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A primeira mulher

FUTURO. “Sou tudo aquilo que serei” parece dizer a jovem Hillary Rodham em 1969, acabada de se graduar pela Universidade Wellesley. O seu discurso final, o primeiro de uma aluna e muito crítico para o senador que discursara antes, levou a que a revista “Life” a entrevistasse

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Hillary Diane Rodham Clinton, antiga primeira-dama, de 69 anos, está a um passo de fazer História. Na próxima terça-feira, 8 de novembro, poderá tornar-se a primeira mulher Presidente dos Estados Unidos da América

Clara Ferreira Alves

Clara Ferreira Alves

Escritora e Jornalista

A ASTRONAUTA

Um pequeno passo para o homem, um grande passo para a humanidade. Ninguém se lembraria de dizer ao dar o primeiro passo humano na lua que era um grande passo para a mulher. O género feminino nunca serve para nomear as coisas. Homem serve para toda a Humanidade. É provável que este pensamento tenha atravessado a cabeça de Hillary Diane Rodham naquela data histórica. Pouco tempo depois, uma rapariga de 14 anos que vivia no Illinois escreveu uma carta à NASA a perguntar quais os passos necessários para ser astronauta. Ela queria ser a primeira mulher astronauta. A NASA respondeu que o programa espacial estava fechado às mulheres.

A Casa Branca também estava fechada. De 1960 a 2016, os portões foram-se abrindo e a rapariguinha de Chicago deu um contributo nessa caminhada pelos direitos das mulheres, os tais que, como ela disse em Pequim para desgosto das autoridades chinesas, são direitos humanos. Uma longa caminhada. Desde 1976, quando Bill Clinton foi eleito procurador-geral do Arkansas, que Hillary vive uma vida pública, não só no sentido de serviço público mas de exposição pública. A exposição foi aumentando com os anos, primeiro por causa da carreira do marido, de governador do estado a Presidente dos Estados Unidos, depois por causa da carreira dela, de primeira-dama a senadora pelo estado de Nova Iorque e a secretária de Estado. Há mais de 24 anos que Hillary Clinton vive protegida pelos Serviços Secretos, um recorde que nenhum candidato à Casa Branca bateu. São quase nove mil dias em que nenhum movimento, nenhum gesto, nenhuma palavra, nenhum pecadilho, nenhuma fuga, podem ser improvisados. Ou espontâneos. São mais de nove mil dias na prisão. Ou na redoma. Não admira que ninguém, a não ser um pequeníssimo e exclusivo grupo de amigos e conselheiros de confiança, possa dizer que conhece intimamente Hillary Clinton, ou citá-la descuidadamente. É como se tivessem todos assinado um pacto de silêncio. A gente da campanha de Donald Trump aparece na televisão, são protetores públicos, defensores oficiosos. A gente da campanha de Hillary nunca aparece na televisão, muito menos a gente que realmente conta. Na televisão, aparecem apenas apoiantes políticos de Bill ou admiradores distantes, e nenhum deles pode pretender saber do que está a falar se lhe perguntarem como é, longe da vida pública, no segredo da vida privada, a mulher destinada a entrar triplamente na História. Como presidente do país mais importante do mundo, como candidata que travou a campanha mais viciosa, perigosa e desrespeitosa de sempre e como a única presidente que sucede a um Presidente com o qual está casada. O famoso “dois em um”. De certo modo, sobreviver a Bill Clinton e a um casamento entre iguais, recheado de humilhações e infidelidades, preparou-a para sobreviver a Donald Trump. E sobreviver ao brilhantismo e tato político do marido, um homem que gosta de banhos de multidão, de campanhas corpo a corpo, de encontros imediatos do terceiro grau com os eleitores e de gastar as horas a convencer os descrentes, “hei de vencer estas eleições nem que tenha de apertar a mão dos americanos um por um”, disse ele em 1992, preparou-a para sobreviver a todos os ataques e desafios. E fez dela, por oposição, a mulher mais famosa do mundo e a mais introvertida e reservada figura pública. O que ela pensa, diz-se, nem o marido sabe. Ninguém sabe.

Campanha. A poucos dias da eleição, Hillary Clinton, que as sondagens dão como favorita à vitória, tenta convencer os indecisos durante uma ação em New Hampshire

Campanha. A poucos dias da eleição, Hillary Clinton, que as sondagens dão como favorita à vitória, tenta convencer os indecisos durante uma ação em New Hampshire

