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Trump e Hillary fazem mal à saúde mental dos americanos

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Rir ou stressar por causa das gafes de Trump ou das alegadas mentiras de Hillary? Cinquenta e dois por cento dos americanos preferiram a segunda opção. Doenças mentais e idas ao psicólogo dispararam

Professores e alunos da Universidade de Brown, na cidade de Providence, trazem com frequência os debates das salas de aula para os cafés das imediações. Por entre “Large Americanos” fumegantes e “Pumpkin Spices” extra natados, muito populares no Outono, eles apresentam soluções para os problemas da Nova Inglaterra, do país e do mundo.

Os donos e empregados destes estabelecimentos deliciam-se. “Há anos que ouço análises à filosofia contemporânea e estratégias para apaziguar o Médio Oriente. Só de ouvi-los, acho que já tirei três ou quatro licenciaturas sem nunca ter posto os pés na Universidade”, ironiza Patrick Stone, que trabalha no Coffee Exchange há quase uma década.

No último ano, à medida que a campanha para as presidenciais de amanhã evoluía, as discussões centraram-se na política interna, degenerando várias vezes em gritaria contra dois alvos principais: Donald Trump e a sua equipa de porta-vozes que pulula de canal em canal de televisão.

“Há familiares que não se falam e amizades destruídas. Quando começo a ouvir conversas sobre Trump ou Hillary saiu de fininho. Tenho clientes que já foram ao psicólogo só por causa do ambiente político”, conta Stone, uma descrição que coincide com relatórios recentes sobre o impacto da corrida à Casa Branca na saúde mental dos eleitores.

Segundo a Associação de Psicólogos Americanos (APA), 52% da população dos Estados Unidos confirma que a campanha é uma fonte diária de stress. “Não interessa se é democrata ou republicano. A maioria sente-se afectada pelo discurso de ambos os partidos”, explica Lynn Bufka, directora executiva da APA. “O stress provocado pelas eleições é exacerbado por via dos argumentos, histórias, imagens e vídeos nas redes sociais que podem preocupar e frustrar, particularmente quando são acompanhados por comentários hostis ou ofensivos”.

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O estudo da APA revela, ainda, que os utilizadores das redes sociais apresentam níveis de stress mais elevados do que aqueles que acompanham a política americana através dos media convencionais (54% contra 45%).

Talvez por isso, Bufka refere que os “Millennials" (menos de 35 anos) são mais afectados do que a “Geração X” (35 a 50 anos), 56% e 45%, respectivamente.

Steven Stony, o terapeuta de Washington que criou o termo “Election Stress Desorder”, confessa que a maioria dos seus pacientes não fala de outra coisa. “Uns têm dificuldade em adormecer, outros sentem uma tensão constante. Trato de muitos casais, por exemplo, e é obvio o impacto da política nestas relações”.

Um monstro de sete cabeças e um colar de fetos

De regresso às discussões acaloradas no Coffee Exchange, onde o candidato republicano é uma espécie de monstro com sete cabeças para os intelectuais de Brown, uma das oito instituições de ensino superior da Ivy League.

Por ali, as primeiras páginas do Times, Post ou Globe ainda são devoradas como pão quente pelas manhãs, embora nos últimos meses a televisão esteja sempre ligada para ouvir as tiradas de Donald Trump e dos seus assessores.

Na passada sexta-feira, passava no WGBH, o canal público local, um perfil de Katrina Pierson, a porta-voz de Trump que saltou para a ribalta em 2012 depois do seguinte tweet: “Perfeito. O pai de Obama nasceu em África e o pai de Romney nasceu no México. Será que ainda há alguém de raça pura?”.

Pierson ganhou o apoio do movimento Tea Party e da antiga candidata republicana a vice-presidente em 2008, Sarah Palin, chegando mesmo a concorrer ao Congresso. Trump recrutou-a.

Em Agosto, ela apresentou-se numa entrevista na CNN com um colar feito de balas, em sinal de apoio aos donos de armas. Questionada sobre o acessório, explicou-se: “Da próxima vez trarei um colar de fetos. Temos de chamar à atenção para o flagelo dos 50 milhões de abortos, afinal são pessoas que nunca terão a oportunidade de usar o Twitter”.

Uns acham piada. Outros, com as testas suadas e as veias do pescoço e do rosto a latejar, berram em frente à televisão como se Katrina estivesse mesmo ali.

Dan Kennedy é dos mais calmos. “Ela diz o que pensa, mas não pensa no que diz. É uma desgraça”, afirma, ao Expresso, este professor de Jornalismo na Northeastern University e membro do premiado painel “Beat the Press” do WGBH, um programa semanal de análise dos media.

À saída do Coffee Exchange, ele assina uma petição com o título “Salvem o emprego de Katrina”, no qual se pede que a porta-voz se mantenha “para sempre” na televisão. “Concordo, até porque, após esta campanha, vamos rir menos pelas manhãs. Diria mesmo que as manhãs nunca mais serão as mesmas”, lamenta.

Quando ouve falar naquele requerimento irónico, Bufka solta uma gargalhada. “O problema é que há muitas pessoas que não levam isto a brincar e tornam-se verdadeiras bombas-relógio, tal é o nível de stress”.

A directora da APA deixa cinco conselhos para impedir que tal aconteça nestas horas finais de campanha. “Sejam selectivos nas fontes de informação. Falem, abertamente, sobre a vossa ansiedade. Distraiam-se com outras coisas. Sejam educados, respeitadores e não tentem mudar a opinião dos outros. Por fim, lembrem-se: isto está quase a acabar”.