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New Hampshire. “Uma arma é só um bocado de metal – até alguém lhe fazer alguma coisa”

ARMAS. A estimativa sobre o número de armas disponíveis nos EUA está à volta dos 360 milhões, um valor superior ao número de habitantes do país

John Moore/ getty images

Kimberly Morin é uma entre milhões de norte-americanos que orgulhosamente possuem armas. Para os defensores arrebatados da Segunda Emenda, as verificações propostas por Hillary Clinton nesta campanha soam como ataque ao direito de porte de arma

Cátia Bruno

Cátia Bruno

Jornalista

Este texto é o oitavo de uma série que o Expresso está a publicar sobre os swing states (estados imprevisíveis e decisivos na eleição). Para ilustrar cada um dos nove estados, escolhemos um tema que marca a região − e o país − e um entrevistado para nos falar sobre ele

Ao contrário de muitos norte-americanos, Kimberly Morin não cresceu rodeada de armas. Foi já adulta que pegou pela primeira vez num revólver, incentivada pelo sogro. Daí para a frente, as armas passaram a ser uma parte tão importante da sua vida que pesaram na decisão de de se mudar do estado do Massachusetts para o New Hampshire: “No Massachusetts somos tratados como criminosos e é-nos tirado aquilo que nos protege dos criminosos. Eu tinha de dar as minhas impressões digitais só para me poder proteger”, comenta Kimberly indignada, referindo-se às leis de controlo de armas mais apertadas do estado.

Esta jornalista e defensora aguerrida do porte de armas é hoje a presidente da Women’s Defense League (Liga de Defesa das Mulheres) do New Hampshire, uma organização que treina mulheres que nunca usaram uma arma a aprenderem a disparar. Sendo um estado da costa leste, com níveis de rendimento e educação muito acima da média nacional, o New Hampshire não corresponde ao estereótipo dos locais onde o interesse pelas armas é maior no país. No entanto, metade dos residentes do estado vivem em casas onde há armas.

DEFESA. Criada num ambiente sem armas, Kimberly Morin defende a posse de armas como meio de proteção

DEFESA. Criada num ambiente sem armas, Kimberly Morin defende a posse de armas como meio de proteção

d.r.

“O lema do nosso estado é ‘vida em liberdade ou morte’. As pessoas aqui acreditam na liberdade e nos direitos constitucionais. Acreditamos que o direito à legítima defesa é um direito humano fundamental e por isso temos armas”, resume Kimberly ao Expresso. A cultura de caça desempenha um papel importante, mas não é a única razão pela qual os habitantes do chamado “Estado do Granito” gostam tanto das suas armas. Ao longo da história, o New Hampshire sempre teve uma tendência para as ideias libertárias, defendendo a não intervenção do Estado e rejeitando os impostos − o estado não cobra impostos sobre o rendimento, nem IVA local. As armas são um tema consensual no estado, onde apenas 24% da população diz ser a favor de uma maior regulação.

Mais armas do que pessoas

O New Hampshire é frequentemente utilizado como exemplo de que mais armas na rua não significam necessariamente mais crime. O estado tem uma das taxas de criminalidade violenta mais baixas do país, apesar do número elevado de armas que alberga. Charles Putnam, professor da Universidade do New Hampshire, oferecia em 2013 uma explicação: “Temos taxas de emprego, de rendimento e de educação mais altas. São coisas que dão às pessoas alternativas para não resolverem os seus problemas com violência.” Um argumento que para Kimberly não cola, dando como exemplo o seu antigo estado, o Massachusetts, onde apesar dos altos níveis de rendimento e educação, a taxa de crime per capita é superior à do New Hampshire.

Certo é que o número de armas não para de subir nos Estados Unidos: em 2009, ultrapassou-se pela primeira vez a fasquia dos 310 milhões, o que significou que pela primeira vez havia mais armas no país do que pessoas (306 milhões à altura). Atualmente, estima-se que haja perto de 360 milhões de armas no país. A procura não para de aumentar, como Kimberly comprova no seu dia-a-dia: “Quando criamos eventos para novos atiradores, a lista de participantes é preenchida antes mesmo de o evento começar”, diz. “O interesse está a aumentar, especialmente quando as pessoas veem o que se está a passar, com os ataques terroristas islâmicos ou outro tipo de acontecimentos terríveis.”

VERIFICAÇÕES. Os chamados ‘background checks’ ocorrem sempre quando a venda é feita através de um vendedor com licença federal, mas não quando é feita por privados

VERIFICAÇÕES. Os chamados ‘background checks’ ocorrem sempre quando a venda é feita através de um vendedor com licença federal, mas não quando é feita por privados

SPENCER PLATT / GETTY IMAGES

À medida que o número de armas aumenta, o número de massacres com armas no país também se tem intensificado − entre 1982 e 2011 ocorria em média um a cada 200 dias, atualmente o valor situa-se nos 64 dias, segundo dados da Universidade de Harvard − e o número de suicídios com armas de fogo tem aumentado também (de 16 mil para 21 mil entre 1999 e 2014). Por outro lado, o número de homicídios com arma de fogo tem vindo a diminuir.

