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Forças iraquianas ocupam primeiro bairro de Mossul

A leste e norte da cidade, o avanço, respetivamente, de tropas especiais iraquianas e de forças curdas foi mais rápido que o esperado. Mas falta o mais difícil: conquistar o centro da cidade onde o Daesh se refugiou. No dia – o 17.º da ofensiva, esta quarta-feira – em que as forças iraquianas conseguiram entrar finalmente em Mossul, o ponto da situação e o mapa interativo da investida da coligação

Estra quarta-feira, ao 17.º dia da ofensiva das forças coligadas contra Mossul, no norte do Iraque, uma coluna blindada de 90 viaturas da Divisão de Ouro (forças especiais iraquianas) conquistou o bairro de Gogjali, no leste da cidade, embora as operações de consolidação ainda prossigam. Aguardam-se, nas próximas horas, novas entradas de forças iraquianas na cidade, agora pelo lado sul. Milhão e meio de residentes é mantido refém por três a cinco mil elementos do Daesh, concentrados nos bairros centrais no oeste da cidade, na margem direita do rio Tigre, cujas pontes têm sido destruídas pela aviação francesa.

Do lado norte são as forças curdas a consolidar posições à volta da cidade, já que ficou definido na divisão de trabalho que não entrarão na área urbana (para evitar atritos com a população árabe sunita e turcomana), cabendo-lhes consolidar e defender o anel exterior de cerco.

Resta o lado oeste, ainda dependente da tomada ao Daesh da cidade de Tal Afar, a 80 km de Mossul. É por este lado que os ultra-jiadistas ainda conseguem alguma movimentação de homens e material, com ligação ao seu reduto de Raqqa, na Síria. Tal Afar é a terra natal de importantes elementos do Daesh, parte dos quais antigos oficiais superiores de Saddam Hussein que combateram a presença americana e depois se transferiram para o grupo ultrajiadista

AHMAD AL-RUBAYE

A missão de cortar este eixo, vital para o reabastecimento dos sitiados, foi atribuída às milícias xiitas pró-iranianas das Unidades de Mobilização Popular (Hached Al-Chaabi), o que criou fricções dentro da coligação atacante, indispondo curdos e sunitas, que receiam represálias contra a população residente turcomana ou sunita (os xiitas foram mortos ou expulsos de Tal Afar em 2014 pelo Daesh).

Os receios do Presidente turco

Tal Afar é ainda foco de tensão por outra razão. Fica próxima das fronteiras síria e turca e o Presidente turco, Tayep Erdogan, vê com muito maus olhos a presença em semelhante local de milícias xiitas apoiadas pelo Irão (algumas das quais transferidas da frente de Alepo, na Síria, onde apoiavam Assad, eleito por Erdogan o seu inimigo principal). Acresce que bem perto, Sinjar, 45 km a oeste de Tal Afar (mundialmente famoso pelas atrocidades do Daesh contra a minoria yazidi em 2014), foi conquistada por milícias curdas afetas ao PKK, partido curdo turco independentista combatido por Erdogan. E que do lado sírio há milícias curdas aliadas do PKK.

Erdogan vê numa hipotética convergência xiita-curda o seu pior pesadelo. Respondeu concentrando tropas do seu lado da fronteira, o que foi visto por Bagdade como uma quase declaração de guerra.

Estas primeiras duas semanas de aperto do cerco a Mossul deram algumas indicações sobre a forma como o Daesh vai combater. Prefere ceder terreno em campo aberto, retirando para o labirinto de ruas de Mossul, onde espera conseguir levar a cabo uma sangrenta e demorada luta casa a casa, escondendo-se no meio dos civis. Usa kamikazes e viaturas suicidas para retardar o avanço ou desmoralizar os atacantes. Armadilha casas, pontes e cruzamentos e retira através de uma rede de túneis, por vezes cavados a sete metros de profundidade e com quilómetros de comprimento.

reuters

E, além de continuar a intimidar e massacrar civis, recorre a todas as táticas de guerra suja, como aconteceu em Al-Qayyarah, 60 km a sul de Mossul, onde, perante a iminência do avanço das forças governamentais, incendiou poços de petróleo (há dois meses) e depois uma fábrica de enxofre industrial (dia 20). Nesta cidade, a situação sanitária é grave e não é fácil fazer evacuações médicas para o vizinho Curdistão, onde há serviços de saúde funcionais.

Civis como escudos humanos

Num primeiro balanço das operações, o general Joseph Votel, do comando central dos EUA, avaliou as perdas do Daesh em 800 mortos (20% do efetivo estimado em Mossul), sendo as iraquianas de 60 e as dos curdos de 30. Contudo, combater em campo aberto com colunas blindadas e apoio aéreo franco-americano é uma coisa. Fazê-lo num labirinto urbano cheio de atiradores ocultos e armadilhas é outra, que poderá levar semanas ou meses. Tanto mais que o Daesh tem tentado evitar a fuga dos residentes, para os seus elementos se esconderem no meio dos civis e poderem fazer propaganda no caso de as mulheres e crianças que usam como reféns serem atingidos.

Politicamente, esta campanha é melindrosa, dada a diversidade das forças coligadas e a variedade de interesses em presença. Em Bagdade o governo do primeiro-ministro Abadi joga em vários tabuleiros. Precisa do apoio aéreo americano mas não pode correr o risco de indispor as bases xiitas de que largamente depende. Em contrapartida, precisa de sossegar curdos, turcomanos, cristãos, yazidis e sobretudo árabes sunitas, garantindo-lhes que não só não haverá uma vendetta xiita nas zonas conquistadas como não voltará a haver a opressão das minorias locais de que se alimentou o Daesh no período pós-invasão americana de 2003. E ainda há o sempre imprevisível fator Erdogan…