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Internacional

Compra de armas em crescendo a poucos dias das eleições

John Moore / Getty

Vendedores dizem que muitos defensores da venda livre de armas de fogo ao público temem uma vitória de Hillary Clinton e a consequente aprovação de mais restrições à posse de armas. A apenas quatro dias do fim da corrida à Casa Branca, a democrata e o rival republicano estão numa disputa renhida

Faltam quatro dias para o fim da corrida à Casa Branca e o ambiente nos Estados Unidos está a extremar-se. Nas últimas semanas, foram surgindo notícias sobre nacionalistas, neonazis e outros grupos radicais de direita que têm estado a intimidar eleitores democratas nas urnas e que terão grandes planos para a "observação voluntária eleitoral" na próxima terça-feira, 8 de novembro, dia das eleições, depois de Donald Trump ter apostado numa retórica sobre alegada fraude eleitoral em massa que está a deixar muitos analistas receosos com a possibilidade de episódios de violência caso Hillary Clinton vença. Agora surgem relatos sobre o aumento exponencial da venda de armas de fogo por muitos americanos que temem que a potencial vitória de Hillary Clinton se traduza em mais restrições à posse de armamento.

Numa reportagem publicada esta sexta-feira, a Al-Jazeera cita como exemplo Miranda Evans, dona de um bazar de armas no Mississipi, uma das várias do país que assume que muitos seus clientes estão preocupados com a possibilidade de a democrata vencer as eleições e com as consequências da sua eleição.

Durante a campanha presidencial, a ex-secretária de Estado defendeu a necessidade de mais regulações no setor para reduzir o número impressionante de mortes em tiroteios. Enquanto Presidente dos EUA entre 1994 e 2000, o seu marido, Bill Clinton, aprovou no início do primeiro mandato uma lei que proibia a venda de metralhadoras automáticas de assalto, que esteve em vigor durante dez anos e que Hillary já disse que pretende restaurar.

Este tipo de "compra de pânico" acontece sempre que os americanos pró-armas sentem que os seus privilégios estão sob ameaça. Um dos casos mais recentes deu-se em dezembro de 2012, no rescaldo do massacre de Sandy Hook, quando um rapaz de 20 anos matou 20 crianças e seis professores e auxiliares de educação naquela escola primária de Newtown, no Connecticut, com uma metralhadora semiautomática AR-15.

Horas depois de mais esse tiroteio em massa, Barack Obama fez um discurso público em que defendia a necessidade de maior controlo de armas de fogo independentemente das orientações políticas e cores partidárias. Ao longo do mês seguinte, o FBI fez 2,7 milhões de verificações de antecedentes, contra as 1,5 milhões de verificações no mesmo período do ano anterior. Estas verificações são condição sine qua non para a venda de armas nos EUA e servem de indicador fidedigno das tendências de venda, embora não se traduzam diretamente na quantidade de armas vendidas.

Nos dias a seguir ao massacre de Sandy Hook, Evans diz que as AR-15 que tinha em stock se esgotaram e que nem sequer conseguiu encomendar mais armas desse modelo ao fabricante durante algum tempo. Para a americana do sul, como para todos os americanos pró-armas, os argumentos do casal Clinton e de outros democratas não fazem sentido. "Nós nem sequer levamos AR-15 connosco quando vamos caçar veados, porque só os fere em vez de os matar", explica a vendedora à Al-Jazeera, defendendo que nem sequer faz sentido falar em 'metralhadoras de assalto' quando se fala de AR-15, porque dá "mau nome" à arma. "A minha filha abateu um veado quando tinha oito anos. É divertido disparar armas. [A AR-15] é só uma metralhadora de desporto, não é a grande arma má que eles dizem que é."

Apesar de assumir que está a registar um pico de vendas desse e de outros modelos, Evans diz que nem ela nem os seus amigos e clientes acreditam que Hillary vai ganhar "portanto ninguém está realmente a entrar em pânico". Ao longo dos últimos meses, essa crença foi sendo mais um exercício de idealismo do que propriamente uma previsão correta. Isso parece estar a mudar de figura desde a sexta-feira passada, quando o FBI anunciou a abertura de uma investigação a um novo conjunto de milhares de emails de Clinton encontrados no computador de Anthony Weiner, um congressista que está a ser investigado por ter enviado fotos sexualmente explícitas a uma rapariga de 15 anos, e que foi casado com a principal assessora da candidata democrata, Huma Abedin (no papel ainda são).

Nos últimos dias, algumas sondagens passaram a prever um empate técnico entre Clinton e o seu rival republicano, Donald Trump, depois de uma liderança consistente e folgada da democrata entre os eleitores inquiridos. Um novo inquérito de opinião para a CBS News e o "New York Times" divulgado ontem, a cinco dias da ida às urnas, atribui à antiga senadora 45% das intenções de voto contra 42% para Trump quando, em meados de outubro, a última sondagem do mesmo instituto dava à democrata uma vantagem de nove pontos percentuais.