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Pensilvânia. “Sanders e Trump são as duas faces de uma mesma moeda. As pessoas estão zangadas e querem uma mudança drástica”

INDÚSTRIA. A United States Steel Edgar Thompson Works, em Braddock, Pensilvânia, uma das poucas fábricas de siderurgia que ainda operam no estado

DOMINICK REUTER / AFP

Joe é cozinheiro num hospital universitário de Pittsburgh e apoiante de Hillary Clinton, mas este sindicalista é uma raridade. A tradicionalmente democrata Pensilvânia pode bem ser ganha por Trump, graças ao apoio da classe trabalhadora branca a que Joe pertence

Cátia Bruno

Cátia Bruno

Jornalista

Este texto é o sétimo de uma série que o Expresso está a publicar sobre os swing states (estados imprevisíveis e decisivos na eleição). Para ilustrar cada um dos nove estados, escolhemos um tema que marca a região − e o país − e um entrevistado para nos falar sobre ele

Granville Kennedy trabalha como cozinheiro na cantina do hospital universitário de Pittsburgh, Pensilvânia, há sete anos. Serve centenas de pessoas por dia, naquele que é um dos maiores refeitórios da zona leste do país, em troca de um baixo salário. O regresso ao mercado de trabalho deu-se depois de anos em casa, a tomar conta dos filhos, quando o salário da sua mulher chegava para sustentar toda a família. Mas em 1999, a revolução tecnológica atingiu os Kennedy: a empresa da esposa deste líder sindical começou a ter problemas e acabou por despedi-la. Joe (como é conhecido desde criança, para fugir ao peso de um nome como Granville) foi à procura de trabalho. “Agora é mais fácil, porque os meus filhos já estão crescidos e na faculdade, e vamo-nos aguentando. Mas é muito, muito difícil fazer face às despesas”, confessa, largando um suspiro.

Revoltado com o que considera ser um sistema de “escravatura de baixos salários” promovido por grandes empresas como a sua − o Centro Médico da Universidade de Pittsburgh é o maior empregador da cidade −, Joe não demorou muito a juntar-se a um sindicato, o SEIU (sigla para Sindicato Internacional de Empregados dos Serviços, no original). Antigo bastião da indústria siderúrgica, Pittsburgh, à semelhança do resto da Pensilvânia, foi esventrada com o desaparecimento das antigas fábricas. “As pessoas simplesmente deixaram a cidade. O nosso presidente da câmara costuma dizer que é como se tivéssemos sofrido um desastre como o furacão Katrina, mas sem recebermos qualquer ajuda. Só agora é que estamos a recuperar”, analisa Joe ao Expresso.

SINDICALISMO. Envolvido nas lutas sindicais há cinco anos, este cozinheiro tem defendido com unhas e dentes o aumento do salário mínimo para 15 dólares à hora

SINDICALISMO. Envolvido nas lutas sindicais há cinco anos, este cozinheiro tem defendido com unhas e dentes o aumento do salário mínimo para 15 dólares à hora

d.r.

Pittsburgh tem reagido à crise económica local adaptando a sua economia para assentar sobretudo no sector terciário (80% dos empregos da cidade são serviços), o que já lhe valeu a alcunha de economia “Eds and Meds” (educação e saúde). O problema é a precariedade dos empregos daqueles que asseguram o dia-a-dia de escolas, hospitais e restaurantes, servindo refeições e limpando instalações, como Joe.

No resto do estado, o cenário é ainda mais desolador: com o declínio de indústrias como a do carvão, o desemprego e a desertificação têm tomado conta de muitas cidades. Não é por isso de admirar que um antigo presidente de câmara de Harrisburg, o democrata Stephen R. Reed, tenha feito o aviso a Hillary Clinton: “O foco em estados como a Pensilvânia e o Ohio tem de ser a economia. Criação de emprego, aumento do salário mínimo. Eu, francamente, deixaria os outros temas de lado.”

