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O voto americano é uma coisa complicada

O governador do Massachusetts, o republicano Charlie Baker, afirmou ter votado em branco

GETTY

Há uma pequena revolta nos dois maiores partidos dos EUA, com democratas a votarem em Donald Trump e republicanos a recusarem fazê-lo

A lealdade partidária foi despejada no lixo em muitos lares americanos durante esta campanha presidencial. O governador do Massachusetts, o republicano Charlie Baker, lembrou isso mesmo esta manhã, quando do alto dos seus dois metros de altura afirmou, à saída do local de voto, em Swampscott, que não tinha votado no candidato do seu partido.

“É a primeira vez na minha vida que não voto republicano. Não votei Hillary, descansem. Votei em branco, porque Trump não tem o temperamento necessário e Hillary não é confiável”, disse.

Este estado da Nova Inglaterra tem a tradição de eleger conservadores moderados para o mais alto cargo estadual. Mitt Romney, o candidato republicano às presidenciais de 2008, liderou os destinos do Massachusetts entre 2003 e 2007.

A decisão de Baker não significa que o seu boletim tenha sido um desperdício de papel. Embora tenha ignorado a escolha presidencial, o Governador votou contra a proposta 4, ou seja, recusou a liberalização do comércio e consumo de marijuana, e a favor da abertura de mais “Charter Schools”, escolas financiadas pelo estado, mas geridas por empresas privadas. Rejeitou, ainda, a abertura de um novo casino e foi a favor de novas regras que protejam os animais em cativeiro.

Mais para o interior do país, no Ohio, John Kasich, o governador que lutou até ao fim durante as primárias republicanas contra o multimilionário nova-iorquino, teve uma ideia mais original.

Há cerca de duas semanas, num voto antecipado, riscou o nome de Trump do boletim e escreveu John McCain, o candidato conservador em 2008.

O seu assessor, Chris Schrimpf, garante que tal não anula automaticamente o sufrágio e explica-nos que, acima de tudo, foi importante “passar a mensagem”.

Recorde-se que, no passado mês de Agosto, dezenas de republicanos que pertenceram à Administração de George W. Bush assinaram uma carta na qual explicavam porquê que não votariam em Donald Trump.

Um deles, o antigo director da CIA e da NSA o General Michael Hayden, numa entrevista ao Expresso diário, arrasou o candidato republicano e a sua visão da guerra contra o terrorismo. Apesar disso, recomendou calma aos europeus, explicando que os Estados Unidos têm instituições fortes para contrapor a uma eventual presidência do magnata. “Não há motivo para pânico”, afirmou.

A revolta da antiga classe média

Mas não é só a elite política que se insurgiu nesta campanha. Recentemente, a reportagem do Expresso visitou a família Moore, no condado de Thurnbull, no leste do Ohio, e testemunhou uma revolta do lado democrata.

Dan, o patriarca, votou Obama em 2008 e 2012. A sogra, Leann, também. A mulher, Joan, e o filho, Aaron, até fizeram campanha pelo primeiro presidente afro-americano há quatro anos.

Nestas eleições, o consenso sobre quem deve ser o próximo líder do país persiste. A convicção é tal que Aaron, um estudante universitário, escreveu um ensaio sobre o novo ídolo da família: Donald Trump. O professor deu-lhe nota máxima.

Membro do sindicato dos metalúrgicos, Dan entusiasma-se quando ouve o magnata prometer que trará os empregos de volta, mas chora sempre que vê uma fábrica em ruínas.

Só na sua vizinhança, na cidade de Newtown Falls, há três. A antiga RG Steel, onde se produzia “aço de qualidade superior”, lembra Dan, a Rexam, que exportava moldes de plástico para os quatro cantos do mundo, e a Ravenna Aluminum, conhecida por ter clientes ilustres como a NASA.

Aquelas falências atiraram mais de cinco mil pessoas para o desemprego. Nos últimos 15 anos, desapareceram 25% dos postos de trabalho industriais em Turnbull, 26 mil no total. “Acredito nele porque já não podemos mais viver assim”, confessou-nos Dan.

Hoje espera-se que o Ohio, o coração da cintura industrial americana e um dos clássicos “swing states" (indecisos até ao fim) vote, maioritariamente, no candidato republicano.