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Barack Obama: “A cortesia 
não fica à porta quando se é 
eleito Presidente”

win McNamee / Getty

Os americanos escolheram esta semana um novo Presidente. Oito anos depois de ter entrado na Casa Branca pela porta grande, Barack Obama analisa os seus dois mandatos. Um balanço que fica para a História

Por Jonathan Chait *

No dia 25 de agosto, após uma curta deslocação a Baton Rouge para avaliar as inundações no Luisiana e antes daquela que deve ter sido a sua última visita à China no Air Force One, Barack Obama sentou-se na Casa Branca para refletir sobre os últimos oito anos. Ele liderou a América durante um período de mudança dramática e convulsiva — uma era que a revista “New York” explora neste artigo de capa. Antes da entrevista, o Presidente escolheu cinco momentos que, segundo crê, virão a ter enorme impacto histórico. Eis a conversa na íntegra.

OS REPUBLICANOS

Comecemos pelo momento em 2010 quando Mitch McConnell disse publicamente que o objetivo nº 1 dele era fazer de si um Presidente de um só mandato. Como é que esse comentário o atingiu? Era novidade?
Nessa altura, já se tinha tornado bastante evidente pelas suas ações que esse era o objetivo nº 1. Acho que ele confirmou o que boa parte desta cidade já sabia. Quando assumi o cargo, presumi que, como estávamos numa crise, e a crise tinha começado com os republicanos no poder, haveria uma janela de oportunidade na qual eles se sentiriam obrigados a cooperar num esforço comum para nos tirar desse sério buraco. Mas percebi que iam ter uma atitude diferente quando estávamos a elaborar a lei de estímulo à economia. Recordo vivamente que tínhamos preparado uma proposta básica com uma variedade de componentes. Havia cortes de impostos; havia financiamento para os Estados, a fim de que não se despedissem professores, bombeiros, etc.; havia uma componente de infraestruturas. Pareceu-me que, enquanto proposta inicial, era ambiciosa mas necessária, e que podíamos começar negociações com os republicanos e eles mostrar-nos-iam coisas que também achassem necessárias. A caminho de Capitol Hill para me encontrar com o grupo republicano, John Boehner emitiu uma declaração a dizer que se opunham à proposta. Nessa altura ainda nem sequer havia uma lei esboçada, e não tínhamos pensado fazer comentários sobre o assunto. Acho que foi aí que compreendi aquilo que se confirmou nesse primeiro ano e no segundo: um calculismo baseado em algo que mostrou ser política astuta, mas realmente mau para o país. Se eles colaborassem comigo, isso validaria os nossos esforços. Se conseguissem manter uma oposição uniforme ao que quer que eu propusesse, isso sinalizaria bloqueio e disfunção para o público, e ajudá-los-ia a ganhar lugares nas eleições intercalares. Foi esta segunda estratégia que eles seguiram com grande disciplina. Estabeleceu a dinâmica não apenas para a minha presidência mas para uma abordagem partidária muito mais acerba, tanto na gestão da Câmara dos Representantes como do Senado, e acho que vai ter consequências durante anos.

Está documentado que os republicanos decidiram esta estratégia em encontros mesmo antes de tomar posse. Quando descobriu que tinha havido esses encontros?
Bem, não descobri até McConnell fazer aquela declaração, e a seguir surgiram algumas histórias sobre uns jantares com Gingrich e outros, mas, conforme disse, por essa altura a estratégia já era evidente. Houve outros dois elementos que contribuíram para a abordagem republicana. O primeiro foi que, mesmo quando a liderança queria colaborar, o tom das bases republicanas tornava muito difícil fazê-lo sem pagar um preço internamente. O melhor símbolo disto — lembro-me vivamente — foi quando Chicago se candidatou aos Jogos Olímpicos. Um comité muito eficiente tinha ido a Copenhaga fazer a apresentação, e Michelle tinha ido com eles, e eu recebi uma chamada, antes de a coisa estar terminada mas com escassa antecedência, a dizer que muita gente achava que se eu fosse lá havia uma boa hipótese de ter sucesso, e portanto podia valer a pena aquilo que era essencialmente uma viagem de um dia. Então fomos. Mais tarde, soubemos que as decisões do COI (Comité Olímpico Internacional) eram parecidas com as da FIFA: um pouco cozinhadas. Nem sequer passámos à fase seguinte, apesar de, em todas as métricas objetivas, a candidatura americana ser a melhor. No voo de regresso, já sabíamos que não tínhamos conseguido, e quando aterro constato que há grandes festejos de Rush Limbaugh e de várias facões republicanas por a América ter falhado a sua candidatura olímpica. Foi realmente estranho, mas nessa altura Limbaugh já deixara claro que me queria ver fracassar, e tinha comunicado isso muito claramente aos seus ouvintes. A cobertura da Fox News começara a orientar-se nessa direção, e o que se percebeu durante os primeiros seis, oito, dez meses do meu Governo foi que as atitudes, os sentimentos que Sarah Palin havia captado durante a eleição eram cada vez mais representativos da parte mais ativista da base republicana, do seu núcleo. Podia não ser representativa dos republicanos pelo país fora, mas John Boehner e Mitch McConnell [NT: os líderes republicanos nas duas câmaras do Congresso] tinham de se preocupar com aquele sentimento dentro do seu partido que dizia: “Não, não devemos colaborar com Obama, não devemos colaborar os democratas; isso representa compromisso, fraqueza, e está em causa a natureza geral da América, independentemente dos argumentos políticos que possa haver”. O resultado é que houve alturas em que eu me encontrava com Mitch McConnell e ele me dizia muito diretamente: “Olhe, eu far-lhe-ei um favor se chegar a acordo consigo, portanto deve ser inteiramente nos meus termos, pois só o facto de ser fotografado na sua companhia já me prejudica”. Durante o debate sobre o sistema de saúde, houve um momento em que, após ter tido múltiplas negociações com o senador do Iowa Chuck Grassley, que era o líder da comissão juntamente com o meu atual embaixador na China, Max Baucus, eu fiquei exasperado e disse a Grassley: “Existe alguma versão de reforma do sistema de saúde que possa apoiar?”, e ele encolheu os ombros e disse com um ar um pouco embaraçado: “Provavelmente não”.

