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Trump: outra bofetada nas elites

Mark Lyons / Getty Images

Depois do Brexit, da Polónia, da Hungria ou das Filipinas, a vitória de Donald Trump é um novo sinal da rejeição das elites políticas um pouco por todo o mundo

Há claramente um novo fenómeno político em marcha no mundo, capaz de iludir as sondagens e de nos surpreender. Grupos importantes da população, tanto do ponto de vista numérico, como sociológico, deixaram de se rever nas cúpulas políticas, nas elites empresariais, nos universitários e nos próprios media.

Se estivéssemos na Revolução Industrial ou no tempo da Guerra Fria, teríamos movimentos de massas na rua, grandes mobilizações sindicais e uma acesa luta política. Mas não estamos. Os partidos comunistas implodiram com a queda do Muro de Berlim e os socialistas e sociais-democratas não só não se aproximaram das massas populares como se afastaram destas, deixando de aspirar à reforma do sistema capitalista e remetendo-se à sua mera gestão, coisa em que os neo-liberais se revelaram bastante mais agressivos e eficazes.

Tudo isto criou um vazio junto das bases operárias, das classes trabalhadoras, dos pobres, dos desempregados, dos desiludidos, que, à falta doutras alternativas, passaram a estar recetivos aos discursos antissistema, quando não xenófobos e primários, pois nada mobiliza melhor os desesperados do que ideias, não necessariamente certas, mas simples de fixar e repetidas até à exaustão.

Numa primeira e ainda muito sumária análise à votação de Trump é justamente o voto em massa do operariado branco inquieto com o seu futuro (nomeadamente em indústrias tradicionais como a siderurgia ou o automóvel) que, juntamente com o voto rural dos estados das montanhas e das planícies do interior e acrescido do voto ultraconservador dos cristãos fundamentalistas ajuda a explicar a diferença de votação relativamente a Hillary Clinton. E que passou pela viragem eleitoral em estados que nos últimos anos tinham votado Obama e pelo operariado a ignorar as diretivas sindicais pró-Hillary.

Há quatro ou cinco anos chegou a haver um esboço de renovação política nos Estados Unidos com o regresso da contestação e dos movimentos de massas. À direita era o movimento do Tea Party a federar a contestação a Obama num ambiente quase festivo e muito participado. À esquerda era o movimento Occupy Wall Street, a pôr em causa a injustiça da distribuição da riqueza e os abusos dos multimilionários. E, no meio de uma animação de rua como há muito não se via, fervilhavam artistas, manifestações sem igual nas décadas anteriores, hackers a piratear os grandes sistemas de informação e vigilância e, nalguns casos, a revelar segredos oficiais, como no caso de Edward Snowden e da megavigilância às comunicações feita pela NSA.

Ambos os movimentos esmoreceram, diluindo-se na espuma das redes sociais e da democracia instantânea. E tal como o Dr. Jekkil, privado da sua droga, se transformava em Mr. Hyde, também os movimentos de massas, na ausência de perspetivas políticas, correm o risco de se transformar em hordas de linchadores, ainda por cima armados.

Nestes últimos dias de campanha, a perspetiva de um homem inculto, volúvel, com um discurso primário e xenófobo, vindo dos programas de telelixo chegar à Casa Branca levou a que sectores das elites, tanto à esquerda, como à direita ou ao centro questionassem a capacidade ou mesmo o direito de as massas poderem decidir. Exemplo disso o artigo de Andrew Sullivan no seu blogue “New York”, questionando se a América estaria madura para a tirania. Ou defendendo que “a sociedade hiperdemocrática [televisões, redes sociais, etc] mina a barreira fundamental entre a vontade popular e o exercício do poder”.

Como se vê, o divórcio entre elites e povo não podia ser maior.