Tudo isto tem contribuído para uma perceção generalizada na opinião pública de que mais armas equivalem a mais violência, o que tem levado a um aumento da pressão popular para regular o mercado das armas. “Se não se sabe como uma arma funciona, então ela é simplesmente um objeto inanimado. Não acontece nada a esse bocado de metal até alguém lhe fazer alguma coisa e é preciso fazer umas quantas. Para mim isto é tudo medo do desconhecido”, reage Kimberly, ecoando um argumento amplamente utilizado pela National Rifle Association (NRA), principal organização de lóbi do sector, que repete a ideia de que “as armas não matam pessoas, as pessoas é que matam pessoas”.

Trump, paladino da Segunda Emenda?

Donald Trump tem-se assumido como o candidato presidencial defensor da posse de armas, sendo a defesa de Segunda Emenda (emenda constitucional que defende o direito dos cidadãos de terem e transportarem consigo armas) um dos principais pontos do seu programa eleitoral. Para isso, Trump tem defendido uma série de medidas amplamente apoiadas por grupos como a NRA, nomeadamente o fim da proibição de determinadas armas, a rejeição de terminologias como “armas de assalto” (argumentando que são na verdade espingardas e caçadeiras) e sublinhando o facto de que já existem verificações sobre compradores, os chamados “background checks”. Resta dizer que a democrata Hillary Clinton tem defendido propostas diametralmente opostas, querendo banir “as armas de tipo militar” e impondo “mais ‘background checks’ a mais vendas, incluindo o fim do vazio legal nas feiras de armas e vendas pela internet”.

Este é um ponto bastante sensível entre os defensores das armas e um que lança alguma confusão. Confrontada com o facto de a maioria dos norte-americanos defender a imposição de “background checks”, Kimberly responde, à semelhança de Trump, que esse controlo já existe e que não há nenhum “vazio legal”. “No New Hampshire, para comprar uma arma é preciso ser-se residente e ter um documento de identificação. Depois vai-se a um vendedor de armas com licença federal e escolhe-se a arma. Mostra-se a identificação e preenche-se um formulário, o 4473, que faz todo o tipo de perguntas. E por fim é preciso confirmar isso com as autoridades. Ou seja, são feitos ‘background checks’”, diz Kimberly, descrevendo o processo mais comum de compra de armas no estado.

NRA. Um encontro da National Rifle Association, a associação que mais se destaca no lóbi das armas

NRA. Um encontro da National Rifle Association, a associação que mais se destaca no lóbi das armas

FOTO SCOTT OLSON / GETTY IMAGES

Contudo, os “vazios legais” a que Clinton se refere dão conta da chamada venda entre privados − ou seja, aquela que não é feita por um vendedor de armas com licença federal e que ocorre por vezes em feiras de armas ou pela internet, não exigindo confirmação de cadastro com as autoridades. “Tornar a compra mais difícil não ajuda ninguém, porque os criminosos não seguem a lei”, argumenta Kimberly. Não é por isso de admirar que, no dia oito, Clinton não deverá contar com o voto desta mulher de 48 anos.

No entanto, tal não significa que o candidato republicano o tenha garantido. Kimberly foge à pergunta, respondendo a brincar que irá votar no seu bulldog, porque esta “é a eleição mais louca na história dos EUA”. O facto de Donald Trump já ter tido uma posição mais dura face às armas no passado, não dá a maior segurança a muitos dos arrebatados defensores da segunda emenda. Em 2012, Trump escrevia no seu Twitter que Barack Obama tinha falado por si “e por todos os americanos” depois do discurso emotivo do Presidente na sequência do massacre da escola primária de Sandy Hook; hoje em dia, Trump diz que os “defensores da Segunda Emenda” têm de impedir Clinton de chegar ao poder, numa frase que foi interpretada por alguns como uma ameaça velada.

Feitas as contas, este não é um tema tão polémico ou divisivo como parece à partida. Por um lado, a maioria dos norte-americanos defende atualmente algumas medidas de restrição de armas como a extensão dos “background checks” passada por Obama em janeiro (67%, de acordo com as sondagens à altura). Por outro, as sondagens revelam que até mesmo no New Hampshire há apoio generalizado à proibição de que pessoas com problemas mentais comprem armas.

Mais importante do que isso, os estudos eleitorais mostram que mesmo os defensores de porte de armas mais aguerridos não colocam este tema como o mais prioritário. A economia, a imigração e o terrorismo surgem bem mais acima na lista de preocupações de todos os eleitores. Até mesmo para a maioria dos republicanos, portadores de armas e defensores da Segunda Emenda do New Hampshire.

NEW HAMPSHIRE

Média das sondagens
43% Hillary Clinton
40% Donald Trump
7% Gary Johnson

Histórico eleições presidenciais (desde 1984)
1984: Ronald Reagan (Republicano)
1988: George H. W. Bush (Republicano)
1992: Bill Clinton (Democrata)
1996: Bill Clinton (Democrata)
2000: George W. Bush (Republicano)
2004: John Kerry (Democrata)
2008: Barack Obama (Democrata)
2012: Barack Obama (Democrata)