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dos piratas

Gilles clarke / getty images

As eleições este sábado na Islândia podem ser uma revolução na Europa. Birgitta Jónsdóttir, ex-porta-voz do WikiLeaks, revela como o seu Partido Pirata está pronto para tomar o poder

Na internet há uma personagem de banda desenhada chamada Joy B. É uma miúda de cabelo preto, olhos grandes, um sorriso ainda maior, carimbado por umas sobrancelhas angulares e enérgicas. Desenhada por um cartoonista italiano, Hand, a personagem apareceu pela primeira vez num blogue a 2 de novembro de 2004, um dia depois de o vulcão de Grimsvötn ter começado mais uma irrupção na Islândia, derretendo a superfície de gelo do maior glaciar da Europa. No seu blogue pessoal, a personagem agitava uma lata de spray e apresentava-se: “Sou uma punk, um anjo brega, uma pagã, uma white trash, uma indígena, uma miúda urbana, uma criança rebelde, uma conservadora, um camaleão do velho mundo e do novo mundo.” Ao longo dos últimos 12 anos, Joy B tem sido o alter ego de Birgitta Jónsdóttir e é provável que assim continue a ser, mesmo se a mulher que lhe serve de inspiração vença as eleições legislativas deste sábado na Islândia e se torne na mais improvável primeira-ministra da história recente da Europa.

Birgitta Jónsdóttir é a líder do Partido Pirata islandês. Desde março de 2015 os piratas ficaram à frente em 50 de um total de 70 sondagens sobre a intenção de voto no pequeno país de 323 mil habitantes. Embora em setembro e outubro o seu favoritismo tenha sido desafiado, numa disputa ombro a ombro, pelo Partido da Independência — a força política com mais deputados eleitos e que, sozinha ou em coligação, tem governado o país desde a sua independência em 1944 —, os piratas preparam-se para tomar o poder, mesmo que acabem por não ser os mais votados, coligando-se com outros partidos da oposição, à semelhança do que aconteceu em Portugal nas últimas legislativas.

A popularidade inesperada dos ativistas da bandeira negra cruza-se com o percurso pessoal de Birgitta e o modo como esta poetisa de 49 anos entrou de rompante na cena política local, no rescaldo da crise financeira de 2008 e no estado de transe em que o país mergulhou.

Combate à corrupção

Numa longa conversa tida na semana passada por Skype, seis anos depois de ter concedido uma primeira entrevista ao Expresso, logo a seguir a ter deixado de ser porta-voz do WikiLeaks, Birgitta admitia que tem pensado muito sobre o exercício do poder, dadas as circunstâncias atuais. “Se nos tornarmos o maior partido na Islândia, é óbvio que temos de indicar um primeiro-ministro que receba das mãos do Presidente a autoridade para formar um governo. Confesso que tenho estado mais interessada em ser a porta-voz do Parlamento e de levar a ideia de poder para o coração da democracia, que é a Assembleia da República, porque é o local que está mais próximo dos eleitores.” A líder dos piratas reconhece que ao longo das últimas semanas tem recebido um número crescente de apelos vindos de figuras públicas, pressionando-a para ela assumir o cargo, caso vença as eleições. “Mas quanto mais penso nisso, mais fico convencida de que o lugar devia ser ocupado por outra pessoa. Seja como for, teremos de encontrar uma forma de receber a autoridade do Presidente para podermos governar.”

Nos bastidores houve reuniões recentes entre os piratas e os outros três partidos da oposição, para encontrarem pontos em comum e estudarem a possibilidade de formarem uma coligação. “Será sempre um cenário complicado e teremos de avaliar a situação logo a seguir às eleições, para vermos quem faz exatamente o quê. O que é absolutamente claro é que, uma vez que um dos pontos essenciais da nossa agenda é combater a corrupção, seria impossível para nós trabalharmos com os dois partidos do atual governo, porque estamos a ter eleições antecipadas precisamente por causa de um escândalo relacionado com a corrupção.”

No início de abril, os islandeses foram surpreendidos pelos ‘Panama Papers’. Um vídeo foi divulgado pelo Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação em que o primeiro-ministro Sigmundur Davíð Gunnlaugsson, então líder do Partido Progressista, parceiro de coligação do Partido da Independência, era confrontado com a existência de uma companhia offshore — a Wintris, sediada nas Ilhas Virgens Britânicas — que não vinha incluída na sua declaração de interesses. A forma como reagiu às perguntas dos jornalistas, hesitante, embaraçado e, por fim, indignado, levou a manifestações em massa nas ruas e a uma inevitável demissão.