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Quando foi isso? No outono?
Bom, terá sido em meados do verão, talvez fim de julho. Mas o que se viu foi uma série de momentos, não um grande momento em que a liderança republicana sentiu que a sua estratégia política, tanto em termos de recuperar a sua maioria no Congresso como de se proteger contra o que viria a ser a ala Tea Party do partido, os impedia — nas cabeças deles — de trabalhar com este Governo sob qualquer forma construtiva. Isso levou a que tivéssemos de funcionar com maiorias estreitas em praticamente todos os assuntos. E, até certo ponto, determinou como foram criadas as políticas. Quando ouço as pessoas dizerem, por exemplo, que o estímulo devia ter sido maior, tenho constantemente de recordar o que tive de oferecer a Susan Collins, a Arlen Specter, que era então republicano, a Ben Nelson e a Joe Lieberman. Precisava desses votos para conseguir qualquer estímulo que fosse. O facto de termos acabado com o maior programa de estímulos de sempre na América não foi um feito menor. Tentar pô-lo acima do limite do bilião de dólares ia sempre ser difícil, ainda que fosse uma política correta. O mesmo com a opção pública [NT: na reforma do sistema de saúde]. Mesmo com maiorias muito sólidas na Câmara, o teto para o que podíamos fazer era a nossa maioria no Senado, que era decente mas sempre ameaçada pelo filibuster [NT: a regra tradicional, não de lei, que permite a dois quintos dos senadores bloquearem o debate e a votação de uma proposta]. Isso era complicado pelo facto de, como se lembra, o Al Franken [NT: o comediante que se fez eleger senador democrata] ainda não ter tomado posse, portanto termos ainda menos espaço de manobra.

A dinâmica que descreve assemelha-se ao que vimos em ação nas primárias republicanas de 2016. Vê uma linha direta entre o que aconteceu no início de 2009 e...
Absolutamente. Vejo uma linha direta entre o anúncio de Sarah Palin como candidata presidencial e o que vemos hoje em Donald Trump, o surgimento do Freedom Caucus, o Tea Party, e a mudança do centro de gravidade no Partido Republicano. Se isso poderá mudar ou não, acho que depende em parte do resultado desta eleição, mas vai também depender do grau de autorreflexão dentro do Partido Republicano. Houve pelo menos duas outras vezes em que eu disse confiantemente que a febre ia baixar, mas apenas parece continuar a piorar. É também o motivo para os democratas compreenderem que atingirmos ou não determinados objetivos políticos vai depender sobretudo de quantos votos temos em cada câmara, e da nossa habilidade para mobilizar a opinião pública. Já não tanto, hoje em dia, das clássicas negociações entre democratas e republicanos. Ou de nos deslocarmos mais ou menos para o centro em matéria de política orçamental. Ou de eu — e de futuros presidentes — jogarmos suficiente golfe ou bebermos suficiente scotch com congressistas. Tenho relações cordiais com muitos dos membros republicanos. Podemos manter conversas ótimas e chegar a um entendimento numa série de matérias. Mas se eles acharem que vão perder lugares, ou o seu próprio lugar, em virtude de os social media os acusarem de terem vendido o Partido Republicano, não o farão. Acho que essa dinâmica vai ser cada vez mais difícil de mudar, devido à balcanização dos media e à demarcação viciada das fronteiras nos distritos eleitorais. É evidente que os republicanos, nas eleições presidenciais, pagam um preço pelo estreitar das suas perspetivas políticas. Mas para o/a congressista individual num distrito sessenta por cento republicano no Oklahoma ou no Arkansas ou onde quer que seja no país, isso não importa. O que importa é que todos os eleitores dele ou dela veem a Fox News e ouvem Rush, e ele ou ela pagarão um preço se derem a impressão de serem muito simpáticos com um Presidente democrata.

