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Porque voltaram a falhar as sondagens?

Win McNamee / Getty Images

Tal como no Brexit, os estudos de opinião revelaram-se incapazes de detectar viragens decisivas do eleitorado. Culpa da metodologia ou situações inesperadas?

Nenhum grande jornal ou cadeia de televisão norte-americana foi capaz de prever o terramoto eleitoral que levou Donald Trump à Casa Branca, da mesma forma que no Reino Unido as sondagens tinham passado ao lado da iminência do Brexit.

Para se poder tentar compreender um fenómeno que, pelos vistos, não é fortuito nem limitado a um só país, tem que se olhar para as duas pontas do bastão: quem sonda e quem é sondado.

Comecemos por quem é sondado. Em Portugal, verificou-se muitas vezes um sistemático desvio nas sondagens que consistia na subvalorização das votações do PCP (e nalguns casos também do CDS). A explicação encontrada foi que algum do eleitorado comunista, talvez por desconfiança num eventual enviesamento político das sondagens ou por reflexo condicionado do tempo da clandestinidade, não participava ou dava deliberadamente indicações erradas.

Nos EUA, há claramente um fenómeno de rejeição das elites por parte significativa das classes populares, a qual se estende a políticos, universitários, media e, por arrastamento, às sondagens. Logo, parte dos sondados rejeita-as, pura e simplesmente, não querendo ser inquirido. Falando aos microfones da Antena 1, Pedro Magalhães, investigador da Universidade Católica, chamou justamente a atenção para a baixa taxa de participação nalgumas sondagens americanas, em que mais de metade das pessoas se recusou a participar.

Logo, tal como uma broca duma empresa de engenharia civil furando através de uma bolsa subterrânea vazia com minério dos dois lados, a sondagem pode passar a dois palmos de informações importantes que não é por não serem registadas que não estão lá.

Do lado de quem sonda, parece haver alguma incapacidade em lidar com campanhas muito aguerridas e polarizadas em que, pelo menos de um dos lados, a demagogia atinge o zénite. Aconteceu no Reino Unido, quando Boris Johnson ou Nigel Farage, campeões da saída da União Europeia, assumiram a posteriori que mentiram preto no branco durante a campanha. No caso específico dos EUA, as sondagens terão claramente passado ao lado da maior participação eleitoral e, inclusivamente, da mobilização de pessoas que habitualmente não vão às urnas. Muito menos detetaram o afastamento que já ocorrera por ocasião da eleição de Ronald Reagan, entre o operariado branco, tradicionalmente progressista, e as diretivas dos sindicatos, que em ambas as eleições apelavam ao voto democrata.