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Pedro Sánchez prepara o regresso à política espanhola

SUSANA VERA / Reuters

O antigo líder do PSOE quer um congresso quanto antes e vai concorrer ao cargo de que se demitiu há um mês. Mas a comissão que chefia interinamente o partido quer um debate mais prolongado

O homem que arriscou o cargo (e perdeu) para evitar que Mariano Rajoy permanecesse no poder quer, agora, liderar a oposição ao primeiro-ministro conservador. O diário “El País” revela hoje que Pedro Sánchez, ex-secretário-geral do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE, social-democrata), reuniu em segredo com os seus colaboradores na passada quinta-feira, para definir a estratégia de reconquista do poder.

Segundo o jornal madrileno, foi o primeiro encontro do círculo íntimo do ex-líder desde que se demitiu, a 1 de outubro, quando o Comité Federal do partido rejeitou a ideia de continuar a bloquear um Executivo minoritário do Partido Popular (PP, direita) e tentar formar uma espécie de “geringonça” à espanhola. Sánchez abandonou a liderança do PSOE e, semanas mais tarde, renunciou mesmo ao lugar de deputado. Tendo a comissão gestora que o substituiu interinamente ordenado ao grupo parlamentar que se abstivesse na votação de investidura, viabilizando a recondução de Rajoy, Sánchez preferiu sair do Congresso dos Deputados para não ter de escolher entre dois males: dar o dito por não dito e acatar a disciplina partidária ou violá-la, sujeitando-se a sanções.

Ir contra a orientação da comissão gestora (que resultou de uma votação no comité federal) poderia prejudicar as ambições declaradas de Sánchez de voltar a liderar o PSOE. Reunido com oito altas figuras socialistas, de várias regiões de Espanha, num hotel da capital, decidiu pedir para breve a realização de um congresso que volte a dotar o partido de um líder. Quanto menor for o tempo até esse conclave, menores hipóteses têm os seus rivais, hoje poderosos, de forjar uma candidatura alternativa à sua.

No encontro participaram a presidente das ilhas Baleares, Francina Armengol; o líder do partido em Castela e Leão, Luis Tudanca; o ex-porta-voz do Senado Óscar López; o deputado José Luis Ábalos, líder regional socialista em Valência; o socialista basco Miguel Morales; o seu homólogo navarro Santos Cerdán; e dois membros andaluzes do PSOE. Faltou, por motivos de agenda, a líder do PSOE no País Basco, Idoia Mendia.

Guerra de calendários

A reunião demonstra, explica “El País”, que os críticos da comissão gestora têm representatividade no partido e que a questão não se resume a um ressentimento do líder defenestrado. Este pretende auscultar as várias federações regionais para lançar a sua candidatura ao próximo congresso e às eleições primárias do PSOE.

Ao demitir-se do Congresso dos Deputados, Sánchez afirmou que a missão da comissão gestora terminara com a investidura de Rajoy. Mas a equipa interina, chefiada por Javier Fernández, presidente da região das Astúrias, tem outra ideia: promover um amplo debate sobre o papel do PSOE, a partir de dezembro, e só daqui a meses marcar o congresso. A alternativa mais provável, quando chegar a hora de escolher um líder, é a chefe dos socialistas andaluzes, Susana Díaz.

Os socialistas atravessam uma profunda crise. Nas eleições legislativas de 2015 e 2016 (encabeçado por Sánchez), o partido teve os piores resultados de sempre. As sondagens realizadas depois da demissão de Sánchez são pouco simpáticas para o PSOE. O Centro de Investigações Sociológicas revelou hoje um estudo de opinião que atribui 34,5% de intenções de voto ao PP (33% nas eleições de junho). Ou seja, Rajoy voltaria a vencer e o mais grave, para os socialistas, é que em segundo lugar ficaria o Podemos (21,8%), ultrapassando o PSOE (17%, o único dos quatro maiores partidos a cair em relação às últimas legislativas). Em quarto lugar, o Cidadãos (C’s, centro liberal) reúne 12,8% das preferências.

  • O homem que quis demasiado

    Pedro Sánchez, o miúdo que passava horas a ouvir, fascinado, os discursos do ex-presidente chileno Salvador Allende, num gira-discos que havia lá por casa. O adolescente que começou a interessar-se por política inspirado pelos seus pais, “socialistas de coração”, e avós, “que morreram sem saber ler nem escrever”. E o homem que quis governar Espanha quando não era isso que esperavam dele. Foram dois anos e três meses difíceis. A guerra, a dele contra todos, terminou este fim de semana