Portanto, chegamos a 27 de janeiro de 2009, e Boehner diz que é contra o estímulo. Tenho ouvido republicanos queixarem-se da sua atitude nesses encontros. Dizem que é didático e que dá lições. Numa situação dessas, tenta discutir teoria keynesiana e dizer: “Acredita nos estímulos?”. A que nível é que a discussão tem lugar?
Sabe, a verdade é que tenho dificuldade em me caracterizar a mim próprio. É melhor você falar com alguns dos funcionários que assistem a essas reuniões. Acho que uma forma de medir a minha abordagem é que, quando estava na legislatura do Illinois, dava-me reconhecidamente bem com os republicanos, tanto quando fazia parte da minoria como da maioria. A tal ponto que cheguei a usar alguns colegas republicanos em anúncios quando me candidatei a Presidente. E no Senado também tive boas relações com pessoas do outro lado. A noção de que cheguei aqui e me torno Saul Alinsky ou Lenine em reuniões com republicanos não soa verdadeira. Olhe, tipicamente o que sucedia, e ao início sem dúvida, era que eu dizia: “Temos um grande problema. Estamos a perder 800 mil empregos por mês. Todos os economistas com quem falei, incluindo economistas republicanos, acham que devemos fazer um grande estímulo, e estou pronto a trabalhar com vocês para ver como este pacote ficará”. Tipicamente, a resposta era: “Bem, senhor Presidente, não sei se essa abordagem de gastar muito é a mais correta. As famílias agora estão a apertar o cinto, e não ouço muitos dos meus constituintes dizer que querem um punhado de grandes burocracias a pegar no seu dinheiro duramente ganho e a gastá-lo num punhado de grandes projetos só para criar emprego pelo país fora. Achamos que o Governo deve fazer o mesmo que as famílias fazem”. Assim, atingíamos uma espécie de muro ideológico. Tenho a certeza de que, após quatro ou cinco dessas sessões, eu poderia ter dito: “Ouçam, temos aqui uma história que remonta até à Grande Depressão”, e tentaria introduzir alguns argumentos fortes sobre políticas. O que posso dizer inequivocamente é que nunca houve um momento em que eu não dissesse: “Digam-me como querem fazer isto. Deem-me uma noção da abordagem que querem”. E havia sempre resistência. Não precisa de aceitar a minha palavra. Veja o que é público. Por exemplo, em relação à alternativa ao Obamacare, da qual continuamos à espera ao fim de sete anos. Acho que se falar com alguém como John Boehner ele admitirá que sou bastante capaz de manter tanto a calma como o meu bom humor nessas reuniões. Dou-me bem como John, e Mitch (McConnell) é um pouco mais fechado. Para eles, é conveniente apresentar essas interações pessoais como o motivo por que as coisas não aconteceram, mas o problema não foram as interações pessoais. As conversas que tenho em privado com republicanos são sempre muito diferentes das descrições públicas delas que surgem. E isso remete outra vez para o que eu disse antes. Eles veem Charlie Christ na Florida: um abraço meu, e acabou. Chris Christie não conseguiu lançar a sua corrida presidencial — basicamente, ela terminou antes de começar — porque foi demasiado amigável e colaborante comigo ao aceitar ajuda federal para um estado que tinha sido devastado por um furacão. Eles imaginam os problemas potenciais que se podem levantar, e torna-se bastante difícil dizerem em público: “Obama é um tipo perfeitamente razoável, mas simplesmente não podemos trabalhar com ele, porque as nossas bases pensam que é o anticristo”. É muito mais fácil dizer: “Oh, ele não nos ouve” ou “Ele não é conciliador”. Compreendo, e não é nada que me incomode pessoalmente. De facto, às vezes até os pico nos bastidores; digo-lhes: “Olhe, se precisar de ajuda, eu atacá-lo ou qualquer coisa...”. E das vezes que conseguimos fazer algo, tem sido muito importante para mim, com franqueza, tentar ajudá-los a gerir a sua base. Um caso em que não resultou mas acho que mostrei grande paciência estratégica foi na reforma abrangente da imigração. Deixámo-nos ficar fora de cena durante muito tempo a fim de que os republicanos no senado pudessem tratar com os seus colegas democratas. Houve momentos em que já tínhamos uma resolução orçamental e podíamos avançar para a fase de arranjar pessoal e assessores — e eu falar com Harry Reid e Nancy Pelosi publicamente — mas mantivemo-nos quietos e deixámo-los negociar com os seus colegas, pois se parecesse que estavam a negociar comigo não ajudava.

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OBAMACARE

O que nos conduz ao momento crucial do caminho que levou à passagem do Affordable Care Act (Lei de Proteção e Cuidado ao Paciente, a reforma do sistema de saúde vulgarmente designada por Obamacare). Em janeiro de 2010, à medida que se aproximava uma votação no Congresso, houve uma eleição especial no Massachusetts para substituir Ted Kennedy. Um republicano, Scott Brown, venceu. A maioria das pessoas disse: “Acabou”. Na noite da eleição, está a ver os resultados das eleições — há democratas a telefonar-lhe?
Bem, a primeira coisa que acontece é que eu falo com Rahm Emanuel [NT: então chefe de gabinete do Presidente] e com Jim Messina [o vice de Emanuel] e digo, “Okay, expliquem-me como isto aconteceu”. Nessa altura soube que a nossa candidata, Martha Coakley, tinha perguntado, retoricamente: “O que hei de fazer, pôr-me em frente ao Fenway [NT: um estádio de basebol em Boston] e apertar a mão aos votantes?”, e percebi que não era um bom indicador de como as coisas podiam vir a resultar.

Ouviu essa citação na noite das eleições?
Bem, pode ter sido uns dias antes. Mas a questão é que não há dúvida de que não dominámos o assunto como seria preciso. Na altura em que fui até lá para um evento, já era notório que ia haver problemas. Isso sublinhou, para mim, uma falha do meu primeiro ano, que era uma espécie de fé perversa em que as políticas boas também seriam boas politicamente. Aqui tenho que me desculpar um pouco — havia muito a fazer, e todos os dias pensávamos: será que os bancos vão colapsar? A indústria automóvel vai ao fundo? Os despedimentos vão acelerar? Não prestámos muita atenção à política nesse primeiro ano, e a derrota no Massachusetts lembrou-me o que todo o bom Presidente e bom funcionário eleito tem de compreender: é preciso prestar atenção à opinião pública, temos de ser capazes de comunicar as nossas ideias. Mas aconteceu, e a pergunta então era, o que se segue? O telefonema mais importante que fiz a seguir foi para Nancy Pelosi [NT: líder democrata na Câmara dos Representantes]. A questão que lhe pus e a Harry Reid [NT: líder democrata no Senado] foi: “Vocês ainda estão connosco? Porque se ainda estão connosco, encontraremos uma forma. Mas não posso fazê-lo a não ser que os democratas estejam dispostos a aguentar alguns votos que vão ser difíceis”. Parte da minha argumentação era que eles já tinham pago o preço em termos políticos. Um esforço fracassado na saúde não ia ajudar nas eleições intercalares, e era melhor ir em frente e aprovar e então mostrar que tínhamos conseguido algo realmente importante para o povo americano. Dou a Nancy e a Harry e a uma data de democratas imenso crédito. Foi um daqueles momentos em que muita gente fez o que era correto, embora do ponto de vista político fosse mau. E ao longos dos anos tenho dito ao grupo democrata, quando temos reuniões, que a disponibilidade deles para avançar e assumir os riscos ao aprovar o Affordable Care Act é uma das razões por que continuo a ter orgulho no Partido Democrata. Com todos os problemas e todos os erros que qualquer partido político comete — satisfazer grupos de interesse para conseguir eleger pessoas — a verdade é que o voto no ACA mostrou que quando chegava o momento da verdade e os membros democratas tinham de fazer algo que pensavam ser correto, mesmo que não os ajudasse a ser reeleitos, a maioria esteve disposta. E Nancy e Harry certamente que sim. Tornámos a ver isso depois nalguns votos orçamentais duros, e no acordo com o Irão, e dou-lhes imenso crédito. A partir do momento em que Nancy disse: “Estou com vocês”, era apenas uma série de questões táticas: que mecanismos legislativos podíamos usar para promover legislação que já estava 90, 95 por cento pronta mas ainda tinha 5 por cento que faltava resolver — podia estar resolvida se tivesse seguido um processo legislativo regular — mas em última análise iria proporcionar ajuda real a milhões de pessoas no país?

