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Morreu Janet Reno, uma ex-procuradora-geral dos EUA que dizia as coisas como eram

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Esteve oito anos no governo de Bill Clinton, o que não lhe tornou a vida fácil. Tinha 78 anos

Luís M. Faria

Jornalista

Morreu Janet Reno, a primeira mulher a ocupar no governo dos Estados Unidos o cargo de ‘attorney general’ (procuradora-geral; o equivalente, mais ou menos, ao nosso ministro da Justiça, embora com poderes diferentes em certas áreas).

Reno era uma figura imponente: alta, carismática, totalmente dedicada ao trabalho, dizendo as coisas como achava que eram. Coube-lhe atravessar um período em que a judicialização da política atingiu extremos no país, mas conseguiu chegar ao fim com a sua reputação basicamente intacta, pelo menos fora daquelas margens da opinião pública onde as teorias da conspiração nunca se interrompem.

Durante os anos 90, os republicanos perseguiram incessantemente o então Presidente Bill Clinton, que acabou ‘impeached’ e a ser julgado pelo Senado devido ao alegado perjúrio cometido durante uma investigação sobre as suas relações extraconjugais. Reno adotou uma posição independente, o que não a livrou das suspeitas. Quando cedeu à pressão e nomeou um procurador independente para investigar o casal Clinton – nessa altura, por assuntos relacionados com negócios durante o tempo deles no Arkansas – os congressistas republicanos não gostaram do resultado e substituiram-no por outro republicano, Kenneth Starr, que no entender deles era mais fiável.

Starr foi sempre expandindo a sua investigação, com autorizações que pedia a Reno, e que ela concedia. Tudo culminando no famoso inquérito em torno da relação entre o Presidente e a estagiária Monica Lewinsky. O Senado viria a absolvê-lo, mas o dano estava feito. Não só para Bill Clinton como para Reno, que nunca mais seria eleita para um cargo público, embora tentasse.

Nos seus quinze anos de vida pós-Clinton, dedicou-se a causas relacionadas com a igualdade, a exoneração de inocentes, o modo como os adolescentes são tratados pelo sistema judicial. Recebeu prémios importantes, apareceu no programa satírico “Saturday Night Live”, e foi lidando como podia com a doença de Parkinson, diagnosticada desde 1995, e a que finalmente sucumbiu na madrugada desta segunda-feira, aos 78 anos.

Rejeitada numa firma que mais tarde a fez sócia

Janet Wood Reno nasceu a 21 de julho de 1938, em Miami. O pai era um emigrante dinamarquês que trabalhava como jornalista no conhecido diário “Miami Herald” (ficou lá 43 anos). A mãe também foi fazer jornalismo após criar os quatro filhos. Janet, a mais velha, estudou em escolas públicas e foi brilhante desde o início. Campeã de debates, escolheram-na para fazer o discurso de despedida no fim do liceu – uma honra geralmente concedida ao aluno de topo. Na universidade, licenciou-se em Química antes de ir fazer Direito na Harvard Law School, talvez a mais reputada faculdade da área nos Estados Unidos.

Terminado o curso, começou à procura de emprego. Rejeitada numa firma de advogados por ser mulher, anos mais tarde tornar-se-ia sócia da mesma firma. Mas antes trabalhou noutras e no Estado. O seu primeiro emprego público, como funcionária do comité de Justiça do parlamento estadual da Florida, foi em 1971. Mais tarde, esteve na Procuradoria da zona de Miami, voltou ao sector privado durante um breve período, e regressou ao público para ser procuradora estadual na região de Miami-Dade.

Seria reeleita quatro vezes sucessivas, apesar de uns quantos casos bastante polémicos, como sempre há nessas situações. É prova da sua persistência – e também da honestidade e da atitude direta que sempre lhe foram reconhecidas – o facto de ter conseguido ultrapassar situações por vezes muito difíceis, algumas envolvendo racismo e a polícia.

Com o Presidente Bil Clinton, com quem trabalhou durante oito anos

Com o Presidente Bil Clinton, com quem trabalhou durante oito anos

TIM SLOAN / AFP / Getty Images

A tragédia de Waco

As mesmas qualidades ser-lhe-iam ainda mais necessárias nos oito anos (um recorde nunca atingido desde 1829) que passou como procuradora-geral de Clinton entre 1993 e 2001. Logo ao princípio houve uma tragédia: o cerco do FBI ao complexo em Waco, Texas, onde se tinha refugiado o líder de uma seita davidiana com largas dezenas de reféns. Membros da seita e agentes da autoridade tinham sido abatidos logo na tentativa inicial de aplicar um mandado judicial.

Após quase três meses de impasse, o FBI atacou o complexo, resultando num incêndio onde 76 pessoas, 21 delas crianças, perderam a vida. Reno assumiu a responsabilidade completa, e não foi demitida. Mas o caso, para muitos grupos radicais anti-governo, ficou como um exemplo de um massacre cometido pelos inimigos da liberdade. A bomba que em 1995 matou 168 pessoas num edifício governamental do Oklahoma, e pela qual um antigo veterano de guerra foi condenado e executado, terá tido como objetivo vingar as ações do governo em Waco. O dia foi o mesmo: 19 de abril.

Outras ações de Reno durante o seu mandato também envolveram capturas de bombistas: um muçulmano que fizera a primeira tentativa de derrubar as Torres Gémeas em Nova Iorque; o chamado Unibomber, outro radical anti-governo; e o homem que atacou o parque olímpico em Atlanta durante os Jogos de 1996. Neste caso, houve uma falsa identificação, e o verdadeiro culpado só seria preso em 2003, já Reno tinha deixado a vida pública. Em contrapartida, no caso de Elián González o problema era diferente.

Uma imagem terrível

Este menino de seis anos tinha visto a mãe afogar-se no naufrágio que sofreram quando tentavam viajar de Cuba para os EUA. Tios dele em Miami acolheram-no, mas o pai queria-o de volta. Contra a oposição de grande parte da comunidade cubana em Miami, as autoridades conduziram um raide e retiraram o menino da casa onde se encontrava.

A foto de uma criança escondida num armário a olhar aterrorizada para um agente em uniforme dos serviços especiais e armado até aos dentes terá dado uma contribuição importante para que Al Gore perdesse a Florida, e com ela a liderança do país nas eleições presidenciais que tiveram lugar meses depois. Se não fosse a indignação maciça dos cubano-americanos, talvez Gore tivesse ganho por uma margem que evitasse a confusão sobre a contagem de votos que o Supremo Tribunal do país acabou por decidir, atribuindo a eleição a George W. Bush.

A História é o que é, não o que podia ter sido. Para Janet Reno, que fez ela própria História ao quebrar um teto em 1993, tem algo de irónico a sua morte ocorrer em vésperas de estar prestes a ser quebrado, muito provavelmente, outro teto ainda mais importante. Para já, espera-se que volte a passar nos ecrãs o episódio dos Simpsons (datado de 2013) onde ela fazia a sua própria voz. O episódio é dedicado a um irmão seu, Robert Reno, falecido com a doença de Alzheimer.