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Florida. “Os imigrantes sem documentos não se podem dar ao luxo de não levar Trump a sério”

LATINOS. Os norte-americanos de origem hispânica são um grupo em crescimento. Em 2028, estima-se que sejam a maioria no estado da Florida

SHANNON STAPLETON / REUTERS

Thomas Kennedy vive nos EUA desde os 10 anos. Este ano, pela primeira vez, poderá votar como cidadão, depois de 15 anos ilegal. Impedir Donald Trump de chegar ao poder é, para ele, “uma questão pessoal”. Como ele, milhares de outros latinos poderão ser decisivos nesta eleição, particularmente no estado fulcral da Florida

Cátia Bruno

Cátia Bruno

Jornalista

Este texto é o nono e último de uma série sobre os swing states (estados imprevisíveis e decisivos na eleição). Para ilustrar cada um dos nove estados, escolhemos um tema que marca a região − e o país − e um entrevistado para nos falar sobre ele

Mauro Kennedy e Maria Bilbao chegaram a Miami no ano 2000. Assustados com uma crise que abalava a Argentina, com a economia a contrair quase 30% e o desemprego a atingir os 15%, o casal temia perder os seus empregos ligados à função pública − Mauro trabalhava numa tipografia estatal, Maria era secretária numa universidade. Foi então que pediram vistos de turista norte-americanos para si e para o seu filho, Thomas, e voaram para os EUA. Quando os vistos perderam a validade, ao fim de três meses, decidiram não regressar e permanecer no país de forma ilegal.

“Ficámos aqui sem documentos. Eu fiquei assim até 2011, ano em que me casei com a minha namorada [norte-americana] e fiquei assim elegível para obter a cidadania − o que consegui finalmente agora.” Thomas Kennedy tem agora 25 anos e revela ao Expresso a satisfação que é poder votar pela primeira vez na vida, no país onde vive desde os dez anos: “Estou orgulhoso. Tem sido uma longa viagem e isto traz-me um sentimento de segurança. Posso finalmente propor os meus pais para obterem autorização de residência ao fim de 15 anos”, conta Thomas, já que Mauro e Maria continuam ilegais no país − apesar de pagarem impostos sobre a empresa de redecoração de interiores que possuem em Miami.

“Também quero poder votar contra este tipo que crê que eu não sou digno de ser legal. É um racista, mete nojo. Por isso isso estou contente de poder fazer a minha parte nesta eleição.” O “tipo” a que Thomas se refere é, naturalmente, Donald Trump. O candidato republicano a esta eleição não é conhecido por apresentar propostas muito detalhadas, mas há um tema que é exceção à regra − a imigração. Construção de um muro na fronteira a sul com o México, sentenças penais para aqueles que não tiverem visto, fim da concessão de cidadania aos filhos de imigrantes que nasçam no país, são apenas algumas das suas propostas.

PAPÉIS. Thomas Kennedy chegou aos EUA no ano 2000. Desde então, só conseguiu autorização de residência depois de se casar com a namorada, norte-americana

PAPÉIS. Thomas Kennedy chegou aos EUA no ano 2000. Desde então, só conseguiu autorização de residência depois de se casar com a namorada, norte-americana

d.r.

“Tornou-se uma questão pessoal”, resume Thomas. O argentino sente-se especialmente indignado por achar que as motivações do candidato não são ideológicas mas sim eleitoralistas (“acho que ele não acredita em nada”), e partilha uma história: “Em 2013, um grupo de amigos meus que fazem parte do movimento DREAMer [movimento de jovens estudantes imigrantes sem documentos] tiveram uma reunião na Trump Tower para alertar para a necessidade de uma reforma da imigração e partilhar as suas histórias. Trump disse-lhes que os entendia: ‘É uma loucura, vocês até estão a estudar...’.”

Latinos mobilizados

A atual proposta de Trump para uma reforma da imigração é bastante diferente daquela que foi discutida naquele dia na Trump Tower. Em vez de facilitar o acesso à autorização de residência, o candidato quer agora aumentar as deportações e tornar mais difícil a entrada no país. A mensagem soa bem a muitas fatias do eleitorado, mas não aos latinos, muitos deles imigrantes ou filhos de imigrantes.

O grupo étnico é um bloco em crescimento nos Estados Unidos, nomeadamente na Florida, estado onde vive Thomas: é o terceiro estado com a maior população de origem hispânica do país (um em cada quatro dos seus habitantes são latinos) e as previsões apontam para que em 2028 a maioria da população da Florida seja de uma minoria étnica. O Partido Republicano tem tido fortes dificuldades em conquistar o voto dos latinos − os democratas costumam conseguir 30 a 40% de vantagem entre o grupo − e com Trump como candidato, o cenário agrava-se. No início da campanha, a um ano das eleições, uma sondagem do “Washington Post” dava conta de que 80% dos latinos tinham uma opinião desfavorável do milionário.

CUBA Um barco utilizado por cubanos para fugirem de Cuba para os EUA é apreendido em janeiro de 2015. Até os cubanos, tradicionalmente os eleitores latinos mais conservadores, registam uma viragem à esquerda nesta eleição por oposição a Trump

CUBA Um barco utilizado por cubanos para fugirem de Cuba para os EUA é apreendido em janeiro de 2015. Até os cubanos, tradicionalmente os eleitores latinos mais conservadores, registam uma viragem à esquerda nesta eleição por oposição a Trump

OSCAR PEREZ / REUTERS

Nessa altura, estavam ainda frescas as declarações do candidato proferidas dois meses antes, dizendo que os mexicanos “trazem drogas, trazem crime. São violadores. E alguns, suponho, são boas pessoas”. Depois disso, Trump já garantiu que irá fazer com que o México pague pelo muro que pretende construir na fronteira, acusou um juiz hispânico encarregue de o julgar num caso em tribunal de não ser isento, expulsou um jornalista latino de uma conferência de imprensa e aproveitou o último debate televisivo para prometer que irá expulsar os “bad hombres” que estão no país.

