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Líderes e deputados do partido liberal pró-curdo HDP detidos na Turquia

Getty Images

Selahattin Demirtas e Figen Yuksekdag foram levados das suas casas ao início da madrugada desta sexta-feira, a par de outros nove membros do jovem partido de esquerda que representa as minorias ostracizadas pelo governo de Erdogan e que chegou a roubar a maioria parlamentar ao AKP do Presidente em junho do ano passado

Os dois fundadores e líderes do Partido Democrático do Povo (HDP), oposição de esquerda liberal e pró-curda, que há pouco mais de um ano chegou a roubar a maioria parlamentar ao Partido do Desenvolvimento e da Justiça (AKP) do Presidente Recep Tayyip Erdogan, foram detidos na madrugada desta sexta-feira.

De acordo com uma notícia avançada pela agência estatal Anadolu, Selahattin Demirtas e Figen Yuksekdag foram levados das suas respetivas casas pelas autoridades, a par de outros nove deputados do jovem partido nascido em 2012, no âmbito de uma "investigação antiterrorismo".

Logo após as detenções, foram detetados problemas no acesso a populares sites de redes sociais como o Twitter e o Facebook e a aplicações de comunicação encriptada como o Whatsapp dentro do território turco, até para os que tentaram aceder-lhes através de redes privadas virtuais (VPN), que permitem contornar restrições impostas à navegação online. Demirtas ainda conseguiu publicar um tweet sobre a sua detenção antes de os sites terem ido abaixo.

Um outro deputado do HDP, atualmente no estrangeiro, disse à BBC que as detenções são "totalmente ilegais", possibilitadas apenas pelos decretos de emergência aprovados pela maioria do Governo no rescaldo do golpe de Estado falhado de 15 de julho. "A repressão desta noite não tem nada a ver com direito processual, direito criminal ou qualquer lei incluída na Constituição. Isto é um rapto ilegal de parlamentares do HDP", disse Ertugrul Kurkcu. "O governo turco está a tornar-se uma ditadura de estilo nazi. Irá o governo turco respeitar os padrões de democracia parlamentar aceites internacionalmente? É essa a grande questão."

Há uma semana e meia, os vice-autarcas de uma das principais cidades de maioria curda, Gultan Kisanak e Firat Anli, foram levados pela polícia também no âmbito de uma investigação a alegadas atividades terroristas. A cidade em questão, Diyabakir, no sudeste da Turquia, onde Demirtas foi detido na noite de quinta para esta sexta, foi palco de uma enorme explosão que provocou dezenas de mortos, horas depois das detenções dos dois líderes do HDP.

De acordo com a agência estatal, a polícia turca fez buscas às sedes do partido da oposição no centro de Ancara, sob renovadas acusações de ligações entre o HDP e o ilegalizado Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), um grupo militante que defende a autodeterminação do povo curdo através da luta armada. Apesar de pró-curdo, o HDP desmente categoricamente qualquer relação com o PKK — tido como uma organização terrorista pela Turquia, os Estados Unidos e a União Europeia.

Desde o golpe falhado em meados de julho, mais de 100 mil funcionários públicos foram despedidos dos seus empregos por alegadas ligações a Fetthulah Gulen, clérigo turco e antigo aliado de Erdogan tornado seu rival, que vive exilado nos Estados Unidos desde 1999. A par disto, milhares de pessoas foram presas desde esse mês no que a Human Rights Watch denunciou esta semana ser um "cheque em branco" passado pelo governo turco às autoridades do país para deterem e torturarem pessoas. Na segunda-feira, a polícia turca deteve o diretor do mais antigo jornal secular da Turquia também por alegadas ligações ao clérigo exilado e encerrou mais 15 meios de comunicação.

O HDP entrou no Parlamento turco pela primeira vez em 2015, quando obteve 59 assentos nas eleições de junho, tornando-se na terceira força política da Turquia e roubando a maioria detida até então pelo AKP do Presidente. Perante o impasse político gerado, Erdogan convocou eleições antecipadas para o início de novembro, há precisamente um ano, um plebiscito envolto em inúmeras acusações de fraude que voltou a dar a maioria ao AKP.

Depois de uma multidão ter atacado a sede do HDP em Ancara no rescaldo das eleições de junho do ano passado, Demirtas acusou o partido no poder de orquestrar ataques nacionalistas como forma de controlar os seus críticos. Tradicionalmente, os deputados turcos têm imunidade parlamentar que os protege de acusações criminais salvo em casos excecionais, mas no início deste ano o Governo removeu a imunidade de todos os deputados eleitos do partido da oposição.