Na altura, grande parte da cobertura mediática assumiu que a via legislativa chegara ao fim, porque vocês tinham ficado sem os sessenta votos. A maioria dos repórteres não conhecia aquele mecanismo que se podia usar: a Câmara passar a lei do Senado, tornando-a lei, e resolver quaisquer diferenças através de uma lei de reconciliação orçamental separada que não estava sujeita ao filibuster. Quando começou a pensar que seria esse o caminho a usar?
A verdade é que assim que soubemos que a eleição no Massachusetts ia ser difícil, o que foi provavelmente umas semanas antes, começámos a fazer planos de contingência. Foi algo que tive de aprender cedo no processo, embora até certo ponto já o tivesse feito durante a campanha: há que ter um plano B. Temos de ser muito discretos sobre o plano B, pois não queremos sabotar o plano A — às vezes as pessoas estão à procura de uma escapada e querem um plano B. Mas tínhamos começado à procura de outros caminhos possíveis e este apareceu. Ainda exigiu um trabalho muito subtil por parte de Nancy e Harry e das suas equipas legislativas, mas nessa altura já sabíamos que era possível. Assim que tivemos esse caminho, era apenas uma questão de trabalhar o Congresso. Foi interessante, em 2011, quando a esquerda se irritou comigo por causa das negociações orçamentais, haver sempre um contraste entre Obama e LBJ [NT: Lyndon B. Johnson, o Presidente democrata que sucedeu a Kennedy e conseguiu fazer passar a lei dos direitos civis em 1964], que trabalhava realmente o Congresso. Mas digo-lhe, nessas duas semanas eu fui completamente LBJ. Acho que Pete Souza (o fotógrafo da Casa Branca) tem uma galeria de imagens de cada reunião e telefonema que fui fazendo, e é divertido ver. Basicamente, todos os dias durante as duas semanas seguintes fomos trabalhando democratas, pois nessa altura não havia qualquer perspetiva de conseguirmos republicanos. Embora eu tenha dedicado uma quantidade enorme de tempo a Olympia Snowe [NT: uma senadora republicana moderada que esteve no cargo até 2013], a única pessoa que, para crédito dela, teve a coragem de votar para fazer o ACA sair da comissão — antes de decidir que não podia apoiar o esforço mais geral.

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Que percentagem dessas conversas era focada na argumentação moral a favor da lei, dizendo: “Tem de arriscar o seu emprego porque isto é a coisa correta a fazer” e que percentagem era: “Não, não, não, temos os números a dizer que isto não o vai prejudicar. Vai prejudicá-lo um pouco; vai ajudá-lo”?
Eu diria 80 por cento de argumentação moral, pois os números não estavam do nosso lado. Ouça, Scott Brown tinha acabado de vencer, as sondagens eram terríveis, as pessoas estavam zangadas. Sempre considerarei que os verdadeiros heróis do ACA foram os legisladores, muitos mais novos e em distritos oscilantes [NT: que tanto podiam votar republicano como democrata], eleitos na onda de 2006 ou na de 2008. Tinham campanhas difíceis e eram tipos fantásticos. Para eles, a questão era inteiramente moral: qual a razão de estarmos aqui se não isto?

Então diziam-lhe: “Preferia continuar a ter um emprego”, e você respondia: “Mas pensem nas pessoas que serão ajudadas”.
Certo. Mas em abono deles devo dizer que não eram os mais difíceis de convencer. Os mais difíceis eram os que tinham menos em risco. Ou não direi menos em risco, porque, por exemplo, a ala negra estava lá, e a ala latina e a progressista. Mas muitas vezes eram esses tipos novos que tinham mais a perder, as campanhas mais difíceis, um tipo como Tom Perrielo da Virgínia, que foi dos primeiros a dizer: “Foi por isto que quis ser eleito, quero ajudar as pessoas e acho que é a coisa certa a fazer”. E quase todos perderam os seus lugares.

Os mais difíceis foram pessoas que não estavam à beira de perder os seus lugares?
Sim, porque então era transacional, era “Gostava disto, quero aquilo”. E uma das coisas que obviamente mudaram desde o tempo de Johnson é que já não sou o chefe das encomendas. Aliás, nem só do tempo de Johnson — o de Lincoln. As reformas de bom governo limitaram uma administração, o que eu acho que em grande parte é bom. Mas significa que lhes estamos na realidade a dizer: “Isto é a coisa certa e eu garantirei que vou à sua angariação de fundos em Podunk e terá o meu apoio”. Nalguns casos havia problemas substanciais nos quais tivemos mesmo de trabalhar duro. (O ex-congressista) Bart Stupak era um legislador muito sincero, pró-vida, e um democrata, um homem realmente bom que se esforçou comigo para tentar chegar ao sim e acabou por lá chegar, trabalhando com a Irmã Carol (Keehan), a líder dos Hospitais Católicos, apesar da forte oposição dos bispos católicos. Portanto, nalguns casos houve dificuldades legítimas, problemas substanciais que tiveram de ser trabalhados.

