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As 8 promessas de Trump que podem mudar a América e o mundo

Getty

O futuro presidente americano protagonizou uma campanha recheada de promessas que podem ser vistas como ameaças ao mundo como o conhecemos. Estes são os oito pontos mais polémicos. “Vamos começar por renovar o sonho americano”, prometeu Donald Trump no seu discurso de vitória

1) Imigração

A retórica de Trump neste ponto foi crucial na sua campanha, ao prometer coisas como criar uma base de dados com todos os muçulmanos que vivem nos Estados Unidos ou expulsar 11 milhões de imigrantes clandestinos que vivem no país — e presumivelmente as suas famílias, que em larga medida incluem americanos de primeira geração, como o é, por exemplo, Robert Sherman, o atual embaixador dos EUA em Lisboa, cujos pais fugiram da Ucrânia por causa de perseguição religiosa pelos russos.

A promessa de construir um “muro grande e lindo” na fronteira com o México e obrigar os contribuintes do país a pagar por ele foi uma das medidas mais discutidas de toda a campanha, e que angariou enorme atenção também por ter classificado todos os habitantes do país vizinho de "violadores e traficantes".

Prometeu ainda deportar todos os imigrantes clandestinos que tenham cadastro criminal (contas recentes mostram que existem menos de 168 mil pessoas a viver nos EUA que se enquadram nesse grupo) e “suspender a imigração de regiões propensas ao terrorismo onde a análise [dessas pessoas] não pode ocorrer de forma segura” (leia-se, por exemplo, a Síria, mergulhada numa mortífera guerra civil há quase seis anos, de onde milhões de pessoas já fugiram em busca de asilo em países do Ocidente).

2) Reformar Washington

Numa campanha onde disse estar a lutar contra o sistema instituído, prometeu “drenar o pântano” do dinheiro que domina a política norte-americana e “reduzir a influência corrupta dos interesses especiais”, num ataque a Wall Street e aos “amigos dos Clinton”. Em Gettysburg, o histórico local onde Abraham Lincoln fez o seu famoso discurso de união dos americanos em 1863, pediu a ideia emprestada ao 16.º Presidente dos EUA e prometeu reinstalar um Governo “de, por e para o povo”.

Há alguns meses sugeriu alterar a legislação em vigor para atribuir ao seu vice-presidente os poderes até agora exclusivos de um Presidente (até que ponto é que será Mike Pence a governar ainda não é certo). Disse também que as primeiras reformas que vai aplicar passam por aprovar uma emenda constitucional que imponha limites aos mandatos de todos os membros do Congresso e que proíba ex-membros da Câmara dos Representantes, do Senado e da Casa Branca de trabalharem como lobistas nos cinco anos a seguir a abandonarem os cargos.

Neste ponto promete ainda congelar as contratações de funcionários federais para reduzir o tamanho do governo (à exceção do Exército, segurança pública e saúde).

3) Impostos

Quer assinar a maior “revolução tributária” desde a administração de Ronald Reagan, como definiu no seu curto programa político. A ideia de Trump passa por baixar os impostos em todos os setores. Diz, por exemplo, que nenhuma empresa americana deve pagar mais de 15% de impostos sobre os seus lucros, em comparação com o atual teto máximo de 35%.

4) Comércio externo

Além da campanha que fez contra a Parceria Transatlântica de Trocas e Investimento (TTIP), — um acordo com a União Europeia que a administração Obama queria ter conseguido aprovar até dezembro — quer rever outros tratados comerciais negociados com o México, o Canadá e países do Pacífico, como o TTP ou o NAFTA. Antecipa-se assim que vá quebrar o compromisso dos republicanos com o comércio livre e apostar numa série de políticas protecionistas para fechar as fronteiras económicas do país. Nesse sentido promete aplicar impostos de 45% a todos os produtos importados da China para "devolver a indústria" ao território norte-americano.

