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A “maioria silenciosa” mais importante pode não ser a dos desiludidos que apoiam Trump

ALFREDO ESTRELLA

Resultados da votação antecipada, que terminou na segunda-feira, mostram que a participação eleitoral da comunidade hispânica bateu recordes. Se a tendência se tiver mantido ao longo desta terça-feira eleitoral, a provável vitória de Hillary Clinton vai dever muito aos latinos que se rebelaram contra o homem que os pôs a todos no saco de "traficantes e violadores"

Desde 2012 que o Partido Republicano sabia da importância de atrair o eleitorado hispânico nas presidenciais deste ano. Num relatório de autópsia escrito pelo próprio partido há quatro anos, após a enorme derrota dos conservadores no estado da Califórnia, um dos que conta com mais habitantes latinos, e do seu candidato presidencial, os analistas do Grand Old Party (GOP) escreveram que “se os hispano-americanos sentirem que um candidato ou nomeado republicano não os quer nos Estados Unidos, não vão prestar atenção à nossa próxima frase. Não interessa o que dizemos sobre a educação, postos de trabalho ou a economia; se os hispânicos acharem que não os queremos, vão deixar de ouvir as nossas políticas.”

Não lhes podia ter calhado um candidato pior se a sobrevivência do partido é o que está em causa. Com a retórica sobre o muro que quer construir na fronteira com o México e a forma como trata os imigrantes, em particular os mexicanos, Donald Trump não só anulou as hipóteses de a comunidade latina escolher o GOP em vez dos democratas como empurrou essa minoria para Hillary Clinton. E depois de uma campanha tão renhida, onde a falta de popularidade da democrata continua a deixar em aberto a possibilidade (ainda que reduzida) de Trump vencer, poderão ser os latinos a definir os resultados finais.

Se dúvidas houvesse, os resultados da fase de votação antecipada vieram dissipá-las. Durante o período concluído na segunda-feira, pelo menos 42 milhões de eleitores depositaram os seus votos nas urnas em vários dos 50 estados e a participação de hispânicos disparou. Apesar de, por si só, não servirem de indicador dos resultados finais, que serão conhecidos pelas 6h da manhã de quarta em Lisboa, os votos antecipados medem o entusiasmo de determinados grupos demográficos em relação a um ou a outro candidato. E o exemplo mais óbvio da importância dos latinos este ano é o Nevada.

Na sexta-feira, o jornalista Jon Ralston antecipou o que a contagem de votos confirmou ontem, quando noticiou que, no condado de Clark, que inclui a cidade de Las Vegas, a participação da comunidade hispânica estava a bater todos os recordes.Foi tal a mobilização nas urnas que, nalgumas partes do estado, as autoridades só conseguiram encerrar as estações de voto duas horas depois do suposto, para que todos os que chegaram a tempo de votar pudessem fazê-lo. Por causa disso, e em linha com a retórica de fraude eleitoral que plantou nas cabeças dos seus apoiantes, Trump disse esta terça-feira que vai processar aquele estado. (A juíza Gloria Sturman já deixou claro que a mera sugestão de um processo judicial por causa disto é "ofensiva".)

Na Florida, um estado onde o candidato republicano não se pode dar ao luxo de perder o voto popular se quer manter em aberto a hipótese de derrotar Clinton, foi registado um aumento de 75% na participação eleitoral antecipada em relação a 2012, quando Obama lutou pela reeleição com o republicano Mitt Romney. Mais de um terço desses votos floridianos foram depositados por pessoas que nunca tinham votado, na sua maioria latinos. (Os resultados neste estado começarão a ser divulgados pela 1h da manhã em Lisboa.)

Em Orlando, apontava ontem o “New York Times”, os eleitores hispânicos chegaram a esperar 90 minutos no sábado em enormes filas para poderem votar no sábado. No Arizona, onde têm o duplo incentivo de poderem chumbar nas urnas não só Trump como o xerife Joe Arpaio, ainda mais racista e um dos maiores apoiantes do magnata naquele estado, a votação antecipada registou o dobro da participação latina em relação a 2012. Na Carolina do Norte e no Colorado, dois dos mais importantes estados swing, o mesmo cenário: no primeiro os votos antecipados de latinos aumentaram 45% e no segundo 25%.

Se a tendência se tiver mantido ao longo desta terça-feira, a “maioria silenciosa” tantas vezes citada pelos media durante a campanha não terá sido de apoiantes de Donald Trump descontentes com a falta de perspectivas e desiludidos com as instituições democráticas, mas sim de hispânicos que se mobilizaram em números recorde para impedirem a eleição de Trump. Ontem, com base na contagem da votação antecipada, o site “Vox” já referia que “2016 é o ano dos latinos” – uma faixa de eleitorado que esteve a crescer nos últimos 20 ano, à espera do seu momento de brilhar, qual "gigante adormecido" que o populista xenófobo escolhido pelo Partido Republicano veio acordar.

Contas feitas, depois de todos os insultos e acusações e mentiras comprovadas e o baixo nível desta corrida eleitoral, a vitória de Clinton poderá resumir-se ao momento em que Trump desceu a escadaria da sua Trump Tower em Manhattan, em Junho de 2015, e classificou todos os mexicanos como “violadores e traficantes” ao anunciar a sua candidatura. “Os latinos estavam a ouvi-lo”, aponta o Vox. “A maioria dos americanos não levou Trump a sério nos primeiros meses de campanha, mas dois grupos levaram. Um era composto pelos seus fãs, para quem Trump representa um quebrar do ‘politicamente correcto” e da ortodoxia de neutralidade racial para assim articular os seus medos face às mudanças culturais. O outro era composto pelos latinos, em particular pelos imigrantes latinos.”

O duelo de titãs destas eleições dar-se-á, afinal, entre os latinos e a dita “maioria silenciosa” que apoia Trump e que não terá estado representada nas sondagens. E a julgar pela votação antecipada, serão os primeiros a vencer e a contribuir, em larga medida, para impedir a chegada do populista à Casa Branca.