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A CAMPANHA ALEGRE

Em 1992, eu estava no Arkansas, em Little Rock. A campanha de Bill tinha ali o quartel-general onde um grupo de jovens, geniais e desconhecidos estrategos, onde avultavam James Carville e George Stephanopoulos, geriam uma candidatura entrecortada pela rebeldia do candidato, e a sua tendência para se meter com todos os rabos de saia. Bill era por essa altura um homem sem cabelos brancos, alto e encorpado, vermelhusco, dado a junk food e noitadas de discussão. Ninguém dormia no quartel-general, cheio de voluntários vindos dos quatro cantos da América, ansiosos por deporem o velho Bush, o vencedor da guerra do Golfo. Essa era a sua coroa de louros. Como Churchill soubera, vencer uma guerra não chega para vencer umas eleições. No princípio da campanha, William Jefferson Clinton era um candidato improvável e mal-amado pelo tal establishment dos salões de Georgetown. Não tinha maneiras. Não cumpria as regras. E as mulheres davam cabo dele. No tempo que passei em Little Rock, e no Arkansas, nos lugares da infância e adolescência de Bill, Hope e Hot Springs (a casa dele aqui é hoje património nacional e não se parece nada com a casa modesta que vi então) sabia-se como e onde podíamos ver o candidato. Numa churrasqueira chamada Slick Willie’s, irónico nome. À sexta-feira, Bill e as suas tropas iam comer carne e beber cerveja até às tantas. Sob proteção, claro, mas era possível ver Bill. E vi Bill, que vivia praticamente acampado no quartel-general quando não andava na estrada. De repente, rebentou a bomba Gennifer Flowers. Nunca mais se viu Bill como dantes. O tempo da inocência tinha acabado. Enquanto durou, nunca vi Hillary. Hillary nunca aparecia em público. Nunca se via passar em Little Rock. Não ia com o gangue ao Slick Willie’s. Não visitava o quartel-general da campanha. Hillary era uma incógnita. Os génios da campanha viviam aterrorizados com a ideia de que ela aceitasse mal o escândalo e deixasse cair Bill. Não aparecesse ao seu lado. Não o protegesse. A gente da campanha de Bill, sobretudo James Carville, não gostava de Hillary e tinha medo dela. Sabiam que sem ela não haveria presidente Clinton. Hillary era a conselheira política mais importante, a voz que ele ouvia com mais atenção. E não tinham acesso alargado a ela, com exceção de uma mulher, Mandy Grunwald (que ainda a aconselha). Como se sabe, ela não deixou cair Bill. E Monica Lewinski mal tinha nascido quando, nos esconsos de Little Rock, a cidade mais aborrecida e provinciana dessa América do meio que fica longe de Los Angeles e Nova Iorque, se murmurava que de Hillary sabia Hillary. E uma meia dúzia de mulheres com quem ela se dava. Chelsea era uma menina e a principal preocupação de mãe era proteger a criança dos olhares públicos e da crueldade mediática.

Nunca vi Hillary Clinton em carne e osso. É muito difícil ver Hillary Clinton de perto ou fora da televisão ou do ecrã do computador. Nesta campanha, os jornalistas, os escritores, os curiosos, os apoiantes, os mirones e os manifestantes acorreram a ver Donald Trump. Não era difícil. A campanha distribuía bilhetes online para os comícios. Em frente à Trump Tower da Quinta Avenida de Nova Iorque, sede informal e verdadeira da campanha, lugar do escritório e da casa Trump, todos os dias há circo. Mulheres e homens com cartazes a dizer “Precisamos de um verdadeiro homem”, ou homens e mulheres com cartazes a dizer “Dump Trump”. Latinos e asiáticos, sim, nenhum africano à vista. Até o Naked Cowboy, que se tornou paisagem protegida de Times Square e deu origem a uma escola de Naked Cowgirls, apareceu a tocar guitarra em frente à porta giratória da torre, guardada cá fora por mais de uma dezena de polícias e por segurança privada no interior. Os mirones esperam avistar Trump, e conseguiram-no mais do que uma vez. Quando apareceu o vídeo do Access Hollywood, com a frase imortal “I grab them by the pussy”, Trump desceu à terra e prometeu que não desistiria da campanha a umas dezenas de angustiados. Brevemente. A seguir, reentrou no elevador privado que leva à sua penthouse. Man of the people.

A sede da campanha de Hillary é em Brooklyn, e não tem essa substância tão apreciada na América, glamour. A torre não é a Trump Tower. A rua é banal, 1 Pierrepont Plaza, nem sequer um poiso de hipsters brooklynianos. Parece a sede de uma ONG, cheia de voluntários, mais voluntárias que voluntários, e dividida em cubículos. Há portáteis Apple da campanha e portáteis dos voluntários, há uma parede de post-it com motes da campanha, há uma parede com fotografias dos voluntários pelo país todo, há fotografias de Hillary e da campanha, cartazes, panfletos, livros, copos de café e aquele rumor excitado típico de lugares assim, onde pessoas comuns se sentem parte da História com H grande. Os phone banks, marcação de eleitores caso a caso, são obra dos voluntários, e qualquer pessoa pode estabelecer o seu a partir de casa, com um telefone e uma lista. As aparições da candidata são programadas, anunciadas e controladas, bem como os autocarros que partem para registar eleitores em estados incertos, onde nem ela nem Trump têm vantagem decisiva. É uma sede de campanha muito diferente da de Bill Clinton, em 1992. Maior, tecnológica, tecnocrata, hipercomunicativa. Hipercoordenada. Em 1992, não existiam telemóveis, internet, redes sociais. Em compensação, existia acesso livre às pessoas. Em Brooklyn, a única coisa que falta é a presença da candidata. Parece que foi uma vez visitar as tropas. De resto, o seu escritório é em Manhattan, num piso superior de um arranha-céus perto de Times Square, na Rua 45 West. Aqui tem a sede pessoal e aqui trabalha com os aliados principais. As reuniões especiais, incluindo a preparação para os debates, é feita aqui ou na casa dos Clinton em Chappaqua, onde o acesso é mais restrito. Chappaqua fica nos subúrbios verdes do norte de Manhattan e é uma zona de dinheiro, no mínimo mais de cem mil dólares por mês. Quando os Clinton compraram a casa, por pouco mais de um milhão (vale hoje mais do dobro), não conseguiram encontrar um clube de golfe que os aceitasse como membros, por causa da disrupção que a segurança ia introduzir. Tiveram que se contentar com o Clube de Golfe Trump, honrado em ter o ex-Presidente e a mulher como membros. Bill tem hoje um escritório no Financial District (a Fundação fica em Harlem e ele não vai lá desde que a mulher se candidatou) e Chelsea vive no bairro do Flatiron. Esta é a santíssima trindade. Hillary tem o marido e a filha como conselheiros, embora Bill tenha de ser condicionado para não ofuscar a mulher. Um dos temas favoritos dos jornalistas que profetizam uma Casa Branca Clinton 2 é saber como Bill se comportará de volta a Washington e ao poder e qual será o seu papel. O papel de príncipe-consorte assenta-lhe mal.