Pittsburgh − “Pennsyltucky” − Filadélfia

Apesar de tradicionalmente ser um estado democrata, a Pensilvânia tem sido uma das regiões onde Donald Trump tem conquistado alguns dos seus eleitores mais fiéis, sobretudo entre a classe trabalhadora branca. A maioria está concentrada na zona ocidental no estado, nas antigas regiões de carvão da Appalachia, onde se incluem também partes do Ohio e da Virgínia Ocidental. No entanto, o apoio a Trump estende-se a antigas cidades industriais mais a leste, como Reading, Scranton ou Harrisburg. São uma parte significativa do chamado Rust Belt, o cinturão industrial norte-americano, cujo declínio económico se tem feito sentir.

READING Uma loja de artigos em segunda mão chamada “Hope Outlet” (Loja da Esperança) em Reading, a cidade com maior pobreza de todos os Estados Unidos, localizada na Pensilvânia

READING Uma loja de artigos em segunda mão chamada “Hope Outlet” (Loja da Esperança) em Reading, a cidade com maior pobreza de todos os Estados Unidos, localizada na Pensilvânia

SPENCER PLATT / GETTY IMAGES

Os tempos dourados em que um emprego numa mina de carvão garantia um salário estável de 70 mil dólares anuais ficaram para trás. No presente, as comunidades industriais da Pensilvânia são na maioria locais desabitados, sem o dinamismo económico e social de outrora. É o caso de Reading, a cidade com a maior taxa de pobreza do país (40%), onde o desemprego ultrapassa os 7%. Em maio, a revista “Atlantic” traçava-lhe o retrato, semelhante ao de tantas outras cidades do Rust Belt: “Houve uma altura em que Reading era uma das cidades mais prósperas da América, graças ao começo da Revolução Industrial. Fábricas de aço e de têxteis instalaram-se aqui e trouxeram uma era de prosperidade para a cidade. Durante o pico [económico] de Reading, nos anos 30, mais de 110 mil pessoas viveram aqui. Nas décadas seguintes, Reading perdeu quase metade da sua população, à medida que as fábricas se deslocaram e a procura pelo carvão diminuiu.”

O fenómeno torna a Pensilvânia um estado a duas velocidades nesta eleição: “É como se tivéssemos numa ponta do estado Filadélfia, na outra Pittsburgh e no meio o Kentucky”, ilustra Joe, numa referência ao termo pejorativo “Pennsyltucky”, usado para descrever as zonas rurais do estado. Se é certo que as duas grandes metrópoles, Filadélfia e Pittsburgh, são território quase impossível para Donald Trump, o mesmo não se pode dizer de “Pennsyltucky”.

O candidato republicano encontra nesta região o tipo de eleitores que lhe são mais favoráveis: mais velhos, brancos e com pouco estudos. Afinal de contas, a Pensilvânia é o sexto estado com a maior média de idades do país (40,7 anos) e uma das regiões com menos minorias étnicas − 83% dos eleitores são caucasianos. Como se não bastasse, a Pensilvânia é terreno fértil para o discurso económico de Trump. As críticas aos acordos comerciais como o NAFTA (que ajudaram à deslocalização das fábricas para fora do país) e as acusações de que os números do desemprego avançados pelo Governo não correspondem à realidade, são música para os ouvidos destes eleitores, o rosto de uma América isolada e desamparada. Já para não falar das promessas de Trump de que trará os empregos industriais, antiga coluna vertebral da região, de volta para os EUA. Essa, contudo, pode ser apenas uma matéria de fé.

Eleitores brancos zangados

Hillary Clinton deu um tiro no pé junto das classes trabalhadoras brancas da Appalachia ao declarar em março que irá “falir muitas minas de carvão”, em referência à sua aposta nas energias renováveis. É certo que a candidata democrata tem um programa de requalificação para a maioria dos trabalhadores industriais, a fim de atenuar os efeitos dessa mudança, mas o comentário ofendeu profundamente muitos dos trabalhadores da área e levou a que Clinton se retratasse e pedisse desculpa mais tarde.