5) Política externa

Uma das grandes promessas, repetida sem meias palavras no último debate presidencial com Hillary Clinton, é repensar as garantias de proteção aos aliados da NATO. Numa entrevista que concedeu em vésperas de ganhar as primárias do Partido Republicano (a primeira grande surpresa desta corrida eleitoral, agora longe de ser a maior das surpresas), já tinha referido que os EUA já cumpriram todas as “obrigações” para com a aliança militar.

Tornou-se o primeiro candidato presidencial a ameaçar, pela primeira vez desde a II Guerra Mundial, a retirada de todas as tropas americanas estacionadas na Europa e na Ásia se os seus aliados não começarem a pagar mais pela proteção dos EUA, no âmbito de uma radical estratégia para "pôr a América em primeiro lugar”.

Sobre a guerra na Síria e outros conflitos nos quais os EUA estão envolvidos, não definiu ainda que estratégias pretende seguir. Mas durante a campanha chegou a dizer que Bashar al-Assad é o menor dos males quando comparado com alguns grupos da oposição síria que o Ocidente apoia. Sobre o Médio Oriente, a sua promessa mais clara é a de “bombardear até ao tutano” o autoproclamado Estado Islâmico (Daesh).

Sobre a Rússia também não avança propostas concretas, embora durante a campanha tenha assumido uma postura de contraste em relação a Clinton, de aproximação e potencial colaboração com o arquirrival da Guerra Fria.

6) Energia e clima

A vitória de Trump é a derrota dos ambientalistas e de todos os líderes políticos e ativistas do mundo inteiro que têm dedicado as suas vidas e carreiras a combater o aquecimento global. Em Novembro de 2012, quando ainda nem se imaginava que seria candidato à presidência, escreveu no Twitter que “o conceito de aquecimento global foi criado por e para os chineses manterem o setor industrial dos EUA não-competitivo”; foi uma ideia que repetiu várias vezes ao longo da corrida presidencial.

Tem planos para cancelar os milhares de milhões de dólares investidos em programas da ONU de combate às alterações climáticas, fundos que quer redirecionar para projetos de infraestruturas nos EUA. Promete ainda acabar com as restrições ao fracking, que permite a extração de petróleo e gás de xisto, e assim aumentar a produção americana.

7) Apagar o legado de Barack Obama

Durante a campanha, prometeu que se fosse eleito ia “cancelar todas as acções executivas, memorandos e ordens emitidos pelo Presidente Obama”. De acordo com Stephen Moore, seu conselheiro,a campanha já identificou pelo menos “25 ordens executivas” que Trump vai reverter. “Vai passar umas horas a assinar papéis e assim apagar a Presidência Obama” foi a declaração de Moore. Entre elas conta-se a eliminação do Affordable Care Act, mais conhecido por “Obamacare”, uma das maiores vitórias de Obama que alargou os cuidados de saúde a 12,7 milhões de norte-americanos que, até então, não tinham como pagar seguros de saúde.

Promete substituir o Obamacare por outro sistema de comparticipações que baptizou de “Contas de Poupança de Saúde”; sob esse plano, serão os estados e não o Governo federal a decidir como gerir os fundos do setor da saúde (os críticos querem mais pormenores que lhs comprovem de que forma é que o seu programa se vai distinguir daquele que o antecessor conseguiu aprovar).

8) Supremo Tribunal dominado por conservadores

É provável que, com o apoio de um Congresso de maioria republicana, escolha um juiz conservador para ocupar o lugar deixado vago a meio da campanha pela súbita morte de Antonin Scalia. Tal poderá traduzir-se na reversão de históricas conquistas como a garantia do direito das mulheres a interromperem gravidezes indesejadas (em campanha chegou a dizer que as mulheres que abortam devem ser julgadas e condenadas a prisão) e do casamento entre pessoas do mesmo sexo, legalizado a nível federal em junho de 2015.

Com a idade já avançada de alguns dos juízes do Supremo, caso da liberal Ruth Bader Ginsburg, a médio prazo poderá conseguir definir o domínio conservador da mais alta instância judicial, uma linha mais à direita que poderá permanecer intacta durante pelo menos uma geração.