ABEDIN

Além de Bill e Chelsea, a principal figura junto de Hillary, a sua confidente e conselheira, chefe de gabinete e mulher dos sete ofícios e ouvidos, é Huma Abedin. O gabinete de Abedin, em Brooklyn, está vazio, bem como o do presidente da campanha, John Podesta. Podesta, que trabalhou com Bill na presidência, foi denunciado no WikiLeaks, e tem fama de ser um especialista da maquinação política, um Maquiavel que não hesita em usar classificações para neutralizar os adversários e os inimigos. Rigoroso e disciplinado, mantinha Bill nos carris. Huma Mahmood Abedin é uma figura mais misteriosa. Nasceu em Michigan, filha de dois académicos muçulmanos nascidos na Índia e no Paquistão e com ligações ao Médio Oriente, ambos com cursos na universidade de Pensilvânia. O pai foi um especialista de Estudos Islâmicos, e de minorias islâmicas, até morrer. A mãe continuou o trabalho dele, é reitora e dá aulas numa universidade em Jeddah, na Arábia Saudita. Numa certa fase das eleição de Obama contra Mitt Romney, e de Obama contra Hillary antes disso, radicais do Tea Party tentaram a teoria da conspiração insinuando que Abedin era uma agente dos sauditas, com ligações a organizações terroristas pagas pela Arábia Saudita e à Irmandade Muçulmana. O argumento foi abandonado, tanto por causa das credenciais impecáveis de Abedin como pelo seu casamento com um judeu, Anthony Wiener, o candidato a mayor de Nova Iorque que foi apanhado a enviar imagens eróticas (ereções em cuecas) pelo Twitter. A reincidência dele levou Huma a anunciar publicamente a separação, para poupar a campanha de Hillary à maledicência e afastar os holofotes. Donald Trump, estranhamente, nunca usou o argumento anti-Abedin, sabendo que seria popular com os seus eleitores. Na direita Tea Party, Huma Abedin é vista como uma infiltrada na sede do poder americano e seguramente será alvo de campanhas de difamação no futuro. Diz-se que Hillary tem por ela afeto maternal, e que o facto de a história de Bill se repetir com Wiener as aproximou ainda mais. Abedin, uma presença discreta, sobreviveu ao escândalo dos e-mails do Departamento de Estado, onde era a interlocutora mais importante de Hillary. Muitos dos e-mails classificados utilizados por Hillary num servidor pessoal eram destinados a Abedin. Tornou-se viral a célebre troca de mensagens em que Huma ensina Hillary a usar um fax.

A ‘GUARDA PRETORIANA’

Além de Podesta e de Abedin, presidente e vice-presidente da campanha, existe um núcleo de íntimos que prepara e aconselha a candidata. São a sua ‘guarda pretoriana’ e ergueram entre ela e o mundo um escudo protetor. Nunca falam com os media, e nunca deixam Hillary ler o que se diz e escreve sobre ela. Alguns têm cargos na campanha e outros participam informalmente. Alguns trabalharam com Bill Clinton na Casa Branca, ou com Hillary quando ela teve a seu cargo a reforma da política de saúde, um dos seus fracassos, outros trabalharam com Hillary no Senado e no Departamento de Estado. Philippe Reines, conselheiro político quando ela era secretária de Estado, e cão de ataque, diz-se, é o homem apontado como futuro chefe de gabinete. O que leva à pergunta: e Abedin? Qual é o seu papel? Reines fez de Donald Trump na preparação para os debates, o papel mais prestigiado nessas sessões secretas em que o estilo speech and debate e o estilo dos litigantes profissionais foram adaptados ao discurso político. Afinal, Hillary foi advogada, licenciada pela universidade de Yale, e gosta de argumentar como o faria uma advogada. Jennifer Palmieri, diretora de comunicações, que vem da casa Branca de Clinton, 1994, é outra figura-chave. A ‘guarda pretoriana’ é de uma lealdade cega, e autora das instruções para as ordens menores sobre a forma de lidar com Hillary. Nada que possa prejudicar Hillary, ou banalizar, é autorizado. Quando a “Vogue” quis fazer capa com Hillary da primeira vez, a ‘guarda’ achou que a capa faria dela uma pin-up da moda. Recusou. Anna Wintour não gostou e não é pessoa que se deva querer como inimiga. Desde essa data, e desse erro, Hillary foi capa da “Vogue” duas vezes. E recebeu o endorsement da revista, que nunca tinha apoiado um candidato presidencial. Hillary precisa desse apoio, porque a “Vogue” também é representante do universo que dá a vitória nas urnas. O voto das mulheres. E Trump perdeu as mulheres...

Percurso. Há 24 anos, Hillary parecia demasiado grande para a pequena cadeira de escola onde se sentou para conversar com as crianças de Lincolnshire, Illinois.

Percurso. Há 24 anos, Hillary parecia demasiado grande para a pequena cadeira de escola onde se sentou para conversar com as crianças de Lincolnshire, Illinois.

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Os miúdos eram quase todos filhos de alunos — um dos temas que terá abordado, semanas depois, numa entrevista de rádio em Concord, no estado de New Hampshire.

Os miúdos eram quase todos filhos de alunos — um dos temas que terá abordado, semanas depois, numa entrevista de rádio em Concord, no estado de New Hampshire.

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Hillary era a primeira-dama, sempre presente ao lado de Bill, e era também a mãe de Chelsea.

Hillary era a primeira-dama, sempre presente ao lado de Bill, e era também a mãe de Chelsea.

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No Congresso, em 1993, defendeu a reforma do sistema de saúde...

No Congresso, em 1993, defendeu a reforma do sistema de saúde...

