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“Temo que Trump se torne numa espécie de Che Guevara dos deploráveis”

EPA

Um mártir da extrema-direita, vítima do statu quo partidário e mediático. Será este o futuro de Donald Trump em caso de derrota? O Expresso entrevistou apoiantes e adversários, procurando saber se é mesmo assim. Ouviu tiradas racistas, teorias sobre novos partidos políticos com ligações a Moscovo e republicanos com medo do que aí vem

Detroit, Birmingham, Baltimore, etc.. A prova é clara: os brancos constroem coisas e os negros destroem-nas.” A mensagem é do Deplorable Triumph (DT), um dos diversos grupos de extrema-direita nos EUA que apoiam Donald Trump, candidato republicano à Casa Branca, e que na Convenção do Partido, em julho, colocou uma mensagem no quadro de honra de tweets sobre o evento.

Na altura, a assessoria de imprensa do Comité Nacional Republicano, o órgão máximo do Partido, recusou comentar o incidente. O silêncio mantém-se até hoje, embora, informalmente, dois membros dos aparelhos partidários estaduais presentes naquela reunião magna nos tenham dito que a ideologia do DT era desconhecida.

No início do ano, David Duke, líder do Klu Klux Klan (KKK) e candidato ao Senado, onde irá procurar “defender os direitos dos americanos de ascendência europeia”, declarou apoio a Trump e este tardou em recusá-lo. Tal enfureceu vários membros do “establishment” conservador, caso do Speaker do Congresso e terceira figura de Estado, Paul Ryan.

“Lembram-se da frase de Hillary, quando disse que metade dos apoiantes de Trump eram deploráveis? Pois bem, temo que, mesmo que Hillary vença, Trump se torne numa espécie de mártir traído por um sistema político e mediático corrupto, uma espécie de Che Guevara dos deploráveis”, disse o humorista Bill Maher, figura da esquerda americana, cujo programa de entrevistas e análise política no canal HBO (Real Time with Bill Maher) bate recordes junto daquela audiência.

Bill Maher, cujo programa de entrevistas na HBO bate recordes

Bill Maher, cujo programa de entrevistas na HBO bate recordes

Reuters

Dave Gaubatz ignora-o. Ou melhor, tenta, já que a cara de poucos amigos denuncia mal estar. “Maher não é mais do que um exótico de Hollywood”, diz.

Antigo perito em cultura árabe na Secretaria de Estado e ex-agente especial do FBI, de onde saiu para escrever o livro “Muslim Mafia”, onde acusa a comunidade muçulmana americana de esconder o problema do terrorismo, este polémico autor colabora com a Deplorable Triumph, assim como com outros grupos de extrema-direita.

Numa entrevista ao Expresso, reconhece que a vitória de Trump “está difícil”, mas que tal não compromete a mensagem de controlo de fronteiras, deportações de ilegais e bloqueio à entrada de muçulmanos. E deixa um aviso: “Rezo para que nunca chegue o dia em que os americanos tenham de lutar contra americanos, tal como ocorreu há 150 anos. Rezo para que os cidadãos americanos não se cansem de um Estado usurpador e corrupto e não queiram recuperar esse mesmo Estado. Rezo, mas todos temos de estar preparados”.

Queremos saber o porquê daquela visão dantesca da realidade, mas Gaubatz prefere reforçar a mensagem: “Hoje, em vez de zelar pela segurança nacional, analiso as preocupações relacionadas com a segurança dos americanos e forneço soluções que os proteja de um governo socialista/comunista, eternizado por sucessivos políticos liberais” - Gaubatz é instrutor de várias milícias armadas no interior do estado da Virgínia.

Autor de várias declarações racistas, será que este americano alguma vez caiu em si e pediu desculpa? A partir deste ponto, a conversa azeda. “Os media são muito progressistas e gostam de falar das descobertas da ciência, mas quando se torna evidente que algumas raças são melhores no desporto, outras na matemática e outras em línguas ficam calados”.