Ironicamente, os dados fornecidos por um whistleblower, o misterioso fornecedor da fuga de informação dos ‘Panama Papers’, abriam assim a porta do poder a uma das maiores defensoras dos whistleblowers. Foi a primeira a chegar-se à frente para tentar dar a cidadania islandesa a Edward Snowden em 2013 e é uma apoiante indefetível de Chelsea Manning, a militar que foi conhecida pelo nome de Bradley Manning até ter mudado de sexo, condenada a 35 anos de prisão por ser a whistleblower responsável pela revelação de 250 mil relatórios produzidos nas embaixadas americanas no mundo inteiro, e cujo leak foi apelidado de Cablegate. Uma contestatária do sistema era empurrada para ficar à frente do sistema.

Poetisa precoce

Mas de onde veio esta personagem? Birgitta Jónsdóttir nasceu em 1967 na capital islandesa, Reiquiavique, no seio de uma família inclinada para as artes. Árni Jónsson, o avô materno, era carpinteiro e nas horas vagas fazia uma parelha musical com a mulher. Tocavam acordeão e gaita. A mãe, Bergþóra Árnadóttir, tornou-se uma cantora de folk famosa nas décadas de 70 e 80. Existem fotografias publicadas na internet de Birgitta de cabelo à tigela, aos oito anos, já com o tal sorriso grande e os dentes ligeiramente espaçados, ao lado do irmão Jón, da mãe e do padrasto, naquele registo nórdico contemporâneo dos Abba e da prosperidade florescente do pós-guerra islandês.

“Tomei a decisão de ser uma poetisa aos 14 anos”, recordou ao Expresso. O seu primeiro poema foi publicado num semanário. Era um poema sobre o holocausto nuclear, versos sobre um cenário apocalíptico. “Mas sempre escrevi sobre tudo. Sobre política mas também sobre emoções. Dediquei um livro inteiro ao tema da morte, porque tive muitas experiências na minha vida relacionadas com a morte. Dei a esse livro o título “Conversas com Fantasmas”, que foi ilustrado pelo cartoonista italiano Hand, o mesmo que concebeu a personagem de cartoon inspirada em mim, a Joy B.”

simone granati / getty images

Quando tinha 20 anos, o padrasto com quem cresceu desde os quatro anos, Jón Ólafsson, suicidou-se. Dois anos depois, a jovem artista publicava o primeiro livro de poesia, “Frostdinglar” (“Geada Suspensa”) numa das mais importantes editoras islandesas. Apesar do sucesso que alcançou dentro do micro-universo de leitores líricos islandeses, estava consciente de que não conseguiria sobreviver à custa da literatura e virou-se para o design e a tecnologia. Em 1995 tornou-se designer e programadora de sites e começou a desenhar páginas de internet, passando a partilhar os seus poemas online. E entretanto emigrou. Viveu na Dinamarca, na Suécia, na Noruega, em Inglaterra, nos Estados Unidos, na Holanda, na Austrália.

Estava na Nova Zelândia quando a personagem Joy B., a sua versão cartoonizada, nasceu. Na altura, em 2004, andava ocupada com o seu primeiro romance, “O Diário do Camaleão”. Numa das notas do seu blogue, escrevia: “Joy B. prefere ser materialmente pobre se é isso que é preciso para ser espiritualmente rica, ser humilde e estar próxima do coração e da compaixão. Abdiquei de tanto dinheiro no passado para poder seguir o meu coração. Nenhum desses caminhos tem sido fácil, mas seria muito mais pobre se não tivesse ganho essa experiência e se não tivesse adquirido as sombras de humanidade que agora cobrem a minha pele, um reflexo do que eu poderia ou do que eu deveria ser, um elfo vindo do espaço para o planeta Terra.” Em dezembro desse ano, Birgitta expunha num poema o desejo de voltar à Islândia — uma terra “tão pequena, mas ainda assim tão grande.”

O romance de Birgitta teve projeção em Reiquiavique, foi aparecendo em capas de revistas, à medida que Joy B., a personagem de banda desenhada, ia-se desenvolvendo. Em 2007, logo a seguir à morte da mãe, vítima de cancro nos pulmões, a poetisa escrevia: “Depois de refletir muito, cheguei à conclusão de que a maior mudança e a maior ajuda que posso dar a este mundo é não ir para as ruas, não é revoltar-me de outra forma que não seja no meu próprio coração.” Birgitta estava convencida que iria dedicar-se exclusivamente à escrita e praticá-la “de forma brutalmente honesta e pessoal”.