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...mas Hillary era ainda a mulher do Presidente

...mas Hillary era ainda a mulher do Presidente

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Cinco anos depois, o casal Clinton viajou para St. Thomas, nas Caraíbas, precisamente na altura em que é anunciada a publicação de um livro de memórias de Hillary — 28% dos americanos acreditavam, então, que a obra era o primeiro passo para uma futura candidatura presidencial. Não estavam errados

Cinco anos depois, o casal Clinton viajou para St. Thomas, nas Caraíbas, precisamente na altura em que é anunciada a publicação de um livro de memórias de Hillary — 28% dos americanos acreditavam, então, que a obra era o primeiro passo para uma futura candidatura presidencial. Não estavam errados

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Antes, a antiga primeira-dama foi secretária de Estado de Barack Obama e esteve presente em Lisboa, em 2010, para a XI Cimeira da Nato

Antes, a antiga primeira-dama foi secretária de Estado de Barack Obama e esteve presente em Lisboa, em 2010, para a XI Cimeira da Nato

ana baião

O ESTABLISHMENT

Uma campanha americana é muito diferente das campanhas europeias. Descontando a deselegância de Trump e os seus ataques sexistas e virulentos, existe nestas campanhas um elemento de alegria e de compromisso democrático que fazem com que milhares de voluntários se coloquem à disposição ou ofereçam jantares ou convívios a quem quiser acompanhar, por exemplo, o debate. São ações espontâneas, não vinculadas ou sancionadas pela campanha, ações de generosidade e empatia. A campanha publicita-as ou não. Fui ver o último debate a casa de uma destas voluntárias. Era um grupo seleto e fechado, não publicitado, de eleitores de Hillary, e consegui entrada por causa de uma pessoa que conhecia uma pessoa que conhecia uma pessoa. O encontro era na cidade alta, os uppers de Manhattan onde as boas residências são emblema do dinheiro e da respeitabilidade da elite. O grupo era constituído por mulheres, quase todas de meia idade, profissionais com rendimentos e estatuto. A casa tinha os sofás de riscas e as almofadas de seda do costume (pensem numa das casas dos filmes de Woody Allen), os quadros do costume (paisagens e retratos) e as fotografias familiares em cada plano não inclinado. Uma televisão gigante era o centro. Antes, cocktails servidos por empregados fardados, sanduíches e saladas saudavelmente corretas. Algures, a palavra quinoa foi pronunciada. E queijo feito à mão. Orgânico. Vinho de Napa Valley. Um jantar leve. As senhoras estavam bem vestidas, com o cabelo apanhado, de sapatos rasos. Os maridos não estavam, com exceção de dois, com roupas de fim de semana. Quão perigoso é o establishment? O que se interpõe entre os endinheirados e um tipo do mesmo mundo making America great again? São agentes do grande capital? São patriotas? Compreendem os motivos e ódios do basket of deplorables? Ninguém estava preparado para a violência dos debates anteriores. A meio deste, quando os insultos choviam e Trump voltava a ameaçar Hillary, a mulher ao meu lado, Grace — uma académica ansiosa, “Grace under pressure” disse eu, e ela respondeu que o Hemingway era tão machista como Trump — perguntou-me se precisava de outro cocktail. Para aguentar. Porque votava ela Hillary? “Não é óbvio? Você imagina este homem à solta com os códigos nucleares? Ouça, eu conhecia outro Trump. O Trump que eu conhecia era cauteloso e detestava fazer inimigos poderosos. Dava graxa aos políticos, convidava-os, dava-lhes dinheiro para as campanhas e projetos, nunca os hostilizava. Porque o império precisava disso. Este Trump arriscou tudo julgando que ia ganhar, que seria fácil ganhar contra uma mulher, ou esta mulher, e agora não aguenta a derrota. A política da terra queimada, do insulto e da ofensa vão prejudicá-lo mas ele não consegue conter-se. É um narcisista à solta e toda a gente sabe o que ele pensa das mulheres. Ser vencido por uma não estava nos seus planos. Você julga que ele usaria esta linguagem com um homem? Claro que não!”

Não estou assim tão certa, lembro-me de Trump contra os outros candidatos republicanos e não era diferente. Jeb Bush foi humilhado viciosamente.

Outra mulher, Barbara, que trabalha no sector financeiro, dá um grito. “Nasty woman? O que ele quer dizer é que ela é uma mulherzinha desagradável! Nasty woman? Pessoalmente, considero isto um elogio. Oh yes, she’s nasty. Tão mazinha que vai humilhá-lo. Eu também sou uma nasty woman e conheço o truque, sei o que me chamam quando os venço. Isto não é o pior de tudo. Ele não pode chamar-lhe velha, velha é o insulto preferido pelos machistas, mas um homem de 70 anos não pode vir acusar uma mulher de 68 de ser velha! Ele é um velho gordo e feio, é pena ela não poder dizer-lhe isso. Gordo, feio e velho! Asqueroso! O pior cabelo do mundo! A Melania tem que aturar aquilo!”

No dia seguinte ao debate, nasty woman tornou-se um hashtag. Imprimiu-se a T-shirt.

