Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Perplexidade e perguntas de jovens portugueses à vitória de Trump

MANDEL NGAN/ Getty Images

“Por favor não destruam os meus sonhos”, diz Lourenço numa música dedicada à vitória de Donald Trump. Pedro e João temem uma terceira guerra mundial. Manuel teme a expulsão dos negros

Há crianças e jovens portugueses a olhar com preocupação para a eleição de Donald Trump, a presidente dos Estados Unidos da América. Levantam questões, fazem perguntas e há até quem componha um poema para uma música. Têm medo que esta subida ao poder abra portas para uma terceira guerra mundial. Preocupam-se com o racismo e temem que Trump seja insensível às alterações climáticas. O Expresso recolheu depoimentos diretos e indiretos de portugueses com menos de 18 anos.

Inesperadas mudanças que preocupam

Pedro Antunes Ferreira, 16 anos

"Acompanhei, com preocupação, durante meses a campanha presidencial nos Estados Unidos, pois vejo diariamente os noticiários. Antes de adormecer, estava tão ansioso por saber qual era o resultado da eleição, que acabei por acordar às 06:00 da manhã! Liguei o tablet para saber os resultados e, confesso, fiquei surpreendido, no mau sentido, pois são inesperadas as mudanças que poderão surgir no mundo como o conhecemos (que já não é bom).

Não é só a forma como ele pensa em relação às mulheres, às minorias, as ligações ao Ku Klux Khan, a história do muro ou de acabar com o Obamacare e outras coisas que me parecem positivas num mundo 'normal'. Isso será certamente terrível para o povo americano. Mas há que falar também do impacto para o resto do mundo. Vi há pouco o documentário do Leonardo Di Caprio sobre as alterações climáticas. Preocupa-me o que o Trump pensa sobre isso pois todos nós, o mundo inteiro, depende do empenho dos grandes líderes mundiais. Ainda mais preocupante, é ter uma pessoa como esta, com acesso direto ao 'botão nuclear'. Basta juntar duas pessoas malucas (ele e o presidente da Coreia do Norte, por exemplo) para se começar uma 3ª Guerra Mundial. E isso diz respeito a todos nós!"

Não quero que o mundo entre em guerra

João Andrade, 8 anos. Tomás Andrade, 10 anos

Lisboa, poucos minutos depois das sete e meia da manhã. O João, de oito anos, acorda e sabe pelo pai que as notícias davam já como certa a vitória de Donald Trump, de quem muito se falou na escola e em casa ao longo dos últimos dias. Não adiantou tentar relativizar pois os olhos de espanto ficaram imediatamente alagados de lágrimas: “…mas eu não quero que o mundo entre em guerra. O Trump é mau e não tem o direito de ganhar”, vocifrou. O irmão mais velho, Tomás, de dez anos, assiste àquele amanhecer diferente e, incrédulo, pergunta ainda estremunhado: “Ó pai, mas ele ganhou mesmo?”.

Já com a televisão desligada impõe-se dizer que o mais importante é não chegarem atrasados à escola, para tentar desviar as atenções do assunto em que ninguém quer acreditar. “E agora, pai, o que é que vai acontecer?”, pergunta o João. Pergunta, mas fica sem resposta, pelo menos por mais umas horas. “…Vá lá, toca a despachar”, que isto de explicar a uma criança de oito anos o que é que pode acontecer a seguir pode levar algum tempo.

Ele vai expulsar todas as pessoas de raça negra

Manuel Gomes, 12 anos

O Manuel, 12 anos, 7º ano, foi quem acompanhou as eleições com mais atenção dentro do seu núcleo familiar. Esteve sempre preocupado com a hipótese de Donald Trump ganhar, porque se apercebeu que o candidato não podia ser uma boa pessoa já que, por exemplo dizia o Manuel, “não gosta de imigrantes”. Hoje de manhã, quando a mãe o acordou e lhe disse que o Trump tinha ganho, ficou incrédulo. Deu um salto da cama e atirou: “Estás a gozar?! Ele vai expulsar todos as pessoas de raça negra dos EUA! Como é que puderam votar nele?!”. Manuel ficou chocado também porque Trump além de ser racista, gosta de armas.

Como é que uma brincadeira pode trazer tanto medo

João Lourenço Campos, 17 anos

Ao meio dia, João Lourenço já tinha um poema escrito sobre "a inesperada vitória" de Donald Trump para a sua banda, a aveirense Clay. Logo pela manhã, João Lourenço foi à procura no Twiter de novidades sobre as eleições nos EUA. "O Trump tinha ganho. Não quis acreditar, fui ao Google confirmar", conta. Era verdade e era mau, diz. Decidiu escrever um poema "para expressar a sua revolta" contra um governante que tem como mensagem principal "a exclusão" dos outros, os que são diferentes. Agora a banda Clay, composta também por Pedro Tavares, Vasco Amaral Nascimento e Carlos Capela, vai musicar o poema, onde Lourenço pede "por favor não matem os meus sonhos" ou "como é que uma brincadeira pode trazer tanto medo".

O poema:

“Orangie orange dump
Please don't kill my dreams
With your orange greedy beams

The battle just ended
Between Hitler and Napoleon
Shockwaves were felt everywere
The trial was dumb and unfair

Were on a stairway to destruction
By the victory of this dump
Please don't kill my dreams! Fuck you Donald Trump.

How can this joke de so real ?
How can a joke bring such fear ?
How haver we came to this?
Sold out with money and a kiss”