Tudo isto tem contribuído para hostilizar ainda mais os latinos − o que pode trazer consequências eleitorais sérias para Trump num estado como a Florida. Thomas, que tem trabalhado com a New Florida Majority (uma ONG que promove a participação política dos imigrantes) tem assistido ao fenómeno do aumento das naturalizações: “Tenho falado com senhoras de mais idade que nunca se tinham registado para votar antes ou que nunca pediram a cidadania. Pessoas que chegaram aqui nos anos 80 e que pela primeira vez estão a pedir a cidadania ‘porque este tipo foi longe demais’, dizem.”

Apesar de as preocupações dos eleitores latinos também se focarem em temas como a economia, a reforma da imigração tornou-se o tópico número um de todas as conversas. Os imigrantes reconhecem que o número de deportações durante os mandatos de Barack Obama bateu recordes e admitem que as propostas de Hillary Clinton sobre este tema são por vezes vagas. Contudo, isso não deverá impedir a maioria dos latinos de depositar o seu voto em Clinton no dia oito, sem qualquer sombra de dúvida. “Ela diz que vai tratar da reforma sobre a imigração nos primeiros 100 dias do mandato e eu vou cobrar-lhe isso. Mas quando o outro lado fala em banir todos os muçulmanos, acabar com a cidadania por nascimento e deportar 11 milhões de imigrantes, torna-se bastante claro”, resume Thomas. “Os imigrantes sem documentos estão muito, muito assustados com Trump. Não se podem dar ao luxo de não o levar a sério.”

Florida, campo de batalha

A rejeição de Trump entre o eleitorado de origem hispânica é tão grande que o candidato pode ajudar a consolidar a viragem à esquerda dos cubanos, tradicionalmente apoiantes do Partido Republicano. Não só as gerações mais jovens começam a quebrar esta tendência, como até alguns cubanos mais velhos não conseguem depositar o seu voto em Trump, como ilustrava em setembro o cubano Francis Suarez à PBS: “Há aspetos em Trump que respondem a partes da cultura cubano-americana: a liderança forte, a capacidade de dizer frases ousadas…”, dizia. Mas no que toca às declarações polémicas, o candidato “ultrapassa a linha e torna-se louco e imprevisível”. Uma sondagem de maio do “Miami Herald” dava conta de que o candidato conseguia apenas 37% de apoio entre os cubanos, o valor mais baixo de sempre para um republicano.

REFORMADOS Os eleitores brancos mais velhos são numerosos na Florida e podem ser a esperança de Trump no estado. É o caso deste reformado, Don Eaton, que vive nas Villages, uma comunidade de séniores bastante conhecida na Florida

REFORMADOS Os eleitores brancos mais velhos são numerosos na Florida e podem ser a esperança de Trump no estado. É o caso deste reformado, Don Eaton, que vive nas Villages, uma comunidade de séniores bastante conhecida na Florida

RHONA RISE / AFP/ getty

Para conquistar a Florida, Donald Trump precisa de garantir o voto branco − estima-se que terá de ter pelo menos 65% de apoio entre os caucasianos, um valor que não é atingido pelos republicanos no estado desde 1984, com Ronald Reagan. No entanto, tal não é impossível de todo. A Florida é a casa de muitos eleitores brancos reformados e é sabido que os mais velhos são geralmente mais favoráveis a Trump do que os mais novos, bem como mais participativos em eleições. Esse voto, combinado com o de algumas zonas rurais no norte do estado, pode dar a combinação vencedora a Trump. “Quando juntamos a área metropolitana de Villages [uma comunidade de reformados] com os condados da antiga indústria fabril na costa leste, a tendência de apoio aos republicanos quase se equilibra com a de apoio aos democratas na área metropolitana de Orlando”, ilustrou Steve Schale, estratega político da Florida e antigo diretor de campanha de Obama no estado.

Com 29 votos a contar para o colégio eleitoral, a Florida é um estado absolutamente decisivo para a eleição. Segundo os especialistas, se Clinton perder na Florida, precisará de conquistar vários swing states de peso, como o Ohio ou a Pensilvânia, para garantir a vitória. Quanto a Trump, perdendo a Florida necessitaria de conquistar praticamente todos os swing states, só podendo dar-se ao luxo de perder em um ou dois. A luta pelo estado jogar-se-á assim entre o peso do voto latino democrata e o do voto branco conservador.

Thomas crê que os latinos sairão à rua para votar em massa em Clinton: “As pessoas vivem na sombra há demasiado tempo e com este tipo está tudo a ficar descontrolado.” Asma Khalid, jornalista especialista em campanhas eleitorais da NPR, utilizou dois condados a poucas horas de distância um do outro, o Sumter County e o Osceola County, como exemplo máximo desta eleição: o primeiro tem uma média de idades de 66 anos e o número de republicanos registados tem vindo a aumentar; o segundo é a casa de muitos porto-riquenhos, fortemente democratas. “A vitória de uma destas tendências dependerá da participação eleitoral de cada uma”, resume Khalid. No dia oito, a disputa final entre duas visões distintas para a América joga-se sobretudo num campo de batalha chamado Florida. Quem sairá vencedor?