O DINHEIRO

Uns dias antes, apanhei um autocarro com voluntários da campanha para registar eleitores. Hillary for America. A primeira coisa que nos dizem quando nos aproximamos da gente da campanha é: quanto quer doar? O site abre justamente com esta janela, apontando quantias. This is America. Sou estrangeira, não posso doar, a lei impede-me. Felizmente. Não que a campanha necessite de mais doações, o saco das moedas de Hillary está bem cheio. O de Trump está esvaziado. Muitos milionários e bilionários republicanos decidiram apostar o seu dinheiro nela, porque desprezam Trump, que foi sempre levado mais a sério como personagem da televisão do que como empresário. De Warren Buffett a Bill Gates, passando por todos os nerds bilionários de Silicon Valley (com exceção de Peter Thiel), de Michael Bloomberg a Mark Cuban do “Shark Tank”, de Lloyd Blankfein da Goldman Sachs a todos os CEO de Wall Street, ninguém patrocinou Trump. Nem os irmãos Koch, acusados por Bernie Sanders de comprarem as eleições americanas. Com Trump ficou o homem dos casinos, Sheldon Adelson, uma personagem ainda mais odiosa do que o candidato. E, por baixo da mesa, nos superpacks, dinheiro republicano sem assinatura. Ninguém quer comprar uma guerra com os Clinton. Porque, e isto não fica claro nas televisões e no incessante papaguear dos comentadores ou na histeria das sondagens, o casal Clinton é considerado o casal mais formidável da política americana desde o casal Kennedy. Muito mais do que o casal Obama, apesar da boa reputação destes. Os Clinton são temidos, tão temidos como hostilizados e admirados, e não apenas por serem sobreviventes de todos os naufrágios. Por serem profissionais da política como os Estados Unidos nunca tiveram. Os Clinton, e o seu extenso exército de soldados e generais, têm um poder pessoal e político que excede largamente o dos cargos que ocupam, por acaso os mais altos cargos do país. As entradas na Wikipedia de um e de outro excedem em texto todas as outras. Os livros que escreveram, incluindo as autobiografias, venderam milhões de exemplares e as entradas no Google são superiores às de qualquer outra pessoa viva. O algoritmo vê-se grego para os apanhar. São estrelas rock. São monarcas. São uma dinastia de dois.

No autocarro, estrada fora, o ambiente é de festa. Canta-se vitória. A maior parte são cantoras, passageiras de Hillary for America. Estudantes e reformadas, mais reformadas do que estudantes. Nos millenials, Hillary não cativou as simpatias que Obama cativou, foi Bernie quem escolheram. Falo com uma das jovens, negra, que viaja com a mãe. Ela diz que gostava mais de Bernie, mas não é ele o candidato, é ela. “I’m With Her” é um dos motes da campanha. A estudante de música, numa escola de Harlem, admira Michelle Obama acima de tudo. “Para mim, para nós, afro-americanos, os Obama são the real deal. Michelle, ela é um exemplo. Tem classe.”

E Hillary? É a escolha do mal menor?

Uma das mulheres, dona de um negócio de cupcakes, queques com creme, salta-me em cima. “Mal menor? Qual mal menor? Estamos a olhar para a mulher mais bem preparada do mundo, estamos a olhar para a mulher que durante mais anos e com mais competência se preparou para ser presidente deste grande país, a que mais estudou, a que mais se bateu, a que mais experiência tem. Como é possível medir o currículo dela com o deste tipo? Como é possível que ele tenha tanta gente que acredita nas patranhas? Isso é que me deixa desconsolada. Que ela não esteja à frente por muitos mais pontos. A culpa é dos jornalistas.”

É verdade que, durante um ano, os jornalistas deram eco e expansão a cada vacuidade e disparate vindos de Trump, que teve mais cem vezes tempo de antena do que Hillary. Em 2015, passei um mês nos Estados Unidos, quando Trump apareceu a chamar nomes aos rivais, sobretudo Jeb Bush, e as televisões não o largavam. A CNN, obsessivamente, só falava de Trump. Os talk shows só entrevistavam Trump. As piadas (amáveis) só visavam Trump. As notícias também. Hillary não existia. Os media criaram uma base de apoio onde ela não existia. E que era desconhecida desses media.

THIS BITCH

Pensa-se que muitos dos eleitores de Trump, a sua base, são gente pobre ou desempregada devido à globalização e à revolução tecnológica, gente sem sofisticação intelectual, brutais e brutalizados, racistas, armados, desconfiados. White trash. Esta apreciação foi-me desmentida diversas vezes. “Os eleitores de Trump, ao contrário do que se diz por aí, não são os pobres, os pobres são negros e latinos, emigrantes, ilegais explorados. E uma pequena percentagem de brancos de trailer park, de inúteis e vagabundos. Os eleitores de Trump são classe média, com rendimentos anuais de mais de setenta mil dólares, com casas e empregos. Os eleitores de Trump são homens brancos que não querem ver uma mulher presidente. Como não queriam um negro presidente. São racistas e viciados em televisão e celebridades.” Rush Limbaugh, o radialista mais reacionário da América, disse no programa dele que a América não podia sujeitar-se a ver uma mulher feia a envelhecer à sua frente todos os dias.

Bill Maher, o comediante mais inteligente e mais aguerrido dos talk shows, podia dizer o mesmo no HBO, sobre Trump. O seu show tornou-se o lugar onde era possível desmontar e ridicularizar Donald sem mordaças. Simetricamente. Divertidamente. Inteligentemente. Asperamente. A verve de Maher e dos convidados é de tal ordem que nem Trump, o rei do Twitter, se mete com ele. Para Maher, a melhor frase de Hillary é “basket of deplorables”. Porque quem age e pensa deploravelmente é deplorável. As piadas de Maher, no solilóquio, atingem Trump com dureza. E quando aparecem imagens das T-shirts contra Hillary nos comícios de Trump — Life Is a Bitch Don’t Elect One, Hillary For Prison, This Bitch Is Bat Shit Crazy, Dumber and Dumber (caras de Hillary e Obama), She’s A Cunt Vote For Trump, I Wish She Had Married OJ —, Maher começa a distribuir T-shirts anti-Trump com uma pistola gigante. “Quando eles disparam para baixo devemos ir para cima mas só para a semana. Esta semana vou ainda mais para baixo. Tenho aqui umas T-shirts.” Uma tem um chimpanzé que diz Donald é meu filho mas mesmo assim voto Hillary. Outros exemplos: Orange Is The New FuckFace. Trump 2016, I’m With Herpes. Vote Trump, Stop Grabbing My Pussy And We’ll Talk, I Tried to Grab Donald Penis But Couldn’t Find It. Foi a melhor resposta à misoginia dos eleitores de Trump, os que desejavam que ela tivesse casado com O.J. Simpson.

