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“Conhece a metáfora da caixa de Pandora? Trump abriu-a”

LUCÍLIA MONTEIRO

Chamam-lhes romances, mas nem todas as personagens que habitam as páginas escritas por Richard Zimler são fruto (apenas) da sua imaginação. A Lisboa de Richard Zimler é real, o verde rural do Colorado é real, Goa colonial é a realidade possível de reconstruir. E Donald Trump também não é uma personagem de ficção, até porque a sua ascensão tem uma raiz bem visível e bem profunda: as falhas no sistema de educação norte-americano, diz Zimler em entrevista ao Expresso, à margem do evento organizado pela embaixada dos Estados Unidos em Lisboa para assinalar as eleições norte-americanas

“É muito interessante fazer a ligação entre as características da população e a forma como votam ou poderão votar: os níveis de escolaridade, por exemplo, em Massachussets, onde 38% dos cidadãos já concluíram a licenciatura, levam a que neste momento Hillary Clinton esteja à frente nas sondagens por quase 30 pontos percentuais. Em outros estados como no Alabama, Mississipi ou Wisconsin, onde um terço dos eleitores não completaram o ensino secundário, o Trump está a ganhar”.

Há uma massa silenciosa que nem por isso é insignificante. Em conversa com o Expresso na noite eleitoral organizada pela embaixada norte-americana em Lisboa, Richard Zimler diz que, até certo ponto, há muita gente com razão para se revoltar.

“O voto de Trump é um voto de um homem branco, mais velho e de classe média-baixa e, de uma certa perspectiva, eles têm razão. Tanto Democratas como Republicanos esqueceram-se da faixa mais baixa da população americana. São 45 milhões de americanos a viver abaixo do nível de pobreza, que é de mil dólares por mês por pessoa, e não se faz muito com mil dólares por mês. Nenhum dos partidos se lembra deles excepto durante as eleições. O poder de compra desta gente é mais baixo hoje do que há 40 anos. Estas pessoas sentem-se marginalizadas e não querem votar num político dentro do sistema. Trump conseguiu passar a mensagem que ele é o candidato alternativo. Claro que eu não acho isto correto, ele é multimilionário, herdou a fortuna, ele não tem nada a ver com a minha ideia de alternativo”.

E não é só entre os Republicanos, muitos deles recusando apoiar Trump, outros tornando pública a sua intenção de votarem em Hillary Clinton, que uma “guerra civil” pode estoirar. Não será uma guerra com armas, mas durante o último ano foram vários os artigos onde se falava de um país dividido, com medo do vizinho, mesmo antes de ir a votos. Como escreveu o jornal “National Post”: “As pessoas falam sobre comprar armas para se protegerem de eventuais perigos. Falam de locais onde já não vão. E isto, é quando falam umas com as outras. Conversas casuais transformam-se em conflitos, amigos desaparecem simplesmente do Facebook uns dos outros”.

Segundo uma sondagem do “Wall Street Journal” quase metade dos americanos (45%) acreditam que os Estados Unidos são “menos fantásticos” - “less great”, a palavra preferida de Trump - do que no passado. Mais de 35% acha que está tudo igual e apenas 16% considera que o país está melhor. A coesão social pode sair danificada?

“É possível, sim. Conhece a metáfora da caixa de Pandora? Trump tirou a tampa da caixa de Pandora e toda aquela gente super conservadora, racista, misógina, homofóbica começou a pensar ‘já podemos falar em voz alta que não gostamos dos mexicanos, já podemos falar em voz alta que não gostamos dos judeus’. Ele deu essa oportunidade às pessoas. A pergunta é: depois da eleição, o que é que vai acontecer àquela gente? Vão voltar para a caixa de Pandora e algum vai fechar a tampa? Não sei. Mas é um país extremamente polarizado no momento, disso não há dúvida.

Mas o sectarismo e o isolacionismo que transpiram dos discursos de Trump não são conceitos estranhos na Europa onde Nigel Farage, no Reino Unido, ou Norbert Hofer, na Áustria, têm feito carreira sustentados pelos mesmos alicerces.

“Este perigo não vai desaparecer e foi por isso que eu falei da educação. A solução para isto tudo é educar as pessoas. As pessoas com uma formação superior não são tão susceptíveis, mas mesmo aí, no caso dos Estados Unidos, existe um problema. Há uma faceta do sistema americano que os europeus não compreendem. Os municípios locais podem determinar uma grande parte do currículo. Há escolas, nas zonas rurais principalmente, onde nem sequer ensinam a teoria da evolução. Há alunos com 18 anos que chegam à universidade sem ouvirem nunca falar de evolução! Imagina a cabeça dessa gente. Eu sou a favor de um currículo federal. A única solução é educar, educar, educar! Se todos os estados fossem como o Massachussetts, não existia nunca um Trump a chegar tão longe”.