O DERRAME DE PETRÓLEO DA BP

Foi o seu primeiro “Katrina”?
Tive uns vinte desde essa altura, não? O derrame de petróleo da BP foi o primeiro evento que me instruiu acerca do tipo de ciclo noticioso em que há um problema real que pode e vai ser resolvido mas, por qualquer motivo, recebe atenção 24 horas todos os dias. E há aquele sentido de tragédia que aumenta e que temos de aguentar enquanto agimos. Foi a primeira vez que aprendi a agir através desse ruído. Objetivamente, se olharmos para trás, o que tivemos de gerir foi o maior desastre ambiental da história americana — pelo menos nos Estados Unidos continentais — e fizemo-lo melhor ou tão bem como qualquer outro Governo. Mas no meio de tudo havia um sentimento de que as coisas estavam completamente fora de controlo. O fosso entre a perceção e a realidade do que estávamos a fazer era enorme. Estivemos em cima da situação desde o início. Quando aconteceu, pusemos as melhores pessoas em todos os nossos departamentos a trabalhar no assunto. Organizámos imediatamente a nossa Guarda Costeira, as forças armadas, o Departamento de Pequenas Empresas, o Ministério da Energia, para ajudar os pescadores que tinham perdido o seu ganha-pão, pequenos negócios que viam o seu negócio de verão evaporar-se, ao mesmo tempo que procurávamos tapar aquele maldito buraco. O que tornou a situação única foi que, para minha consternação e surpresa, nunca se tinha visto nada como aquilo. Tivemos literalmente de inventar uma solução. Deu muito jeito eu ter um físico vencedor do Prémio Nobel como o meu secretário de Energia. Ele desenhou literalmente uma pequena tampa que serviu de esboço para a construção de um mecanismo para fechar o maldito buraco. Mas isso levou três meses. O que a câmara lá em baixo mostrava era a pluma de petróleo a sair. Começámos a fazer humor macabro sobre o pelicano: parecia haver um pelicano que aparecia repetidamente, coberto de petróleo. Estava a gastar-se — talvez a melhor analogia será “escorrer” — capital político todos os dias. Até certo ponto, não era possível mudar a narrativa enquanto o buraco não estivesse fechado. Eu fui lá logo que começou. E não recebeu muita cobertura, porque as pessoas não compreenderam quão mau era, embora a pool de repórteres estivesse comigo. Duas semanas depois, com o buraco ainda aberto, recordo que James Carville [NT: ex-assessor político de Bill Clinton] vai à televisão e começa a gritar: “Porque é que o Presidente não está aqui?”. E o pobre Robert Gibbs, então secretário de imprensa, tentava lembrar a toda a gente: “Bem, o Presidente veio aqui há duas semanas quando vocês não estavam a prestar atenção”.

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Demasiado cedo.
Demasiado cedo. Não tínhamos calculado o momento certo para a oportunidade fotográfica. Mas falando a sério, um ano depois, quando pudemos dizer que não só tínhamos fechado a fuga como eu próprio, na Sala Roosevelt, tinha negociado com a BP um acordo de 20 mil milhões sem ir a tribunal, de modo a que toda a gente fosse paga e ainda sobrasse dinheiro, o que é bastante inédito; que tínhamos criado um fundo para ajudar o turismo, levando a que no ano seguinte o Golfo tivesse um ano turístico excecional; que havíamos estruturado um processo de recuperação que tornou uma grande parte da área afetada muito mais resiliente do que antes — quando olhávamos para todo o trabalho que havíamos feito, podíamos sentir orgulho. E isso deu-nos, a mim e à minha equipa, confiança em crises posteriores como essa. A do ébola foi o clássico exemplo. Eu diria que foi talvez a resposta de saúde pública mais eficaz em toda a história, internacionalmente. Não há dúvida de que salvámos centenas de milhares de vidas. Construímos a arquitetura para responder ao que teria sido uma verdadeira crise e conseguimos impedir que americanos fossem infetados ou morressem sem aplicar algumas das propostas mais loucas que andavam no ar, do género banir pessoas do país. Nessa altura, se calhar, já tínhamos aprendido a importância de gerir a imprensa o melhor possível. Talvez a imprensa tivesse aprendido que na maioria dos casos sabíamos o que estávamos a fazer, e isso mudou a natureza da cobertura. Acho que, por ocasião do décimo “‘Katrina’ de Obama”, já se tornara difícil alegar que era um “‘Katrina’ de Obama”.

Acha que desmentiu a presunção de incompetência que era associada ao derrame de petróleo?
Absolutamente. Pelo menos até ao lançamento do healthcare.gov [NT: o portal informático associado ao novo sistema de saúde, afligido por problemas desde o início] que foi inteiramente responsabilidade nossa. Acho que a nossa reputação de boa gestão, tão duramente conquistada, levou um golpe bem merecido. Foi deixar cair a esquerda e levar um soco no queixo. Embora mesmo aí tenhamos aprendido algumas lições e, em consequência, tenhamos revigorado toda a nossa operação digital. Mas o ponto central é que mantermo-nos focados e disciplinados nos momentos onde é mais provável as pessoas — e especialmente a imprensa — entrarem em pânico, de modo geral tem-nos servido bem. Nem sempre nos serve bem a curto prazo. Serve-nos bem a longo prazo, e é uma cultura que conseguimos criar. Sei que há alturas em que é visto como frio, tipo Spock, ou demasiado racional. Acho que as pessoas nem sempre percebem que eu vou lá, visito as pessoas que são afetadas por aqueles problemas e parte-se-me o coração. Penso nelas e dói-me o tempo todo. Não há uma falta de emoção. Mas há uma compreensão de que o mais importante que posso fazer por elas é conseguir dar uma resposta como ela deve ser. E acho que na maior parte dos casos fomos capazes. Parte disso, já agora, tem que ver com garantir que temos as pessoas certas desde o início. Ainda há pouco estive na Luisiana a lidar com as inundações na companhia de Craig Fugate [NT: o diretor da FEMA, a agência federal de emergências]. Aí está um exemplo de como, seja por sorte ou por boa gestão, eu tenho o melhor gajo — na Terra, se calhar — para gerir desastres naturais. É um servidor público excecional. A nossa insistência em ter pessoas que sabem o que estão a fazer, e a minha insistência à minha equipa e na Casa Branca de que comecemos com “Qual é a coisa certa a fazer?”, definindo a política ou as óticas só após ter determinado isso, é algo por que não peço desculpa.