SEXUAL POLITICS

Nas fotografias dos comícios, os ditos são todos homens brancos, encorpados, relativamente jovens. Algumas mulheres também as usaram.

Uma eleição americana nunca chafurdou neste lamaçal. Não se pode iludir que as políticas sexistas ou sexuais são responsáveis por tanta violência. Hillary tem sido insultada e condenada em função do seu sexo, nenhuma dúvida quanto a isso. O que se trata não é de apontar as suas faltas políticas ou públicas, a votação pela invasão do Iraque, a intervenção na Líbia, o atentado de Bengasi e a mal contada história dos e-mails do Departamento de Estado. O que se trata é de a denegrir por ser mulher. Mais intolerável do que eleger um negro, para certos eleitores, é eleger uma mulher. Uma das camisetas anti-Hillary diz “Homos for Hillary”, dando a entender que é de sexual politics que estamos a falar. Só um maricas, a pussy, para os deploráveis eleitores, vota numa mulher. A luta continua, e continuará.

Claro que Hillary está habituada a ser humilhada perante uma plateia de milhões de pessoas. A longa caminhada pelo relvado da Casa Branca até ao helicóptero (Bill de um lado, ela do outro, Chelsea no meio), quando o marido foi impugnado pela Câmara dos Representantes por causa do escândalo Monica Lewinski e apanhado a mentir (“I did not have sexual relations with that woman”), terá sido mais dolorosa do que esta longa caminhada que a poderá levar à Casa Branca. E nem vale a pena mencionar o processo Paula Jones (convidada por Trump para um dos debates) e os incontáveis mexericos e intrigas. Bill tem uma cauda de casos extraconjugais que todos pisam. No eleitorado de Hillary, este casamento e o modo como Hillary nunca se viu livre de Bill causa por vezes incómodo, sobretudo nas feministas clássicas. Gloria Steinem apoia Hillary mas é um apoio ténue, mal verbalizado. O que os mantém juntos? Ou manteve, agora que Bill parece mais acalmado. Para uns, Hillary é Lady Macbeth, disposta a tudo para alcançar o trono. Para outros, o casamento é um caso de estranho amor, e diz-se que ele depende mais dela do que ela dele e que sem ela ele nunca teria sido ninguém por má cabeça e más escolhas ou impulsos descontrolados. E uma moral elástica.

No autocarro, a caminho de Filadélfia, uma das mulheres diz mais ou menos isto, entre marido e mulher ninguém meta a colher. “Parece-me evidente que gostam um do outro, que se respeitam mutuamente, e que dependem um do outro. Alguém conhece aquela fotografia dos dois a dançar? Está lá tudo. Um casamento é isto. Nem todos os homens são como Obama. A maioria é como Bill, um safado. Quem não teve de engolir uma história do marido com a estagiária? Give me a break.” Não é um propósito muito feminista, contraponho. “O amor não é feminista. Eu acho que eles estão apaixonados, acho mesmo que quem manda é ela, e isso para mim chega. O outro é igual, a apalpar as mulheres todas. por amor de Deus! Ver Trump armado em santo é demais.” E, de repente, todo o autocarro se mobilizou para esta discussão sobre os enigmas do dueto Bill e Hillary. Na verdade, a única coisa que não parece interessar os eleitores nestas eleições, e os media, é a política. Tornou-se uma discussão de personalidades e não de políticas, porque Donald Trump não as tem ou tem dificuldade em articulá-las além de frases como “vou baixar os impostos”, “vou vencer o ISIS”, “vou construir um muro”, “vou banir a entrada dos muçulmanos”, “vou rasgar os tratados”, “vou fazer a América grande outra vez”. Quanto ao comentário às políticas de Obama ou de Hillary a frase é só uma: “É um desastre.”

A MAÇADORA HILLARY

Na sede de Brooklyn, dizem-me que a ausência de discussão política desespera Hillary. O facto de não conseguir discutir política ou de as suas políticas não estarem a ser discutidas, deixa-a furiosa e o seu staff teve de a convencer a não sobrecarregar as intervenções com programas específicos porque ninguém ia querer ouvir. A maçadora Hillary. “As pessoas querem luta corpo a corpo, querem ver sangue, querem que Hillary chame nomes a Trump em vez de se deixar chamar nomes por ele. E isto é o contrário do que ela acha que deve ser uma campanha. Ele vem dos tabloides, é uma celebridade nas redes sociais e na web, e manipula esse culto de personalidade. Ela é uma elitista, educada nas melhores escolas, habituada a argumentar assuntos. Este tipo de campanha é-lhe estranho. Teve de ser reeducada. Ou ninguém a ouviria.”

“No princípio, quando toda a gente dizia que Trump ia ganhar as eleições, antes dos debates, Hillary falava de política, o Affordable Care Act, ou a situação na Síria, ou a educação universitária, ou a regulação de Wall Street, ou a política de prestações sociais, ou os acordos de livre comércio, e ninguém prestava atenção. Ninguém. As pessoas, e sobretudo a comunicação social, que são como tubarões à procura de comida, só lhe deram crédito quando ela levou Trump ao tapete. Quando ela lhe deu na tromba. Dizem que ela não devia ter ido por aí, mas se ela não fosse por aí estava morta. O outro fazia dela gato-sapato. Ao primeiro soco, percebeu com quem se estava a meter. Desatou a fungar desesperado, todo nervoso. Nunca ninguém o tinha visto assim. Ela é como Muhammad Ali, the champ. Ela é the champ. Nisto, política, o Donald é um amador. Um novato. Acho que ela acabou por se habituar a levar e dar. E é apenas o princípio. A guerra a sério começa depois de ganhar as eleições. Ele vai montar alguma. Está encurralado, é capaz de tudo. Não vai querer voltar aos concursos de misses. Vai entrar em parafuso. Estaremos aqui.”

