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Trump. A vitória mais imprevisível de sempre

\302\251 Lucas Jackson / Reuters

Provavelmente contam-se pelos dedos das mãos as sondagens que, de entre as centenas divulgadas ao longo da campanha eleitoral, previram a vitória de Donald Trump. Candidatou-se contra o sistema, contra os políticos, contra os "politicamente corretos" e os "liberais de esquerda", até contra o próprio Partido Republicano, que nunca o quis a disputar a Casa Branca. Contra tudo o que era esperado, a contagem dos votos ao longo desta madrugada aponta para a sua vitória incontestável. Será a ele, o líder da campanha mais racista, sexista e imprópria de que há memória nos EUA, que Barack Obama passará o testemunho em janeiro. Ninguém sabe realmente o que esperar a partir daí

Harvard tem os Adams, os Roosevelts e os Kennedys. Yale tem os Bush. Princeton tem Woodrow Wilson e Columbia Barack Obama. A Universidade da Pensilvânia, contudo, nunca viu nenhum ex-aluno ser eleito Presidente – quase aconteceu com William Henry Harrison, que morreu um mês depois de tomar posse em 1841, mas que nunca chegou a concluir o curso. Agora, e pela primeira vez, a Penn poderá honrar-se de ser a alma mater de um Presidente norte-americano. Ou assim seria se esse Presidente não fosse Donald Trump.

Foi em 1968 que o magnata de imobiliário e ex-estrela de reality shows concluiu a licenciatura em Wharton, a faculdade de gestão da Penn. “Fui para uma escola da Ivy League”, disse em modo de autoelogio há algumas semanas num comício em St. Augustine, na Florida – um dos estados onde alcançou uma surpreendente vitória nas eleições deste ano. “Wharton é provavelmente a escola mais difícil de se aceder”, acrescentou numa entrevista recente no programa Meet the Press. "Algumas das maiores mentes do mundo dos negócios estudaram em Wharton.”

Na Penn ninguém parece partilhar do orgulho. Nos últimos dias, enquanto o Wellesley College se preparava com animação para o que parecia ser a provável eleição da sua mais famosa aluna, em Wharton e no campus principal da Penn o humor era o oposto, com milhares de atuais alunos da faculdade a assinarem uma carta aberta anti-Trump (sem qualquer carta aberta a favor dele) – notório o desejo de se demarcarem do homem que fez a campanha mais racista e sexista de que há memória nos Estados Unidos e que chegou a usar a cartada Wharton quando foi confrontado com o facto de ter gozado com um jornalista portador de deficiência (“Nunca faria isso”, disse numa entrevista a Jack Tapper. “Sou uma pessoa esperta. Andei na faculdade de gestão de Wharton.”)

No domingo, o “Politico” referia que a subida de popularidade de Trump na reta final destas eleições causou mais do que ansiedade no campus da universidade da Pensilvânia (um estado importantíssimo que, ironicamente, também contribuiu para a sua vitória): pôs alunos em pé-de-guerra com os administradores por terem aceitado doações dele e por terem ficado em silêncio de cada vez que o empresário com mais falhanços do que sucessos no currículo violou o princípio básico de tolerância que, em teoria, rege a universidade. No mesmo artigo, uma questão que queimava: “Vai a subida de Trump, subitamente o mais famoso aluno da Penn em todo o planeta, deitar a escola abaixo?”

Quando essa reportagem foi publicada, quase ninguém imaginava que Trump ia conseguir derrotar Hillary Clinton. Pelas 3h30 da madrugada de 9 de Novembro de 2016 (hora de Lisboa), o “New York Times” revia o jogo das probabilidades: ao início da noite eleitoral dava 80% a Clinton mas a essa hora já antecipava 79% de hipóteses de o seu adversário vencer. Meia hora depois, Trump era declarado vencedor na Carolina do Norte, já depois de ter vencido no Ohio e na Florida. O pesadelo de muitos tornou-se realidade pelas 7h30 da manhã, quando as últimas contagens de votos confirmaram as suas vitórias no Wisconsin, Michigan e Pensilvânia. De repente, a pergunta que tem ocupado as mentes dos alunos da Penn tomou de assalto milhões em todo o mundo, numa versão mais grave: “Vai a vitória de Trump deitar o mundo abaixo?”

Contra todas as expectativas e sondagens, na manhã de 20 de janeiro de 2017, apontava a revista "New Yorker" durante a madrugada, será Trump e não Clinton quem irá cumprir o ritual da passagem de testemunho: vai tomar café com Barack Obama na Casa Branca, antes de partilharem uma limusine, Obama sentado à direita, Trump à esquerda, na viagem até ao Capitólio, onde a sua tomada de posse terá lugar. Nesse dia, vão faltar cinco meses para o próximo Presidente dos EUA fazer 71 anos. É o mais velho líder eleito para um primeiro mandato na História do país, sete meses mais velho que Ronald Reagan quando o 40.º líder norte-americano foi eleito em 1984.

Poderá dizer-se que é a vitória mais inesperada e mais temida de sempre. Nas próximas semanas, analistas de todo o mundo vão desdobrar-se em antevisões de uma presidência Trump, um exercício de futurologia ingrato, um cálculo quase impossível de fazer no imediato. Glenn Greenwald, o jornalista que ajudou as denúncias de Edward Snowden a chegarem às massas, resumiu da melhor forma a sensação com que alguns de nós se foram deitar e que assaltou outros tantos quando acordaram nesta quarta-feira, histórica pelas piores razões. “Não penso que haja alguém que consiga processar as implicações de termos Donald Trump na presidência dos EUA.” Em breve vamos começar a descobrir.