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Kentucky. “De um lado agricultores, do outro ex-mineiros: o que é que se esperava?”

John Sommers II

Charles Harron cresceu no Kentucky, na cidade de Lexington, tem 43 anos e é advogado na área da saúde. “Basicamente defendo os médicos e as enfermeiras que se metem em apuros por atender gente sem seguro de saúde”, diz Harron ao Expresso a partir de casa, onde está com a família a acompanhar a contagem dos votos. A luta deles não é pelo estado, “mais que perdido” para os republicanos, mas sim pelo país

Além das cidades de Louisville e Lexington, que são “bastante mais educadas e liberais”, o estado do Kentucky “é um microclima perfeito para Donald Trump”, diz Harron. Isto porque o estado se encontra dividido entre “agricultores a ocidente e ex-mineiros a oriente, duas classes profissionais extremamente conservadoras e que perderam muito com a crise financeira e com a mudança do foco da economia dos sectores primário e secundário para o dos serviços”, completa Harron.

Por ser um estado com esta tradição, a maioria das pessoas acaba por considerar que algumas das principais políticas que os democratas defendem, como por exemplo mais investimento na educação, não lhes virá resolver os problemas: “É comum ouvir coisas tipo ‘o meu avô sempre teve trabalho e nunca estudou, nem o pai e sempre conseguiram sustentar as suas famílias”.

O advogado identifica ainda um outro problema: a religião. “A direita mais religiosa odeia os Clinton, consideram-nos parte de um poder que corrompe, parte de uma elite que não quer saber das pessoas comuns, além disso, claro, Bill Clinton é um adúltero mas ninguém parece importar-se que o Trump se tenha casado três vezes ou que trate as mulheres como objectos. Um ódio tão sedimentado é difícil de dissipar”.

A luta, repete, é pelo país e pela percepção que as pessoas irão construir se os americanos elegerem alguém “que terá nas mãos as nossas armas nucleares e que se exaspera com um simples comentário na internet”.

Mas Harron também não adora Hillary Clinton, não confia nela, é apenas dos males o menor: “Da votação que a Clinton tiver no Kentucky, alguma será genuína mas muita será de pessoas que simplesmente não conseguem conceber Trump como presidente como eu e muitos dos meus amigos”.

“O Trump tem este nível de apoio porque ele diz o que as pessoas querem ouvir. As pessoas não querem acreditar que os seus falhanços são culpa sua então transferem as frustrações para os imigrantes” Apesar de ficar no centro do país, o Kentucky tem uma percentagem bastante elevada de imigrantes mexicanos que estão presentes em todas as principais atividades do estado. “Nas corridas de cavalos, por exemplo, uma actividade central na economia, são os mexicanos que asseguram o tratamento dos animais, a limpeza dos estábulos, a construção das infra-estruturas, tudo. E olha o setor da restauração: em todas as cozinhas há mexicanos para não falar na agricultura, também muito importante, onde a maioria do trabalho é assegurado por eles. Eu não tenho problema com quem quer trabalhar mas há quem veja isso como uma espécie de roubo de uma coisa que sempre julgaram segura”.