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CUBA

Apertou a mão a Raúl Castro no funeral de Nelson Mandela. Que papel teve isso na decisão estratégica de prosseguir a abertura com Cuba?
Não teve papel nenhum na minha decisão estratégica de mudar a nossa relação com Cuba. Teve um papel, aparentemente, na perceção da nossa seriedade por parte de Cuba. Lembre-se de que a minha primeira alegada gafe como candidato presidencial foi dizer que me encontraria com Castro ou quem quer que fosse se achasse que isso serviria interesses americanos e fui bastante censurado por ser ingénuo. Ainda recordo, após esse debate, com as críticas a surgirem, chegar a uma videoconferência com toda a minha equipa de comunicações e dizer: “Não cedam. Eu quis dizer o que disse. Se vocês precisarem de orientações sobre os motivos por que o disse, terei prazer em as fornecer. Mas isto não foi uma gafe. O significado era mesmo aquele”. Portanto, cheguei com a premissa de que não falar com alguém não era um castigo, e às vezes leva-os a uma posição em que podem ignorar a nossa posição, tornando difícil formar coligações para pressionar países que estão a fazer coisas más. No meu primeiro mandato, já tinha alterado algumas das políticas respeitantes a envios e viagens por cubano-americanos, e isso tivera um impacto. Acho que já tinha mostrado que podia aguentar-me com a comunidade cubano-americana tomando a posição que dizia: “Se se tenta fazer algo durante cinquenta anos e não funciona, devemos tentar algo diferente”, particularmente entre a geração mais nova de cubano-americanos. Chega o segundo mandato e eu fiz um exercício com a minha equipa de Segurança Nacional dizendo: “Aqui estão as coisas que temos de fazer: contraterrorismo, Irão. Quais são as oportunidades para pensar em grande?”. Examinar as relações com Cuba estava quase no topo da lista. Portanto, já tinha encarregado a nossa equipa de começar a explorar como podia ser e de que modo podíamos estruturá-lo. Mandela morre, e pedem-me que discurse. E para ser franco, acho que nem nos tínhamos preparado para Castro estar no palco. Não foi o evento mais rigidamente organizado onde já estive. Acho que quem ia estar no palco e quem ia falar ainda se tornou mais fluído durante a nossa viagem até lá. Começou tarde e caía uma chuvada. As questões de segurança eram um desafio. Quando chegámos, já estava uma confusão. Toda a gente só estava preocupada em pôr-me no palco e a falar. Assim, o aperto de mão com Castro foi mesmo bastante espontâneo. Eu subo e há este tipo mais velho e eu digo: “Oh, acho que é Raúl Castro”. Mas estou a atravessar esta falange de líderes no palco. Penso que o primeiro-ministro Singh estava lá, e uma série de outras pessoas. Não apertar a mão, parece-me, teria sido um gesto inapropriado num funeral.

Pelo seu lado, integrou-se num cálculo de prós e contras?
Na verdade, não. Eis o que tem sido uma regra geral da minha presidência: acho que os impulsos humanos normais, a cortesia básica, não ficam à porta quando se é eleito Presidente. E eu já tinha apertado a mão a Hugo Chávez quando estive na minha primeira Cimeira das Américas.

Mas foi usado contra si.
Sim, mas não quis saber, porque depois descobrimos — e era a minha teoria provisória quando assumi o cargo — que Chávez ganhava em ser elevado a grande inimigo dos Estados Unidos. Se o tratássemos como o que ele era, o líder autoritário de um país que não estava a funcionar económica ou politicamente e que não podia realmente projetar muito para lá de retórica e não colocava nenhuma ameaça aos Estados Unidos, isso diminuí-lo-ia. Portanto, pode ter-me prejudicado com os republicanos que estavam a vociferar em Washington, mas decerto não me prejudicou na região. De facto, mostrou que o desarmava de uma forma que nos permitiu trabalhar muito mais de perto com os cubanos, ou com os mexicanos, ou os brasileiros, ou os chilenos ou outros para tentar abranger algumas das divisões tradicionais entre esquerda e direita na América Latina. Em suma, apertei-lhe a mão. Não considerei que fosse um gesto portentoso. Era eu a apertar a mão de um homem mais velho que se encontrava no palco onde eu fazia um elogio fúnebre. Mas os cubanos responderam de uma forma que eu talvez não esperasse. Nessa altura, já tínhamos algum contacto com o Governo cubano e estávamos a pensar no que podia acontecer. Eles interpretaram esse aperto de mão, e a disponibilidade para o dar num palco mundial, como um indício de maior seriedade. Desse modo, penso que facilitou a série de negociações que então tiveram lugar. O Vaticano foi muito útil. E conduziu ao anúncio político que acabámos por fazer.