No passado, Gaubatz também teorizou sobre a relação direta entre violência e a comunidade negra. “Se tal é uma evidência, porque é que o racismo é mau?”.

Pegar nas armas ou criar um partido

Tamanho extremismo não espanta Thomas Patterson, professor de Ciência Política na Universidade de Harvard. “Nos últimos anos, o Partido Republicano tem vindo a mudar a sua identidade, do centro-direita para algo que mais se assemelha a um partido de franja, parecido com vários que existem na Europa, como a Frente Nacional”.

Será Donald Trump o resultado final dessa mutação? “A partir do momento em que ele nomeou Steve Bannon para chefe de campanha, deixaram de existir dúvidas”, diz-nos Patterson, referindo-se ao ex- diretor da Breitbart News, uma publicação digital que o próprio Bannon classificou de “plataforma para o Alt-Right”, um movimento que defende uma via autoritária de governação.

O Alt-Rigth terá ligações a movimentos neonazis e ao Klu-Klux-Klan, bem como a vários partidos de extrema-direita na Europa, principalmente na Rússia, acusam vários grupos de defesa dos direitos cívicos, caso do Southern Poverty Law Center.

Os seus líderes referem que o conservadorismo americano foi destruído pelo feminismo, tolerância racial e globalização, defendendo, em alternativa, um movimento que destrua o multiculturalismo.

“Para tal recorrem ao racismo, antissemitismo, xenofobia e misoginia”, explica-nos Gordon Humphrey, antigo senador republicano do New Hampshire.

Reuters

Este histórico conservador da Nova Inglaterra acredita que Trump “deu voz” a um movimento que, várias vezes na História, tentou infiltrar-se nas fileiras do Partido. “O seu discurso centrado na ideia de que a América é um país fraco e minado pelo crime soa bem aos adeptos do Alt-Right”.

Putin, o “líder da resistência cristã”

Um dos ídolos deste movimento é o Presidente russo, Vladimir Putin, o líder de um regime que Mitt Romney, ex-candidato republicano à Casa Branca, considerou há quatro anos “a maior ameaça contra os EUA”.

Numa entrevista ao Expresso, Andrei Illarionov, ex-braço direito de Putin e exilado político nos EUA, onde trabalha no Cato Institute, explica que a extrema-direita americana e europeia olham para Putin como o “líder global da resistência cristã contra a homossexualidade e o secularismo”.

“Nos últimos anos, a Rússia tem acolhido vários encontros internacionais para partidos europeus desta área política e com enorme proveito, mostrando-se disposta a combater o liberalismo social que, segundo eles, mina a sociedade ocidental”, diz Illarionov.

Trump tem relações de negócios com empresários russos do ramo imobiliário, “indivíduos próximos de Putin”, revelou o próprio Donald Trump Jr., o filho mais velho do candidato republicano, ao “The Washington Post”, no passado mês de junho.

O magnata nova-iorquino disse várias vezes durante a campanha que quer ser o “melhor amigo” de Putin e elogiou a sua liderança, “nada que se compare com a que temos no nosso país”, afirmou em Maio.

“Trump é um sociopata. Nós devíamos estar muito preocupados com o que se está a passar porque, mesmo que não ganhe, ele será sempre um general derrotado com um enorme exército ao dispor. O que é que ele irá fazer com esta gente? Não sei, mas fico assustado quando penso nisso”, alertou Glen Beck numa entrevista à PBS, o canal público de televisão.

No passado, este conservador ganhou fama devido a um programa diário na Fox News, recheado de discursos inflamados contra o Partido Democrata e Barack Obama, um Presidente que acusou de ser “o verdadeiro racista”.

Aparentemente, Beck mudou. “Continuo republicano, mas acho que temos de fazer algo pelo partido de Lincoln. Caso contrário, iremos perdê-lo e em seu lugar surgirá um monstro que se oporá às conquistas e à essência da América”.