Então, em 2008, a crise financeira chegou. A 29 de setembro era anunciada a nacionalização de um dos bancos islandeses, o Glitnir. Mas a intervenção do governo não foi suficiente para estancar o problema. Havia outros bancos aflitos, o Kaupthing e o Landsbanki. Juntas, as três instituições tinham acumulado créditos de quase 80 mil milhões de euros, 11 vezes mais do que o produto interno bruto (PIB). Ao mesmo tempo, a dívida externa do país tinha galopado para os 700% do PIB. O Fundo Monetário Internacional foi chamado a intervir. Em outubro, a Bolsa caiu mais de 90%. Em novembro, o número de desempregados atingia o triplo do registado em agosto. Em dezembro foi aberta uma comissão parlamentar de inquérito para apurar as origens da bancarrota do país e a Procuradoria-Geral da República contratou uma magistrada francesa de origem norueguesa, Eva Joly, para liderar uma exigente investigação criminal. Quem eram os responsáveis? Os CEO dos bancos acabariam condenados a penas de prisão. E com eles também um secretário de Estado das Finanças, que recebeu uma sentença de dois anos de cadeia.

Birgitta passava por uma inesperada mudança de perspetiva. Dedicara parte do seu tempo livre em 2008 à causa dos direitos humanos no Tibete, mas era um assunto lá longe, noutro continente. Em outubro, com a hecatombe dos bancos a desenrolar-se em direto, escrevia: “Estou incrivelmente agradecida por me ser dada a oportunidade de estar aqui e agora, nestes momentos de transformação. Ninguém vai fazer essa transformação por nós.” Foi para as ruas. A 20 janeiro de 2009 os manifestantes cercavam o Parlamento. Nesse dia, a poetisa estava lá: “Espero que o barulho os faça sentir na alma a sangria que eles provocaram no país. Espero que percebam que queremos que se vão embora. Queremos que se vão embora para sempre. Queremos uma nova Constituição que impeça o povo da Islândia de servir a máfia. Não iremos embora até eles se irem embora. Faremos ouvir o nosso grito de liberdade até se irem embora.” Ao fim de três dias, o Governo caía e uma artista entrava no primeiro plano da vida política.

Durante os primeiros meses de 2009, um grupo de cidadãos sem qualquer experiência no governo ou no mundo político criaram o Movimento Cívico, um partido de génese espontânea com o objetivo de entrarem no Parlamento. Nas legislativas de abril desse ano conseguiram 7% dos votos e, com mais três pessoas, Birgitta tornou-se deputada. Meses depois abandonou o partido, em rutura com o conceito demasiado improvisado e de curto prazo do projeto, e lançou uma outra formação com um carácter mais sólido, batizado apenas de Movimento, a pensar num futuro mais distante.

A sucessão de acontecimentos foi muito rápida. No verão de 2009 Julian Assange, que tinha criado o WikiLeaks três anos antes mas não era ainda a estrela mundial que viria a ser, aterrou em Reiquiavique para se envolver na efervescente cena local. Um documento interno do Banco Kaupthing, que estava para ser divulgado na televisão pública islandesa, foi barrado por uma providência cautelar emitida por um tribunal e Assange ofereceu uma alternativa: libertá-lo no WikiLeaks. O documento revelava como, nas vésperas da crise, o banco tinha emprestado milhares de milhões de euros aos seus próprios acionistas, sem qualquer garantia de que visse o dinheiro de volta. O hacker australiano ascendeu de um dia para o outro ao estatuto de herói nacional. E durante meses pairou a hipótese de a sua organização instalar a sede em Reiquiavique.

Durante meses, Birgitta envolveu-se na edição e na divulgação de dois vídeos secretos feitos por militares norte-americanos na guerra do Iraque. Nas imagens viam-se soldados a matarem, do cimo de um helicóptero Apache, uma dúzia de civis iraquianos e dois jornalistas da Reuters. Os vídeos, “Collateral Murder”, foram divulgados em abril de 2010. Eram uma antecâmara para o que veio a seguir: a revelação massiva dos telegramas das embaixadas norte-americanas, com muitas informações confidenciais sobre a guerra no Iraque e a guerra no Afeganistão, catapultando o WikiLeaks como um novo fenómeno de media à escala mundial.

Porta-voz da Wikileaks

Entre 2009 e 2010, Birgitta e Assange tornaram-se amigos e a poetisa assumiu-se como porta-voz do WikiLeaks, mas em poucos meses a relação começou a ser assombrada por uma diferença de atitude entre os dois. Assange estava obcecado com a revelação dos documentos e a islandesa, por outro lado, preocupava-se cada vez mais com a ausência de um apoio forte e determinado na defesa à alegada origem de todos aqueles ficheiros. Bradley Manning, mais tarde Chelsea Manning, fora denunciado por um colega militar e detido logo em maio de 2010.

