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Há uma fação politizada do FBI que está a tentar impedir a vitória de Clinton?

CARLO ALLEGRI/REUTERS

Donald Trump disse este domingo que o FBI está em marosca com a campanha democrata após a polícia federal ter declarado que não encontrou indícios de crime nos novos emails de Hillary Clinton, cuja existência foi divulgada a apenas uma semana das eleições. Mas ao longo da última semana, várias fontes têm indicado que é o republicano que está a contar com a ajuda preciosa da agência federal

Donald Trump não está satisfeito com o anúncio do FBI, que este fim de semana tentou voltar a enterrar o caso dos emails de Hillary Clinton ao dizer que não foram encontrados "quaisquer indícios de crime" nos milhares de novos emails da candidata que foram encontrados no computador do marido da sua principal assessora, Huma Abedin.

Num comício de campanha nos subúrbios de Detroit, a apenas dois dias das eleições, o candidato republicano insistiu este domingo que é impossível que o FBI tenha conseguido rever o que se diz serem até 650 mil novos emails em tão pouco tempo, acusando a agência federal de estar a proteger a sua rival democrata. "Neste momento, ela está a ser protegida por este sistema manipulado", disse aos apoiantes em Sterling Heights. "Este sistema está totalmente manipulado. Estou a dizer isto há muito tempo."

De facto, está a dizê-lo há muito tempo e a sua retórica sobre manipulações e fraudes já está a provocar incidentes nas urnas, em que apoiantes do republicano intimidam e ameaçam eleitores democratas — isto depois de o próprio Trump ter pedido que se mobilizem nas urnas como "observadores eleitorais voluntários" na terça-feira, aumentando os receios de violência pós-eleitoral. Mas ao contrário do que alega sobre as instituições federais serem favoráveis à democrata, vários indícios surgidos na última semana parecem comprovar que é a ele que muitos agentes do FBI prestam vassalagem.

Este domingo, um artigo do "Huffington Post" referia que, a três dias das já históricas eleições, surgiu "um novo dado perturbador": a possibilidade de agentes do FBI estarem a usar do seu poder para influenciarem o resultado a favor de Trump. A notícia não se refere apenas a James B. Comey, o diretor do FBI que tem sido alvo dessas acusações, mas à massa de funcionários que integram a agência federal. Duas fontes avançaram à Reuters que os investigadores do gabinete do FBI em Nova Iorque (responsáveis pela investigação ao congressista Anthony Weiner no âmbito da qual foram encontrados os novos emails de Clinton) são "publicamente hostis" à candidata democrata. Outras fontes da agência americana disseram ao britânico "The Guardian" que o FBI é "a terra de Trump" e que a maioria dos agentes nutre uma "profunda antipatia" por Clinton.

Apesar de ter sido nomeado por Barack Obama, Comey assumiu no verão que está registado como republicano

Apesar de ter sido nomeado por Barack Obama, Comey assumiu no verão que está registado como republicano

Chip Somodevilla/ Getty images

As informações surgiram depois de uma semana cheia de acontecimentos e novas informações sobre os meandros das investigações do FBI à candidata democrata, a poucos dias o Dia D (ou E, de eleições). No domingo da semana passada, o "Wall Street Journal" publicou um artigo sobre a frustração sentida pela equipa do FBI que investiga alegados crimes de corrupção na Fundação Clinton face ao desinteresse das restantes autoridades federais, em particular a procuradoria, sobre esse assunto. De tal forma frustrados, refere o "Huffington Post", que detalhes dessa investigação foram parar à imprensa a dez dias das eleições, numa história publicada pelo "Wall Street Journal".

A isto seguiu-se uma notícia avançada pela Fox News, cuja proximidade aos republicanos não é um segredo, a dar conta de que a agência federal estava prestes a acusar formalmente a ex-secretária de Estado no âmbito do caso da Fundação Clinton. A história, com base em informações que teriam sido avançadas por fontes do FBI, foi refutada por outros media, levando o apresentador Bret Baier a pedir desculpa e a assumir que foi "um erro".

Um dia depois, na sexta-feira passada, Rudy Giuliani, ex-autarca de Nova Iorque e professo apoiante de Trump que se gaba de ter ligações privilegiadas com o FBI, admitiu num programa no mesmo canal que já sabia que a agência estava a ponderar reabrir a investigação ao uso de um servidor privado por Clinton, enquanto secretária de Estado do primeiro mandato de Barack Obama, por causa dos emails encontrados no computador de Weiner. "Achava que ele [James B. Comey] ia anunciá-lo há três ou quatro semanas", declarou Giuliani. Horas depois, fez inversão de marcha e disse que não sabia nem sabe nada sobre as investigações do FBI.

Na quinta-feira, a Reuters tinha avançado que Comey decidiu enviar a carta ao Congresso sobre os novos emails da candidata democrata, em parte por temer que os seus próprios funcionários enviassem informações sobre o assunto à imprensa sem a sua autorização. Note-se, contudo, que apesar de ter sido nomeado por Barack Obama para dirigir o FBI, no verão Comey assumiu ao Congresso que tem estado registado como eleitor republicano "a maior parte da sua vida adulta". E este domingo, um utilizador do Facebook publicou uma fotografia da fachada da casa do diretor do FBI, onde se vê um sinal de apoio a Trump montado no seu quintal.

A adensar o mistério: a ressurreição de uma conta da agência federal no Twitter. Na terça-feira, a conta FBI Records Vault foi reativada com a publicação de documentos alegadamente pertencentes a uma investigação do FBI à Fundação Clinton — 129 páginas altamente editadas que parecem fazer parte do inquérito que o FBI conduziu sobre o controverso perdão de Marc Rich pelo então Presidente Bill Clinton, que no último dia do seu segundo e último mandato, em janeiro de 2001, perdoou o empresário após este ter sido acusado de negócios ilegais com o Irão e de fuga aos impostos.

O inquérito foi concluído em 2005 sem quaisquer acusações formais, mas a divulgação de documentos dessa investigação a tão poucos dias de se concluir a corrida à Casa Branca vieram aumentar as especulações de que há um grande movimento anti-Clinton dentro do FBI. Esta terça-feira, quando a contagem dos votos começar a ser feita, é que o verdadeiro impacto desta saga começará a delinear-se. Se Trump contrariar a maioria das sondagens e for eleito Presidente, deverá muito ao FBI e às suas controversas decisões e divulgações na reta final da corrida. Se for Hillary Clinton a vencedora, terá de lidar com uma poderosa agência que não a respeita e que não a quer na Casa Branca.