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E se pudéssemos saber quem ganha as eleições antes do fim das eleições?

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É uma tradição que não está escrita nas leis dos Estados Unidos, mas que faz parte de um acordo tácito: no dia das eleições, toda a comunicação social se abstém de fazer previsões sobre o vencedor até ao fecho das urnas. Este ano, numa decisão que está a agitar os meandros da política e do jornalismo, isso vai mudar graças a uma startup que promete descobrir os resultados em tempo real e a uma revista que aceitou publicá-los. Os críticos temem que a abstenção aumente e que Trump ganhe novos argumentos para defender que a eleição está a ser “manipulada”

Em 1980, numa decisão quase inédita, as principais televisões americanas – ABC, NBC e CBS – decidiram, seguras com a informação de que dispunham, anunciar que Ronald Reagan iria ganhar a corrida à Casa Branca no dia da eleição, minutos antes de todas as urnas estarem encerradas. O resultado foi, segundo algumas notícias da altura, o abandono das filas para votar nas mesas de voto ainda abertas na Califórnia e, de forma que determinaria a forma como as eleições são noticiadas até hoje, que os presidentes das televisões foram chamados a testemunhar em várias audições no Congresso norte-americano.

A partir desse momento, um aparente acordo tácito, não explícito em nenhuma lei norte-americana, entrou em vigor com a concordância não só dos canais televisivos como de todas as organizações de media: nenhum órgão de informação voltaria a fornecer informação precoce aos cidadãos em dia de eleições nos Estados Unidos, num embargo que ainda hoje dura. Mas esta “ordem de silêncio auto imposta” vai acabar, e tudo mudará já esta terça-feira, dia da decisão sobre o próximo ocupante da Casa Branca.

A responsabilidade desta mudança, que se espera mudar “o comportamento do cartel dos media tradicionais”, é de uma startup de Sillicon Valley batizada como Votecastr, que integra na sua equipa especialistas de campanha, analistas de dados e jornalistas que já participaram em campanhas tanto do lado dos republicanos como dos democratas. Dois dos exemplos mais sonantes são os de Blaise Hazelwood, antiga diretora política do Comité Nacional Republicano e responsável por gerir a informação no dia das eleições em 2004, altura da reeleição de George W. Bush, e Ken Strasma, analista na campanha de 2008 de Obama.

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Strasma e Blaisewood terão papéis determinantes na missão inédita da Votecastr – ambos conduzirão sondagens em grande escala, com uma amostra muito maior do que a incluída tradicionalmente em estudos deste tipo; ao mesmo tempo, a startup está a treinar “um exército de centenas de observadores de urnas, e a cada um está atribuído uma mesa de voto pré-selecionada em estados-chave”, esclarece Sasha Issenberg, chefe de estratégia da Votecastr e autor de um livro sobre a tecnologia das campanhas modernas.

O método mais eficaz de sempre

O método pretende ser o mais eficaz até agora – mais eficaz até do que as sondagens feita à boca das urnas, que Issenberg diz em entrevista ao Expresso “sempre terem sido usadas para saber como e porque é que os eleitores tomaram as decisões que tomaram, mas não para determinar quem perde e quem ganha”. Tudo se baseia, de acordo com as explicações de Issenberg, numa combinação entre o número de eleitores que aparece para votar – conseguido através dos relatórios em tempo real do tal exército de observadores – e as sondagens que peritos como Blaisewood e Strasma conduzirão para saber as intenções de voto de eleitores em estados específicos, com intenção de cruzar essas duas informações para perceber os resultados que cada candidato (incluindo os candidatos ao Senado) está a ter nos estados-chave como o Colorado, Florida, Pensilvânia, Nevada, New Hampshire, Ohio ou Wisconsin.

“Em 2008, uma equipa da sede de campanha de Obama, em Chicago, começou a preparar terreno para o dia das eleições. A campanha enviou observadores para mesas de voto em mais de 50 mil localizações em 17 estados importantes. A intervalos de três horas, os observadores ligavam para um número específico e contavam o número total de eleitores que tinham participado nesse local. A equipa de analistas da campanha já tinha conduzido sondagens em grande escala e por isso já tinha ideia do apoio que podia esperar em áreas chave. Combinando os dados dos estudos com os relatos em tempo real sobre a participação no terreno, os analistas puderam analisar os resultados de locais favoráveis a Obama e favoráveis a McCain”, exemplifica Issenberg. “Os eleitores têm muita informação até à véspera das eleições; tudo o que estamos a prometer é dar-lhes a única informação crucial que ninguém tem até ao dia das eleições: quem são os cidadãos que estão a participar. Não achamos que essa informação seja mais perigosa numa segunda-feira ou numa terça-feira, especialmente quando 40% dos norte-americanos deverão votar antecipadamente”.

