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Rua a rua, milhão a milhão. E, tudo junto, Hillary já tem mil milhões

Reuters

Independentemente do resultado das presidenciais de terça-feira, Hilary Clinton já ganhou a corrida do dinheiro, depois de ter recolhido mais de mil milhões de dólares, batendo o recorde de Barack Obama de há quatro anos. A estratégia passou por recolhas diárias de fundos, visitas relâmpago a doadores, múltiplos discursos e charme q.b.. Durante a campanha, o Expresso acompanhou alguns desses eventos

A rua Fox Run, na cidade de East Greenwich, estado de Rhode Island, assemelha-se a um ascensor social. À medida que se sobe, o luxo aumenta. Os bungalows dão lugar a mansões, os velhinhos Chevrolet desaparecem e surgem Teslas de todas as cores (carros elétricos que custam mais de 100 mil dólares, cerca de 88 mil euros) e os quintais expandem-se até se converterem em campos de golfe privados.

Perto do número 105, o silêncio típico de um ambiente exclusivo é quebrado. Carros da polícia e dos serviços secretos bloqueiam a estrada, enquanto os agentes vistoriam os pertences de todos os convidados VIP que seguem até ao 145, a residência de Mark Weiner, advogado e ex-presidente do Partido Democrata, situada no fim da Fox Run.

Cada um deles pagou no mínimo 2700 dólares (2430 euros) para ouvir Hillary Clinton, candidata democrata às presidenciais americanas. “Há quem tenha dado muito mais”, assegura, ao Expresso, Brian Bass, coordenador da campanha em Rhode Island.

O dia de Hillary já vai longo. Após um pequeno-almoço com empresários no centro da cidade de Boston e de um churrasco do outro lado do rio Carlos, em Cambridge, esta é a última paragem em mais uma etapa dedicada à recolha de fundos.

“Scooby”, a carrinha blindada de Hillary, chega perto das 17h, duas horas depois do previsto, seguida de cinco carros da polícia. Ninguém pára e os vidros foscos parecem isolar, ainda mais, a candidata das dezenas de simpatizantes que anseiam por uma selfie com a antiga primeira-dama.

“Nem sequer diz um olá? Isto aqui é condado Kennedy, eu sei, mas dói ver o nosso voto dado por adquirido. Também não interessa. Na verdade, vim para ver o Bill. Tenho o cabelo arranjado?”, pergunta-nos Edith Sorenberg, uma professora do secundário, à medida que olha para o retrovisor da bicicleta para inspecionar os caracóis louros.

Menos de meia hora depois, arrecadados 300 mil dólares (266 mil euros), a “Scooby” parte em alta velocidade. Contas feitas, a jornada rendeu quase um milhão (888 mil euros).

Desde este evento na Fox Run, há cerca de um ano, Hillary subiu e desceu nas sondagens. Vieram os debates televisivos e a antiga primeira-dama parecia descolar em definitivo.

“No primeiro debate, pus a mesa. No segundo, liguei o forno. No terceiro, banqueteei-me”, parodiou a atriz Kate McKinnon, que todos os sábados às 23h30, no programa Saturday Night Live, da NBC, se faz passar pela antiga secretária de Estado em picardias constantes com Alec Baldwin, um Donald Trump rezingão e alarve.

Entretanto, chegou a notícia da reabertura da investigação do FBI aos emails de Hillary e os seus resultados voltaram a cair. Alguns estudos de opinião nacionais indicaram, nas últimas horas, um empate técnico.

Entrevistado pelo Expresso, Joel Aberbach, presidente do Centro de Estudos Políticos Americanos da Universidade da Califórnia e consultor permanente do Congresso, explica que, a espaços, “Hillary comportou-se como uma espécie de candidata inevitável e isso prejudicou-a, afastando até democratas que tinham apoiado Bernie Sanders”.

EPA

Não se pense com isso, que Hillary se tornou mais acessível para simpatizantes e jornalistas. Pelo contrário. Há medida que a fama de candidata distante aumentava, o melhor que fez foi aparecer junto da imprensa no interior do avião de campanha para curtas declarações. Na maior parte das vezes, não houve direito a perguntas.

“É verdade que o estilo não é o mais popular, mas também é verdade que ela nunca tirou o olhar da bola e nunca faltou a um evento importante, principalmente aqueles onde o dinheiro rola em grandes quantias”, explica Aberbach.

Teia de relações milionária

Hillary voltaria à Fox Run, de novo para recolher fundos e agradecer a Weiner, que, apesar de debilitado por um cancro, fazia tudo para ajudar a amiga de longa data.

A luta de Weiner terminou há cerca de três meses. O casal Clinton regressou para participar nas cerimónias fúnebres no centro judaico Shaarei-Beth El e Bill discursou, recordando que estava ali para “representar a desprezada classe política, cheia de indivíduos como eu, que nunca teriam ido tão longe na vida se não fosse a generosidade de homens como Mark”.

No exterior da sinagoga, o reverendo Jess Jackson, antigo candidato à nomeação democrata em 1984 e 1988, explicava ao Expresso a importância de Weiner: “Era um indivíduo único, generoso e sem um pingo de egoísmo. Felizmente estamos bem servidos de pessoas como ele, que pensam no país e não o querem ver a resvalar”.

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A teia de relações do casal Clinton permitiu à campanha da antiga secretária de Estado, juntamente com os Super PAC (grupos que fazem campanha mas não podem, legalmente, ter qualquer ligação às lideranças partidárias) que a apoiam, recolher, até final de setembro, 1.100 milhões de dólares (990 milhões de euros), ultrapassando o recorde de mil milhões de dólares (900 milhões de euros) de Barack Obama há quatro anos.

Até esse momento, Donald Trump juntou 712 milhões de dólares (640 milhões de euros), 56 dos quais (50 milhões de euros) do seu próprio bolso. “A explicação para o sucesso é que desde a primeira hora Hillary aceitou as contribuições dos Super PAC e isso deu-lhe enorme vantagem contra um candidato que, no princípio, até se gabava de não receber doações de ninguém”, recorda Aberbach.

Segundo um estudo do “The Washington Post”, do total amealhado por Hillary, 100 milhões de dólares (90 milhões de euros) foram doados por apenas 100 indivíduos ou organizações sindicais, na maioria das vezes durante comités de recolha de fundos, simples celebrações ou convenções partidárias. O investidor Donald Sussman figura no topo da lista, tendo oferecido 20,6 milhões de dólares (18,5 milhões de euros).

Esta vantagem permite à candidata republicana investir em massa nos anúncios televisivos, meio onde, só em setembro, injestou 75 milhões de dólares (67,5 milhões de euros). Trump ficou-se pelos 25 milhões (22,5 milhões de euros).

O músculo financeiro reflete-se também na dimensão das equipas, fundamentais para a campanha porta a porta e registo de eleitores. Hillary tem 815 pessoas a trabalhar em full-time. Trump 168.