RAIVA. Os eleitores brancos de classe trabalhadora são uma das bolsas de apoio mais fortes de Trump em zonas como a Pensilvânia. O declínio dos salários e a falta de emprego são o combustível da indignação

RAIVA. Os eleitores brancos de classe trabalhadora são uma das bolsas de apoio mais fortes de Trump em zonas como a Pensilvânia. O declínio dos salários e a falta de emprego são o combustível da indignação

MARK MAKELA / GETTY IMAGES

Por outro lado, Donald Trump não tem grande margem de manobra para poder levar a cabo o que promete. Como explicava o site Vox em agosto, Trump pode revogar as políticas de regulação de poluição que afetam a indústria do carvão, mas pouco mais. Donald Trump não só garante que não acabará com o investimento na exploração de gás natural, como reforçará essa aposta − o que garantidamente deixará a indústria do carvão em pior estado, já que são concorrentes diretas.

Noutras indústrias como a do aço, a deslocalização para países como a China torna tudo mais complicado. Para Joe, as propostas de Trump não passam de uma utopia: “As empresas não vão passar a funcionar com prejuízo só porque ele quer trazer empregos de volta.” Donald Trump que o diga: a revista “Newsweek” revelou no início de outubro que Trump utilizou aço fabricado na China para a maior parte dos seus empreendimentos, devido ao seu preço mais baixo.

Joe, ele próprio um antigo apoiante de Bernie Sanders, compreende a desolação de muitos destes eleitores relativamente aos fatores económicos, mas discorda da receita. “Estas pessoas estão a reagir de forma emocional. Penso que as campanhas de Sanders e Trump são as duas faces de uma mesma moeda. As pessoas estão zangadas e querem uma mudança drástica”, explica. Contudo, para este sindicalista de 55 anos, há outros elementos mais perigosos à mistura: “Temem a perda de poder que pode vir com as mudanças demográficas que estão a acontecer no país. O homem branco já não será maioritário daqui a uns 10 ou 15 anos e, para não terem medo, estes eleitores procuram um homem forte.”

TRUMP. O apoio ao candidato republicano nas zonas rurais do estado pode não ser suficiente para contrariar o forte apoio democrata de zonas urbanas como Pittsburgh e Filadélfia

TRUMP. O apoio ao candidato republicano nas zonas rurais do estado pode não ser suficiente para contrariar o forte apoio democrata de zonas urbanas como Pittsburgh e Filadélfia

MARK MAKELA / GETTY IMAGES

Poderá o descontentamento que sustenta muitos destes membros da classe operária ser suficiente para entregar a Pensilvânia aos republicanos pela primeira vez em 28 anos? É difícil dizer. Clinton aposta tudo no apoio que reúne nas grandes cidades e nos subúrbios, que compõem grande parte do voto do estado, e onde a candidata democrata está como peixe na água. “Contas feitas, penso que não há eleitores brancos e zangados suficientes na Pensilvânia para compensar o facto de que Trump está a motivar as bases democratas”, admitiu um dos estrategas republicanos do estado, Christopher Nicholas, em maio.

A unanimidade em torno da antiga primeira-dama em Pittsburgh é tão grande que Joe só conhece uma pessoa que irá votar em Trump no dia oito de novembro. No dia da eleição, este cozinheiro e antigo apoiante de Sanders irá dar o seu voto a Clinton, convictamente. Mas quando pega no carro para ir visitar um dos seus filhos à universidade em Johnstown, Joe atravessa muitos dos pequenos centros industriais em declínio, vê os cartazes pró-Trump afixados por toda a parte e não consegue deixar de se interrogar: irá a Pensilvânia manter-se democrata?

PENSILVÂNIA

Média das sondagens
47% Hillary Clinton
41% Donald Trump
4% Gary Johnson

Histórico eleições presidenciais (desde 1984)
1984: Ronald Reagan (Republicano)
1988: George H. W. Bush (Republicano)
1992: Bill Clinton (Democrata)
1996: Bill Clinton (Democrata)
2000: Al Gore (Democrata)
2004: John Kerry (Democrata)
2008: Barack Obama (Democrata)
2012: Barack Obama (Democrata)