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Os perigos de uma estratégia nunca antes aplicada num dia de eleições presidenciais estão a fazer soar alarmes no mundo da política, mas também no mundo do jornalismo, onde o embargo até ao fecho das urnas continua a ser uma tradição autoimposta. Mas a Votecastr não está sozinha nesta missão que diz ser motivada pela transparência: a revista digital Slate é a plataforma que promete divulgar aos leitores as informações estudadas em tempo real pelos analistas da Startup.

“Estão a esconder informação com base num palpite”

“O papel dos jornalistas é levar a informação aos cidadãos, não é protege-los dessa informação. Os jornalistas guardam essa informação para eles próprios, as campanhas acompanham os resultados com os seus próprios métodos, e os eleitores são deixados sem acesso a essa informação em tempo real”, defende Julia Turner, editora-chefe da Slate, num artigo publicado na própria revista. Para a jornalista, a postura dos media em relação aos eleitores é “paternalista” e carece de apoio nas ciências sociais: afinal, defende tanto a jornalista como os analistas contactados pelo Expresso, não há estudos que comprovem que o anúncio precoce influencie a decisão dos cidadãos sobre votar ou em quem votar, o que para Turner “significa que os jornalistas estão a esconder informação com base num palpite”.

“A noção de manter o dia das Eleições como algo sagrado parece ainda mais ilógica em 2016, se tivermos em conta a extensão do voto antecipado. O eleitor que põe um boletim de voto no correio em outubro dificilmente o faz no meio de um vazio de informação”, relembra Turner. Issenberg concorda com a editora: “Acreditamos realmente que depois de meses em que perpetuamente sujeitamos os leitores a avaliações sobre a corrida – sondagens, médias de sondagens, previsões – podemos começar do zero e podemos devolver aos cidadãos a inocência, numa espécie de idílio democrático?”.

Para Turner e Issenberg, os principais motores da iniciativa, é óbvio que este embargo – ou “ordem de silêncio autoimposta”, segundo a editora – é uma espécie de decisão contranatura dos jornalistas. “A obrigação de uma imprensa independente é produzir para o público a mesma informação privada que os atores políticos há muito dão por garantida e que vão usar até ao último minuto para tentar garantir os nossos votos”, relembra o chefe de estratégia da Votecastr.

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Mas nem todos os especialistas concordam que as vantagens do fim desta tradição sejam assim tão claras, lembrando que pode haver perigos em libertar informação tão importante mais cedo num dia em que não interessa dissuadir os cidadãos de exercer os seus direitos cívicos. Muitos especialistas dos meios da política e do jornalismo alertam que ao saber que um dos candidatos está a ganhar, os eleitores poderão desistir de votar e ficar em casa no dia 8 de novembro.

Um possível trunfo para Trump?

Donald Green, professor de política e especialista em comportamento eleitoral e mobilização do eleitorado na Universidade de Columbia, em Nova Iorque, aponta ao Expresso um perigo adicional: “A maior preocupação é a interação entre os resultados precoces e a acusação de que a eleição está viciada, que se tornou uma parte proeminente da mensagem de campanha de Trump. Se a Votecastr sugerir um resultado mais forte para Trump do que aquele que se vier a confirmar, a campanha dele pode aproveitar para argumentar que a eleição foi manipulada”.

As preocupações não ficam por aqui: o especialista recorda que “este método não foi testado rigorosamente, e a eleição vai ser a primeira ocasião em que é aplicado em grande escala. Isto é um enorme desafio, uma vez que estudos e análises terão de ser realizados em tempo real”. Da mesma universidade, Robert Erikson, especialista em comportamento político, eleições e métodos estatísticos, mostra-se cético em relação à hipótese de que “alguma informação de confiança seja revelada”. No entanto, uma coisa é certa para o especialista: com resultados certos ou não, “muita gente vai prestar atenção para tentar ter palpites antes de tempo”.

Ciente das críticas e dúvidas que a sua estratégia está a a suscitar, Issenberg garante ao Expresso estar à espera de que a revelação das informações (“Não vamos dar o estado da Flórida a Hillary às onze da manhã”, garante Turner) tenha um efeito positivo nos eleitores. “Esperamos que revelar essa informação motive mais os eleitores a participar”. De outro modo, argumenta, usando uma analogia da Newsweek, seria como oferecer aos eleitores um espetáculo pré-jogo extenso e passar depois à revelação do resultado do jogo, escolhendo ignorar “o próprio Superbowl” – e, acredita Issenberg, “nenhuma organização de media poderá ignorar esta mudança no maior dia noticioso do ano”.