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Polícia iraquiana acusada de matar e torturar civis a sul de Mossul

AHMAD AL-RUBAYE

Amnistia Internacional recolheu provas das execuções de pelo menos seis homens em subúrbios da segunda maior cidade do Iraque, de onde militares do autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) estão a fugir levando consigo centenas de mulheres, crianças e homens para usarem como escudos humanos

Um grupo de homens vestidos com uniformes da polícia federal iraquiana terá torturado e matado residentes de duas aldeias a sul de Mossul, nos subúrbios de Shura e Qayyarah. A acusação é feita pela Amnistia Internacional, que diz ter recolhido provas de que até seis pessoas foram executadas extrajudicialmente após terem sido detidas por alegadas ligações ao autoproclamado Estado Islâmico (Daesh). As autoridades iraquianas ainda não reagiram oficialmente à alegação.

Cerca de 50 mil tropas e forças de segurança iraquianas, combatentes curdos (peshmerga), membros de tribos sunitas árabes e militantes xiitas estão envolvidos na operação para reconquistar Mossul, iniciada há três semanas com o apoio aéreo da coligação internacional liderada pelos EUA com o objetivo de expulsar os militantes do Daesh do seu último bastião no Iraque.

De acordo com informação obtida pela Amnistia, dez homens e um rapaz de 16 anos que tentou escapar de Nus Tal terão sido torturados após se terem entregado a um pequeno grupo de homens que envergavam uniformes da polícia iraquiana a 21 de outubro. Pouco depois, aponta a organização humanitária, chegaram reforços ao local e os homens foram levados, a pé, por uma área deserta que liga Qayyarah a Shura, no sul da segunda maior cidade iraquiana.

Os alegados agentes da polícia terão espancado o grupo de homens com cabos e espingardas, esmurrando-os e pontapeando-os e pegando fogo à barba de um deles. Três dos homens terão depois sido separados dos restantes e espancados brutalmente antes de serem abatidos a tiro. Os seus restos mortais foram encontrados na área cinco dias depois. O corpo de um quarto homem, que foi algemado e levado pelo grupo de agentes depois de ser espancado, foi encontrado perto da zona quase uma semana depois, aponta a Amnistia. Também a 21 de outubro, outro homem foi encontrado vendado e morto com dois tiros pouco depois de ter abandonado a sua casa perto da fábrica sulfúrica de Mishraq, a que os militantes do Daesh pegaram fogo antes de abandonarem o local. O grupo de direitos humanos diz que a sexta vítima terá sido abatida ao tentar fugir das alegadas forças de segurança.

"Quando a operação militar em Mossul começou, o primeiro-ministro Haider al-Abadi deixou claro que não iriam ser toleradas quaisquer violações pelas forças armadas iraquianas e seus aliados", refere Lynn Maalouf, vice-diretora do escritório da Amnistia em Beirute, capital do Líbano. "Agora está na altura de ele provar isso mesmo. As autoridades iraquianas devem investigar de imediato estes relatos alarmantes sobre execuções extrajudiciais e tortura. Devem remover do serviço todos os indivíduos suspeitos de cometerem crimes de guerra e outras violações graves de direitos humanos até que as investigações judiciais sejam concluídas.

Depois da reconquista de Fallujah ao Daesh, no final de junho deste ano, algumas fações das Forças de Mobilização Popular xiitas (que integram a Organização Badr, uma fação apoiada pelo Irão), foram acusadas de cometer graves atrocidades contra os sobreviventes, como massacrarem civis sunitas antes de obrigarem outros a beber o sangue dos seus parceiros acabados de executar. “E há outros grupos extremistas xiitas apoiados pelo Irão que às vezes usam uniformes do Governo [iraquiano], aumentando ainda mais a ameaça que representam”, alertou ao Expresso Tallha Abdulrazaq, especialista em Médio Oriente da Universidade de Exeter, no dia em que a operação pela retomada de Mossul começou, a 19 de outubro.

As autoridades iraquianas ainda não reagiram oficialmente às acusações da Amnistia. A situação no terreno dentro e ao redor de Mossul continua explosiva, havendo relatos de que, nos últimos dias, centenas de militantes do Daesh fugiram de subúrbios da cidade levando consigo à força mulheres, crianças e homens para serem usados como escudos humanos nas batalhas que se antevêem no terreno.

As forças curdas que integram a ofensiva para retomar Mossul disseram entretanto à BBC que a aparente derrota do grupo radical naquela cidade iraquiana, perante o amontoar de relatos sobre a fuga de militantes, deve ser encarada com cautela, havendo enormes receios entre os peshmerga de que a situação pode ser um mero prelúdio das duras batalhas que ainda estão por vir.

De acordo com dados da ONU, cerca de 1,5 milhões de civis continuarão encurralados em Mossul, em tempos o centro industrial e comercial do Iraque, que foi tomada em poucos dias pelo Daesh em junho de 2014. As forças iraquianas e a coligação crêem que restam entre 4 e 8 mil militantes jiadistas na cidade, entretanto ordenados pelo seu pretenso califa, Abu Bakr al-Baghdadi, a "lutarem até à morte" pelo controlo do território.