A FAVORITA DOS PROFESSORES

A educação de Hillary foi esmerada. Nasceu a 26 de outubro de 1947, em Chicago, e cresceu numa casa confortável dos subúrbios, com os pais. O pai tinha um pequeno negócio bem-sucedido de têxteis e a mãe, Dorothy, era uma dona de casa que disciplinava e educava os filhos. Hillary tem dois irmãos mais novos. A família, metodista, descendia de ingleses, galeses e escoceses com uma mistura de franceses e canadianos por parte da mãe. Na escola primária, Hillary distinguiu-se logo, era a favorita dos professores. O seu ativismo político e social começa aí e continua pelo secundário até à matrícula no colégio Wellesley. O pai era um anticomunista ferrenho e a primeira educação política de Hillary é conservadora, de matriz republicana. Os seus iniciadores e mentores políticos são, mais do que os pais, os professores. Através de um deles conhece Martin Luther King Jr. Ao ler a autobiografia, a primeira, “Living History”, mais interessante do que “Hard Choices” e com um avanço recebido de oito milhões de dólares, ficamos com a certeza de que a família Rodham não se caracterizava pela expressão de emoções e sim pelas tarefas árduas. No verão, no intervalo das aulas, Hillary arranjava empregos e passou um verão a andarilhar o Alasca, a lavar pratos e a trabalhar numa fábrica de peixe a fatiar salmão. Nunca houve na sua vida um instante de puro lazer. Cada minuto é dedicado a uma tarefa ou a uma causa, o que faz dela uma trabalhadora incansável e cansativa para os que a rodeiam. Ao contrário de Bill, que aprecia a conversa pela conversa, a digressão intelectual, Hillary vai direta ao assunto e só diz o que é necessário.

De Wellesley, onde planeou uma greve estudantil e lutou pelos direitos dos estudantes negros, a seguir ao assassínio de Luther King, Hillary passou para Yale, onde continuou a ser ativa, tanto nos jornais universitários como nas associações de estudantes e agremiações políticas. Em Yale, na primavera de 1971, conheceu Bill Clinton, outro estudante de Direito, mais liberal do que ela. Os dois desmultiplicavam-se em iniciativas comunitárias, redação de artigos e trabalho político e social. Hillary começa a escrever sobre crianças, problemas legais e jurídicos das crianças, sobretudo desfavorecidas e consolida-se a sua mudança para os democratas. Descreveu-se a si mesma como uma conservadora na cabeça e uma liberal no coração e é possível que ainda hoje a definição lhe assente como uma luva. Bill pede-a em casamento mas ela diz não, receosa que ele atrapalhe a carreira profissional. Um tempo antes, ele acompanhara-a a estagiar na Califórnia numa firma de advogados conhecidos por apadrinharem causas radicais, e suspendera os estudos por causa disso. Quando Bill regressa ao Arkansas, volta a pedi-la em casamento e ela acaba por decidir acompanhá-lo depois de falhar o exame à ordem em Washington, e de passar no do Arkansas.

OS BOLINHOS E OS CHÁS

Na capital, havia quem visse nela uma política com futuro, e os seus artigos jurídicos começavam a ser citados. Deixa a capital e instala-se em Fayetteville, ela diz que foi por amor, a dar aulas na faculdade de Direito, e começa a interessar-se pelos direitos das mulheres, sobretudo casos de violação e abuso sexual. Em outubro de 1975, casa com Bill numa cerimónia metodista. E anuncia que o seu nome continuará a ser Hillary Rodham em vez de Hillary Clinton. Mais tarde, foi obrigada a rever a posição. Quando Clinton consegue ser procurador-geral do Arkansas, mudam-se para Little Rock. Aqui, Hillary entra na mais conceituada firma de advogados do estado, a Rose Law Firm. Em breve, ganha mais do que marido, e no futuro essa será uma das primeiras acusações que lhe imputam. Vem daí, num programa de rádio, a célebre frase, talvez eu devesse ter ficado em casa a fazer bolos e a a servir chás. Foi crucificada por ter dito isto, já Bill era governador do Arkansas. A reputação de ser uma mulher ávida de dinheiro vem destes tempos em que era uma advogada bem paga, a que se seguiram o escândalo Whitewater e o suicídio de Vince Foster. Essa reputação descambaria numa acusação, a voracidade por discursos milionários pagos pelos banqueiros de Wall Street, uma acusação que se lhe colou à pele. Diz-se que Hillary, pessoalmente, não liga ao dinheiro. Nem à moda. Nem aos obscuros objetos do desejo. Liga ao poder. À independência que o dinheiro dá. O que a assustou foi a destituição da família, sobretudo da filha. Quando saíram da Casa Branca ela e Bill estavam arruinados financeiramente e tinham milhões de faturas legais para pagar. O circuito de conferências foi a salvação. E mesmo assim, segundo uma velha amiga de Hillary, a cantora Barbra Streisand, “ela cobrou menos do que qualquer homem pelo mesmo trabalho”. Na campanha, uma das coordenadoras disse-me que a história dos e-mails destruídos do servidor pessoal também tinha a ver com isto. A proteção da família, o marido, a filha. “Eram sobretudo e-mails pessoais, familiares, e ela quis proteger a privacidade. Não havia nada de classificado a ser passado fora das normas. Quando ela foi para secretária de Estado foi aconselhada por gente de dentro a estabelecer um endereço com um servidor pessoal, visto que o servidor do Departamento era pirateado. Ela fez o que outros tinham feito. Depois enforcaram-na por causa disso. Os mesmos que a aconselharam. A política é suja. Obrigaram-na a pedir desculpa. E viu-se, quanto aos hackers. A WikiLeaks e os russos fazem o que querem dos servidores oficiais. Hoje, ela não comunica por e-mail. Para quê? Tudo aparece nos jornais no dia seguinte... Putin faz o que quer nestas eleições e ninguém aparece a fazer-lhe frente. Putin detesta Hillary porque ela lhe fez frente e, nota-se, por razões de género. Outro macho que não gosta que uma mulher lhe fale grosso.”

