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“Matem os apoiantes de Donald Trump”

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As tiradas racistas e xenófobas de Donald Trump, o candidato republicano à Casa Branca, abriram campo a respostas violentas das comunidades imigrantes

O bairro de Jamaica Plain foi outrora uma área agrícola, explorada pelos puritanos europeus que procuravam terra arável na zona sul da cidade de Boston. Com cerca de 10 quilómetros quadrados, hoje, quase quatro séculos depois, alberga mais de 40 mil pessoas.

As minorias tornaram-se maioria. Afro-americanos, hispânicos e asiáticos representam mais de 60% da população. São elas que enchem de madrugada o metro e os autocarros do T (operador de transportes públicos da cidade) e limpam os escritórios da baixa e as salas de aula das conceituadas universidades, situadas no outro lado do rio Carlos, em Cambridge.

“Sem eles a cidade parava”, garante Paulo Pinto, presidente de uma associação de apoio a imigrantes portugueses e hispânicos. Muitos dos seus clientes vivem em Jamaica Plain.

À medida que no último ano e meio ouviram o candidato presidencial republicano, Donald Trump, a prometer deportações em massa e a construção de um muro na fronteira com o México, o futuro daqueles trabalhadores ficou mais incerto.

Muitos deles não têm papéis, como costumam dizer, e a ideia de uma partida forçada pode obrigá-los a deixar os filhos menores para trás.

“Não me recordo da última vez em que estive assim tão tenso. Estamos todos nervosos. A mentira, os escândalos, os comportamentos inapropriados, o racismo… Tudo isto deixou-me enojado”, desabafa, ao Expresso, Ray Hammond, reverendo de uma igreja metodista local. “Há um cheiro mau no meu país. Espero que passe rapidamente”.

Paulo Pinto gere como pode tamanha ansiedade. “Porque será que ele (Donald Trump) não sugere um muro na fronteira com o Canadá. Será que é por serem um pouco mais branquinhos?”

Aos poucos, o receio deu lugar à revolta. Os mais novos, por exemplo, envolvem-se com frequência em zaragatas por causa do que Trump disse ou insinuou. Uns defendem que ele é autêntico, outros preferem chamá-lo racista ou então, simplesmente, dedicar-lhe um chorrilho de ofensas.

Antonio Merchan tem 68 anos e sente-se desconfortável em conversar porque é um dos cerca de 11 milhões de ilegais que vivem nos Estados Unidos. “O meu filho é um desses ‘troublemakers’. Anda sempre metido em apuros”, diz.

Tamanha rebeldia deixa-o com o coração apertado todos os dias, quando parte para o trabalho às cinco da manhã. “Faço biscates de carpintaria há dez anos. Tenho vários donos de empresas de construção que me pedem ajuda e eu vou até lá. Combino uma esquina e fico à espera que me venham buscar”.

No domingo de manhã, o coração de Antonio comprimiu-se um pouco mais, depois de a polícia ter detectado um graffiti na fachada de um prédio na rua Alphonsus, a norte do bairro. Os suspeitos são os do costume, os tais “troublemakers” de Jamaica Plain. “Rezo para que ele não esteja metido nisto”, afirma Antonio.

Embora o porta-voz da Polícia de Boston, Stephen McNulty, não revele o teor da mensagem, explicando que “o assunto é sério”, os residentes garantem que se podia ler em letras garrafais “Matem os apoiantes de Trump”.

A ansiedade do reverendo Hammond dispara com o incidente. “Não é forma de agir. Já chega de tanto ódio. Lembrem-se do que Michele (Obama) disse: “When they go low, we go high”.