DRONES

A 30 de setembro de 2011, um ataque de um drone matou Anwar al-Awlaki, o terrorista iemenita que também era cidadão americano. Foi visto aqui nos Estados Unidos como um gesto surpreendente de ‘falcão’, o que me lembrou um momento no seu debate sobre política externa com John McCain em que ele o atacou por o senhor dizer que violaria a soberania paquistanesa. A dinâmica da campanha até aí era que o senhor talvez não fosse suficientemente duro no terrorismo, e ele era o falcão. De repente, trocaram de lugares — e isso prefigurou o que a sua política viria a ser. Viu isso como uma armadilha em que ele ia cair durante o debate?
Acho que não fomos assim tão estratégicos. Aí está uma coisa que sempre me surpreende: até que ponto as pessoas não me levam à letra. Se recuar no tempo e ler discursos que fiz quando me candidatei ao Senado em 2003, ou recuar ainda mais e ler declarações que fiz quando estava na “Harvard Law Review” [NT: a prestigiada revista da Faculdade de Direito de Harvard, da qual Obama foi editor quando era estudante lá], a minha visão do mundo é bastante consistente. E geralmente procuro fazer aquilo que digo que vou fazer. Por exemplo, acreditei sempre que o Iraque era um erro. Nunca acreditei que fosse um erro tentar desmantelar completamente a Al-Qaeda. Fui sempre muito claro a dizer que uma das razões por que o Iraque foi um erro estratégico tão grande é que nos distraiu de acabar o trabalho no Afeganistão. E nunca afirmei que era um pacifista. No discurso onde anunciei a minha oposição à guerra no Iraque, a frase-chave era: “Não me oponho a todas as guerras. Oponho-me a guerras idiotas”. Fui muito explícito acerca do facto de que há alturas em que temos de usar as nossas forças armadas para proteger os interesses americanos e o povo americano. Mas devemos ser sábios e contidos a usar esse poder. Não foi muito complicado para mim quando o tópico apareceu no debate. Para ser justo com John McCain e também com candidatos do meu próprio partido, a sua argumentação geral era: “Talvez o faças, mas não anuncias”, certo? Não dizes às pessoas que o estás a fazer. Fazia parte da sabedoria convencional aqui em Washington. O meu ponto de vista era que, se estou a candidatar-me a comandante-chefe, é importante dizer ao povo americano quais os meus valores nucleares e as minhas políticas nucleares. Quando fosse Presidente, sem dúvida que haveria alguns limites institucionais em termos de como se fala sobre esses assuntos, mas basicamente nesse debate disse às pessoas o que pensava. O que foi mais interessante para mim, começando nesse debate e continuando ao longo da minha presidência, foi o nível a que os republicanos podiam estar de todos os lados no mesmo assunto, dependendo das decisões que eu tivesse tomado. Se eu dissesse que ia iniciar ações militares, vinha a crítica: “Isto é irresponsável” ou “Porque o fez assim?”. Se eu não o dissesse: “É fraco”. Isso chegou a um ponto em que a certa altura todo o debate sobre política externa nesta cidade ficou tão baralhado que acabou por ser libertador para mim, em certos aspetos. Começa-se a perceber que, bem, os tipos nem sequer procuram ser consistentes. Nem sequer tentam ser justos nas suas apreciações ou recomendações. Desse modo, o melhor para mim é tentar perceber o que é mais correto, fazer isso mesmo, e preocupar-me depois com a classificação que Washington me dá. Foi uma lição valiosa, de duas maneiras. Uma, porque me ensinou a confiar no meu julgamento. Segunda, porque me ensinou que tinha de ser autocrítico e criar uma estrutura para avaliação efetiva e construtiva de decisões que poderia tomar, e assegurar que todos os pontos de vista eram ouvidos, pois, com franqueza, não podia apenas confiar no ruído lá fora. Se examinar algumas das decisões que tomámos subsequentemente, seja a decisão de fazer parte de uma coligação internacional que impedisse Kadhafi de matar o seu próprio povo ou a decisão de apanhar Bin Laden, e mais proeminentemente, acho, as decisões sobre a Síria após Assad ter usado armas químicas — nestas várias decisões, parte do que tentei institucionalizar foi um processo interno rigoroso. Mas também uma insistência de que não ia simplesmente aceitar a cartilha de Washington, qualquer que ela fosse. Até porque muitas vezes era incoerente. Você fala no caso da Síria, que tem sido muito remoído. Mas continua a fazer-me confusão até que ponto as pessoas parecem esquecer-se de que de facto retirámos as armas químicas da Síria. A ideia parece ser: “Bem, devíamos ter rebentado com qualquer coisa, mesmo que isso não implicasse que as armas químicas seriam retiradas”. A minha decisão não foi deixar Assad fazer o que quisesse. Foi ver se, sem atacarmos, podíamos negociar um acordo para retirar aquelas armas químicas — e ir ao Congresso pedir autorização, porque em nada tem o Congresso sido mais incoerente do que no que respeita aos meus poderes. Havia pessoas como Marco Rubio, acho eu, que se queixava de não estarmos a fazer nada, e quando anunciei “Vou apresentar ao Congresso”, disse de repente: “Bem, vou votar contra”. Talvez fosse Ted Cruz. Talvez os dois. Tomavam as posições todas. O princípio essencial — e isto não é verdade para todos, mas para muitos sim — era: “O que temos de garantir é que não nos culpem de qualquer decisão que ele tome”. Voltando ao assunto mais geral, e em coerência com esta ideia de tentar institucionalizar a discussão rigorosa e uma atitude de fazer pontaria antes de disparar, o poder subsequente que desenvolvemos de levar a cabo ataques com drones e as preocupações legítimas das pessoas sobre o que isto significa em termos de poder presidencial e de poder militar — em especial ao princípio, quando era secreto — levou-me a desclassificar as nossas ações contra Awlaki. E conduziu à política que anunciei na National Defense University (Universidade Nacional da Defesa) para começar a construir uma transparência maior, um mecanismo interno para rever decisões. Esse trabalho tem continuado ao longo dos anos. Este ano, por exemplo, após uma data de disputas entre agências, pudemos dar início às nossas estimativas sobre os civis que terão sido mortos nalgumas dessas ações. É um legado muito importante para mim. Não vai marcar muitos pontos politicamente. É imperfeito, pois existem genuinamente alguns limites institucionais. Não podemos publicitar tudo o que fazemos sem constranger a nossa eficácia a proteger o povo americano. Mas quando eu me for embora, o povo americano terá uma melhor perceção daquilo que o Presidente faz. O seu ou a sua Presidente serão mais responsabilizados do que teriam sido de outra forma. Acho que o mundo terá um sentido melhor do que tentamos fazer e daquilo que defendemos. E tudo isso servirá bem o povo americano no futuro.