Chelsea Manning está retratada num quadro que a líder do Partido Pirata tem à frente da sua secretária. “Estou a olhar para ela agora. Não há um dia que passe sem que pense nela. É muito difícil contactar com Chelsea, a não ser por carta. São os amigos mais próximos dela que transmitem os meus recados e que me trazem os seus recados. Sinto que a minha vida mudou para sempre quando ajudei a coproduzir o “Collateral Murder”. Para mim é um assunto pessoal a forma como Chelsea é tratada. Ela é torturada e castigada regularmente na prisão militar onde se encontra.” Birgitta vê a jovem militar como a sua heroína. “Mudou o mundo. Não haveria WikiLeaks, eu não estaria onde estou, não haveria Edward Snowden e não haveria provavelmente o whistleblower por trás dos ‘Panama Papers’, se ela não tivesse aparecido como uma espécie de navio quebra-gelo.”

Em 2012, o Partido Pirata islandês foi fundado. E nas legislativas do ano seguinte, os 5,1% de votos foram suficientes para garantirem três assentos num Parlamento com 63 lugares. Para o novo partido Birgitta levou Smári McCarthy, um programador e ativista com quem, juntamente com Julian Assange, criou em 2009 a International Modern Media Initiative, um projeto para transformar a Islândia num paraíso para whistleblowers e para a liberdade de imprensa. A ideia foi em frente. “Tem sido um processo muito lento, existem propostas prontas em vários ministérios para alterar um conjunto de seis leis, e que ainda têm de ser apresentadas e discutidas. Mas se nós formos governo essa discussão vai acontecer muito em breve.”

Uma das facetas revolucionárias dos piratas na Islândia, e que talvez expliquem o apoio alcançado entre os eleitores, está no enfoque posto em forma de democracia direta. O partido lançou uma plataforma online onde qualquer pessoa pode apresentar ideias para medidas políticas e colocá-las à votação para serem levadas ao Parlamento. “Fizemos isso com a política das pescas, que nós adotámos a partir de uma dessas propostas. Imagine o que é estar no lugar da pessoa que teve essa ideia, que a partilhou no nosso sistema de votação e que agora a vê como uma das políticas mais importantes do partido que vai à frente das sondagens. A Islândia é um laboratório. Tem as mesmas coisas que outras nações maiores têm, mas porque é um país pequeno é mais fácil fazer experiências.”

Birgitta tem consciência do perigo de colocar cidadãos comuns a tomarem decisões essenciais para um país e olha para o ‘Brexit’ como um mau exemplo. “Queremos estimular o envolvimento das pessoas na política, oferecendo-lhes as ferramentas que permitam que isso seja feito de forma simples, mas sabemos que os cidadãos têm de ser preparados para exercerem esse direito. Se as pessoas não aprenderem a tomar decisões informadas, isso trará soluções ainda piores do que as que já existem. E nem tudo deve ser referendado. Não devemos, por exemplo, referendar o sistema fiscal. Ninguém quer pagar mais impostos e todos querem mais serviços. Mas podemos perguntar que prioridades podem ser assumidas com uma parte das receitas fiscais que temos.”

Sem se colar à esquerda ou à direita e à luta entre o capital e a mão de obra, o Partido Pirata procura posicionar-se numa nova perspetiva. “Sendo eu uma poetisa, alguém que disseca as palavras a toda a hora desde que sou adolescente, ao ver como as leis são feitas fez-me perder ainda mais o respeito pela palavra da lei. É como se fosse poesia muito mal escrita. Mas com consequências graves, porque as regras funcionam para todos nós, menos para os privilegiados e os seus advogados que conseguem tirar partido dos buracos criados pelas leis. As leis devem ser escritas por pessoas simples e ser entendidas por pessoas simples. E para isso temos de mudar este modelo herdado da era industrial, em que os cidadãos têm de cumprir oito horas de trabalho, das nove às cinco, em que ficam enfiados em engarrafamentos de trânsito, em que as crianças passam os dias inteiros na escola, em que não há quem cuide dos nossos pais, para termos mais tempo para estarmos envolvidos com as nossas comunidades. Quando me perguntam pela democracia direta, eu costumo devolver a pergunta: conheces os teus vizinhos? Vai bater-lhes à porta e apresenta-te, diz-lhes que se alguma vez estiverem em apuros têm aqui alguém.”

Birgitta fala de fluxos de “energia”, a mesma energia que reconhece em outros fenómenos na Europa,como o Podemos em Espanha ou o Movimento Cinco Estrelas em Itália. O lirismo do alter ego de Joy B. parece ter contaminado os islandeses, depois de ela própria ter sido contaminada, talvez ainda sem consciência disso, quando em 2004 escreveu cinco versos premonitórios a partir da Nova Zelândia: “Sonhei na noite passada que tinha ido para a política / E que ia ser a primeira mulher a ser primeira-ministra na Islândia / Foi um autêntico pesadelo / quer dizer, se entramos para os lugares do poder / o que é que nos pode acontecer?” Essa resposta é a parte do poema que ainda está por escrever.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 29 de outubro de 2016