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Internacional

Carlos Gaspar: “Só os mais crédulos admitem que Trump desistiu do seu programa”

Tiago Miranda

O investigador do Instituto Português de Relações Internacionais da Universidade Nova de Lisboa considera que a viragem populista nos Estados Unidos é “inseparável” da crise financeira de 2008

Por que razão os americanos não acreditaram em Hillary Clinton?
Se Hillary tivesse ganho, seria a primeira vez desde o Presidente Truman que os democratas exerciam um terceiro mandato consecutivo na Casa Branca. Os eleitores entenderam que o programa político de Obama estava esgotado e que o de Hillary Clinton era o mesmo. Dito isto, Hillary cometeu dois erros sérios. Primeiro, ser igual a ela própria, quando tratou com arrogância os apoiantes de Trump. Segundo, imitar o adversário, quando desceu ao nível dele e não o cumprimentou no último debate.

Trump será um perigo? Quais são os maiores riscos?
Trump foi eleito com um mandato claro que se deve traduzir numa estratégia protecionista e no retraimento estratégico dos Estados Unidos. Nesses termos, o país deixa de ter condições para conter as tendências de regionalização do sistema internacional, que podem ser reforçadas pela estratégia de continentalização asiática da China e de continentalização europeia da Alemanha. O país deixa de estar disponível para fazer os sacrifícios para sustentar a ordem liberal internacional e, na ausência de uma capacidade efetiva de intervenção política e militar norte-americana, é muito provável a multiplicação e a escalada dos conflitos periféricos no Médio Oriente, Europa e Ásia.

Já começou a haver mudança no discurso de Trump?
Donald Trump assumiu, logo na noite da vitória, uma posição institucional e moderada. Mas só os mais crédulos podem admitir que essa mudança significa que desistiu do seu programa político e que vai virar as costas ao mandato que recebeu dos eleitores.

O que é que isto revela sobre o povo norte-americano?
A ascensão das correntes populistas nos Estados Unidos confirma a viragem revelada pelo ‘Brexit’ e pela força crescente dos partidos populistas na Europa Ocidental. A viragem populista é inseparável da crise financeira de 2008 e da demonstração do declínio relativo das potências ocidentais perante a emergência das potências asiáticas. A viragem eleitoral também é inseparável da estagnação dos rendimentos das classes médias ocidentais, que contrasta com o crescimento exponencial dos rendimentos das classes médias asiáticas. E a persistência da ameaça das redes terroristas islâmicas é responsável por um estado de insegurança que é mau conselheiro, sobretudo quando os demagogos misturam essa ameaça com as vagas de imigração, cada vez maiores tanto nos Estados Unidos como na Europa Ocidental.

Como pode isso afetar as relações com Portugal? Poderá beneficiar o peso da base das Lajes no contexto militar?
As relações bilaterais não devem ser afetadas, embora as relações dos Estados Unidos com os seus aliados europeus possam ser prejudicadas pelas posições de Trump e da sua coligação nacionalista contra a integração europeia. As garantias de segurança dos Estados Unidos perdem credibilidade quando o novo Presidente tem uma desconfiança fundamental em relação às alianças permanentes. Portugal deve estar preparado para uma revalorização da sua posição estratégica no Atlântico Norte, porque essa posição, nomeadamente no caso dos Açores e da base das Lajes, define uma linha avançada no perímetro de segurança das fronteiras marítimas dos EUA: com a nova estratégia norte-americana de “retraimento profundo”, essas fronteiras tornam-se ainda mais importantes para a defesa nacional. Portugal continua a ser um dos países europeus mais dependentes dos Estados Unidos, e a diplomacia portuguesa vai ter muito em conta as tomadas de posição de Donald Trump, que criticou publicamente os seus aliados por não contribuírem para a defesa comum e por não reconhecerem a importância das garantias de defesa norte-americanas. O Governo socialista, que considerou, desde a primeira hora, as relações com os Estados Unidos como prioritárias, jogou forte na eleição de Hillary Clinton. A sua prioridade, na conjuntura presente, é construir uma nova relação estável com a futura Administração republicana.