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“Para os nova-iorquinos isto não é o país deles”

Elsa/Getty Images

Nova Iorque votou em Hillary Clinton, mas o país está no fio da navalha. A cidade que vive da sua pluralidade cultural está em choque: isto é tão bom por aqui, porque será que o país não quer reproduzir o modelo?, questiona-se, ao telefone com o Expresso, a designer portuguesa Ana Paula Simões, que há um ano escolheu Nova Iorque para viver - não se arrepende da decisão, mas admite que as coisas possam ficar mais difíceis para quem precisa de vistos

Ana Paula Simões, designer de 29 anos, fala ao Expresso de uma casa onde está reunida com amigos a acompanhar as eleições. Não existe uma única pessoa que apoie Trump - é normal, são designers nova-iorquinos. Mas naquela sala está tudo para lá de Clinton: só Bernie Sanders na Casa Branca faria estas pessoas felizes. Mas não são essas as opções em cima da mesa.

Enquanto falamos ao telefone, o “New York Times” vai revendo em baixa as possibilidades de que Hillary Clinton venha a vencer a eleição - de 80% para 60% - e há um silêncio que se abate, cá e lá, sobre a conversa, e que é feito sobretudo de incompreensão.

Ana mudou-se quase exatamente há um ano para a cidade, que conheceu numa viagem como turista mas, já no Porto, onde trabalhou e estudou, continuava a pensar naquele sítio permanentemente arejado por uma brisa de inclusão, de respeito pela diferença, de oportunidade.

Teve que se mudar. Conseguiu um visto aparentemente seguro mas “nada está seguro com Trump”, porque “a retórica anti-imigração dele assusta até quem tem vistos apoiados nas suas competências. Eu não sei se posso renovar o meu e o do meu marido, que vai concorrer a um visto em 2017 e pode encontrar muito mais dificuldades do que até aqui”, diz.

As razões por trás da ascensão de Trump passam ao lado de muitos nova-iorquinos, mas pelas conversas que tem mantido com pessoas de outros estados, Ana Simões encontra apenas uma explicação: “As pessoas parecem esquecer as coisas absolutamente chocantes que Trump diz e reter apenas aquelas ocasiões em que ele apresenta políticas conservadoras especÍficas que lhes parecem uma panaceia para os seus problemas, tal como os cortes na imigração, por exemplo”.

É o regresso a uma América patriarcal, estratificada, bucólica, da qual Jonathan Kay, jornalista canadiano, falava numa recente peça que escreveu para a revista “The Walrus”. É como se a solução estivesse num passado onde toda a gente tinha emprego - só que, como refere Ana Simões, “o passado antes da crise parece um lugar bonito e como a crise coincidiu com o aumento da imigração e do alargamento de direitos para os imigrantes, as pessoas associam os seus problemas a um crescimento da imigração que necessariamente vem modificar a organização social, religiosa, étnica da sociedade”.

“O que os Estados Unidos têm de fabulosos é mesmo isso: é ir comer chinês à segunda, kosher à terça e halal na quarta. Para um nova-iorquino aperceber-se que o país não só não partilha desta comunhão como quer rever e até quebrar a que já existe é motivo de grande incompreensão e até de vergonha”, completa.