A ANEDOTA

Um dos rumores dos tempos de Little Rock, na primeira campanha presidencial de Bill Clinton, era que ele tinha medo de Hillary. E só tinha medo de Hillary. Quando Monica apareceu em cena, comenta-se que Hillary lhe atirou um livro pesado à cabeça, num ataque de fúria, e que ele fugiu como um coelho assustado. Parece que era uma Bíblia. E nesta sucessão de episódios cómicos ou trágicos, que apagam as proposições sérias e o bom desempenho político e institucional, joga-se o futuro de Hillary Rodham Clinton como presidente. Madam President. Ela corre o risco de, por cada gesto político ou cada gesto de autoridade, ser minada pela anedota ou o passado anedótico. Se a campanha de Donald Trump teve uma estratégia foi esta. Trazer para a ribalta os casos e as mulheres alegadamente violadas ou molestadas pelo marido, trazer o caso dos e-mails como se fosse uma fraude criminal gigantesca, trazer Bengasi como se tivesse sido ela a autora do atentado que matou o embaixador. Hillary Clinton tomou decisões políticas erradas (como tantos outros) e tem, no que respeita à revelação da verdade, um secretismo e uma obsessão do secretismo que são um alto contraste com as maneiras mais descontraídas de Barack Obama. Obama que, na fase final, parece por vezes mais furioso com Trump do que Hillary. Mais descontrolado. E não apenas por causa da proteção do seu legado. Trump é tudo o que repugna Obama.

Na campanha, fazer a candidata sair da concha foi difícil, e só quando ela ganhou os debates se permitiu começar a sorrir sem franzir a cara. Os debates foram violentos mas mudaram a perceção; e na política americana só duas coisas contam. Perceção e dados. Metrics e optics. A mulher que jogava à defesa passou ao ataque e se uma coisa os americanos não suportam é jogo defensivo. Desde as primeiras infidelidades de Bill, em que ela se treinou para enfrentar a desumanização dos tabloides, a reserva é a sua arma. A mesma reserva que faz perder eleições e que lhe fez perder a nomeação para um Barack Obama bem-humorado e que não se importa de ir aos talk shows fazer piadas. No famoso jantar de caridade católica, ao lado do cardeal de Nova Iorque, em que Trump a acusou de ser corrupta (e foi vaiado), Clinton manteve a compostura e conseguiu responder com outras piadas. As piadas escritas pelo seu pessoal. Há uns meses, não o teria conseguido fazer. O humor autodeprecatório não é a sua especialidade. Nem a postura de comediante. Quem a conhece melhor sabe que a figura que mais admira, a que tentou sempre emular, é a de Eleanor Roosevelt, uma mulher séria. Eleanor viveu num tempo em que a informação não circulava à velocidade da luz e a privacidade era valorizada. Hillary está farta da interminável campanha e prefere tudo menos continuar a fazer parte do que considera uma fantochada política montada pelo adversário. De ser personagem de um circo que não é seu. Uma mulher que conhece por dentro o círculo íntimo, disse-me que ela espera ansiosamente o dia do julgamento final dos eleitores. Para começar a governar. Para poder aplicar o seu programa, de que ninguém quis falar. “Ela tem um extenso programa de recuperação económica, na senda de Obama, de políticas energéticas contra o aquecimento global, de que ninguém falou, de programas de direitos humanos, de política de emigração, de política educacional, de política financeira, das nomeações para o Supremo, dos direitos das mulheres, da política de saúde, que precisa de corretores. Ela conhece melhor do que ninguém a política da saúde. Ninguém quis saber disto. E ainda há jornalistas que perguntam qual é o programa de Hillary? Vão lê-lo, que diabo! Em vez de andarem a correr atrás de Trump e da suas imbecilidades.”

O ADVERSÁRIO

Hillary merecia um oponente melhor? Merecia. Mas qualquer adversário, por mau que seja, encerra uma lição. Trump arrastou consigo vozes dissonantes e descontentes que existem dentro da América, e que terão de ser ouvidas no tempo da democracia cibernética. Ou para serem neutralizadas ou para serem compreendidas. Nos Estados Unidos, encontramos hoje a gente mais esperta e a mais estúpida do planeta. A maior acumulação de conhecimento a par com a maior ignorância do mundo. Entre um génio de Silicon Valley que quer construir um futuro regulado pela inteligência artificial (a Google está a construir um super-robô que dará cabo de toda a concorrência) ou colonizar Marte (Elon Musk) e um mineiro desempregado de um estado depauperado vai uma distância inultrapassável. A maior desigualdade não é entre os que têm e os que nada têm. É entre os que sabem tudo e os que nada sabem. E esta desigualdade, de que Trump é uma espécie de símbolo na sua ignorância, ameaça o futuro com as suas tribos de vândalos. Ameaça a democracia americana, que se julgava imbatível na superioridade do desenho dos Founding Fathers. Esta campanha demonstrou que a política mudou para sempre. Não apenas por Hillary Clinton poder ser a primeira mulher na Casa Branca. Madam President. Por ser a primeira candidata deste tempo novo em que as velhas instituições, incluindo a civilidade, foram destruídas pelos trolls. E as redes sociais se tornaram uma arma de destruição maciça.

Hillary Clinton fez esta semana 69 anos. A campanha cantou-lhe os parabéns. O presente deve vir em novembro.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 29 de outubro de 2016