferente dos políticos institucionais. Os media adoraram o espetáculo. E as bases republicanas também. Chegou a Cleveland vencedor e foi confirmado, à contrecoeur, pelo aparelho. Na campanha bateu o “inimigo interno” — as elites republicanas — e o externo — Wall Street, os media, as sondagens —, prometendo às classes médias e trabalhadoras brancas da América a reconquista do poder confiscado pelas elites de Washington. Hillary Clinton encarnava o sistema; era o alvo perfeito.

Em que é que a vitória de Trump choca com os valores tradicionais republicanos?
Trump distancia-se do Partido Republicano de Ike ou de George H. Bush, internacionalista, livre-cambista, de um conservadorismo de country club, guiado pela classe alta da Costa Leste. Está, no entanto, próximo do Partido Republicano da Southern Strategy de Nixon, dos blue collars de Reagan, dos tele-evangélicos e do Tea Party. O “povo”, os trabalhadores dos subúrbios do Rust Belt, o Oeste e o Sul profundos compensaram a deserção das elites republicanas. Trump encarna, integra e contraria a tradição republicana: é liberal em matéria de costumes e protecionista em economia, realista em política externa, nacionalista, defensor da baixa dos impostos mas disposto a gastar dinheiro na Defesa.

Isto é um epifenómeno ou uma tendência para ficar?
É uma tendência mais funda e mais substancial do que a simples “revolta das classes médias e trabalhadoras” a que querem reduzi-la. Vem de uma contestação às correções políticas e económicas, ao globalismo, à marginalização da nação, da família, da comunidade. É menos um passadismo do que uma resistência à imposição de um modelo evolutivo único, neoliberal em economia e libertário em moral e costumes. O ‘Brexit’ e os movimentos nacionalistas representam essa resistência na Europa. Curioso que, tal como Thatcher e Reagan em 1979 e 1980, voltem a ser as mais velhas sociedades constitucionais a assumir a vanguarda deste regresso da nação.

Qual é a questão de fundo ideológico subjacente a esta eleição?
O fundo ideológico é misto, como em todos os movimentos que convergem num momento político personalizado. O progressismo impôs à América uma cultura de hedonismo liberal, alheia ou contrária aos valores tradicionais. A reação juntou diferentes famílias políticas. Para os católicos e os evangélicos do Sul e do Oeste, Washington tornou-se uma Babilónia que corrompeu a Jerusalém dos pilgrims. Além deles, há os intelectuais da realpolitik, críticos do intervencionismo dos neoconservadores e da hostilidade à Rússia. Curiosamente, esta base ideológica comum foi sintetizada pelo menos intelectual e menos político dos candidatos republicanos.

Quem são hoje os americanos?
A ideia que os americanos fazem de si próprios está muito na ficção: das personagens da classe alta da Nova Inglaterra de Henry James, aos judeus de Philip Roth e aos académicos burgueses de Updike. O Tom Buchanan do “Gatsby”, machista e catastrofista quanto à ascensão dos “povos de cor” no mundo e na América, por exemplo, é uma personagem muito atual e sugestiva. No cinema, Michael Cimino, em “O Caçador”, “O Ano do Dragão”, e “As Portas do Céu”, defende que os americanos são os imigrantes que, com mais ou menos conflito, vão adotando os “valores da América” e lutando e morrendo por eles. A questão hoje é que os “novos americanos” passaram a ser objeto de cobiça eleitoral e o Partido Democrata, ao perder a classe operária, apostou nas minorias. Trump entrou neste jogo pelo lado contrário mas ia perdendo com isso e por causa disso. Agora tem de equilibrar e moderar a radicalidade que lhe deu a vitória para poder governar. Será capaz?

Isto pode afetar as relações bilaterais com Portugal? Poderá beneficiar o peso da base das Lajes no contexto militar?
As relações luso-americanas não serão propriamente prioritárias para o novo Presidente. No entanto, e apesar do isolacionismo, a sua aposta na Defesa, pode favorecer as Lajes como uma plataforma de projeção de poder.