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Quando ouve os críticos à esquerda exprimirem o que não gostam na sua presidência, a palavra drone poderá surgir mais do que qualquer outra coisa. É algo que tinha antecipado desde o início?
Não. E sabe, eu... digo-o sinceramente: ainda bem que a esquerda me pressiona nisto. Tenho dito à minha equipa, aos chefes militares, na Situation Room [NT: uma sala na Casa Branca, equipada com um sistema de comunicações protegido, a partir da qual são geridas e monitorizadas crises relacionadas com segurança]: não quero nunca chegar ao ponto em que estejamos muito confortáveis com matar. Não foi para isto que quis ser Presidente, para matar pessoas. Quero educar crianças e dar cuidados médicos às pessoas, e ajudar a alimentar os famintos e a aliviar a pobreza. Portanto, acho que as críticas são justas ou plenamente informadas? Nem sempre. Às vezes são. A maior parte do tempo não são. Para dar o exemplo mais básico, acho que as pessoas nem sempre reconhecem que nesses ataques de precisão a taxa de baixas civis, ou a taxa de mortes inocentes, é significativamente menor do que numa guerra convencional. Um dos sítios em que isto se viu, curiosamente, foi no raide para apanhar Bin Laden. Tínhamos a opção menos arriscada de simplesmente disparar um míssil contra aquele complexo. Eu tomei a decisão de não o fazer principalmente por ser importante, se de facto fosse ele, podermos identificá-lo. Mas dependendo de como se define inocentes, algumas pessoas naquele complexo que não eram Bin Laden e podiam ser consideradas inocentes, incluindo uma das suas mulheres, foram mortas. Enquanto percentagem, isso poderá contar como danos colaterais, e terão sido maiores do que se tivéssemos simplesmente disparado numa altura em que o complexo estivesse relativamente vazio. O que direi, porém, é que a crítica aos drones tem sido importante, pois assegurou que não teremos conforto e inércia institucionais com aquilo que parece uma forma bastante assética de dispor de inimigos. Direi que o que suscitou uma data das reformas internas que estabelecemos teve menos que ver com aquilo que a esquerda ou a Human Rights Watch ou a Amnistia Internacional diziam do que eu olhar para o aumento do número de ataques com drones e com o modo rotineiro como a Defesa e a CIA e as nossas equipas de espionagem encaravam isto nos começos da minha presidência. Incomodava-me, porque acho que se pode vislumbrar no horizonte uma situação em que, com o Congresso pouco interessado em restringir ações que se valem de autorizações escritas em tom muito genérico, podíamos acabar com um Presidente que levasse a cabo guerras perpétuas pelo mundo fora, muitas delas secretas, sem qualquer responsabilização ou debate democrático. Mas direi que o facto de essas organizações terem continuado a questionar e a protestar assegurou que, havendo tomado aquela decisão inicial, fomos em frente e levámo-la até ao fim. Não é uma solução perfeita, conforme anunciei quando publicámos as nossas melhores estimativas sobre baixas civis. Penso que a América vai ter de continuar o seu esforço para encontrar o equilíbrio entre não elevar cada ataque terrorista a uma guerra completa nem nos deixar expostos a ataques ou, em alternativa, fingir que podemos simplesmente disparar onde quisermos e não respondermos perante ninguém. O que tentei fazer foi virar a agulha na direção correta, estabelecer algumas tendências nessa direção. Mas haverá muito mais trabalho a fazer. Um último ponto. Em todos os assuntos que discutimos, mas certamente em assuntos de guerra e paz, mantém-se a necessidade de um Congresso mais eficaz, e também a conveniência de legislação como a melhor solução para a maioria destes problemas.

Não está a falar apenas de ataques com drones.
Estou a falar sobre tudo. Na minha cabeça, o Affordable Care Act foi um enorme sucesso, mas tem problemas reais. São problemas eminentemente consertáveis, em termos de fortalecer o mercado, melhorar os subsídios de modo a mais pessoas poderem obtê-lo, garantir o Medicaid [NT: o sistema de apoio na saúde a pessoas com recursos limitados] para toda a gente que era qualificada na legislação original, fazer mais na contenção de custos. Mas atinge-se um ponto em que, se o Congresso não está disponível para fazer quaisquer modificações construtivas e é tudo futebol político, fica-se com uma solução medíocre. Eu posso esforçar-me — e temo-lo feito — para atingir o equilíbrio certo entre as questões com a NSA e a necessidade de recolher informação e praticar contraterrorismo. Mas foi realmente útil quando, num raro momento bipartidário, conseguimos fazer o USA Freedom Act [NT: a lei que criou algumas restrições à recolha de informação sobre americanos por agências como a NSA]. Ele instituiu certas reformas e refletiu um forte consenso. Eu acabei por tomar uma série de medidas executivas de que me orgulho muito, porque resolvem problemas reais e estavam bem dentro da minha autoridade legal. Mas não perdi a minha preferência pelo bom e velho debate, leis, e o processo democrático. Se há um desejo que tenho para os futuros presidentes, não é uma presidência imperial, é uma maioria-e-oposição funcional e sensata que seja capaz de tomar decisões baseada em factos e política e compromisso. Essa teria sido a minha preferência na maior parte da minha presidência. Foi uma opção que nem sempre esteve disponível. Mas espero que o povo americano continue a perceber que é desse modo que o sistema devia funcionar.

* Tradução de Luís M. Faria

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 5 de novembro de 2016