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Internacional

Adotado em bebé por um casal americano, vai ser deportado para a Coreia do Sul aos 41 anos

É uma história que ilustra um imbróglio jurídico comum a dezenas de milhares de pessoas que nunca conheceram outro país senão os Estados Unidos

Luís M. Faria

Jornalista

Um sul-coreano que foi adotado por um casal norte-americano quando tinha apenas três anos, tendo vivido os restantes 38 da sua vida até agora nos Estados Unidos, vai ser deportado para o país onde nasceu.

A decisão foi tomada por um juiz, que referiu os “graves antecedentes penais” de Adam Crapser (nome original: Shin Song Hyuk). O outro fator, ainda mais decisivo, é o facto de os seus pais adotivos nunca se terem lembrado de iniciar o processo de naturalização no seu caso.

A história é quase inacreditável e está a comover muita gente, tanto nos EUA como na Coreia, onde inclusivamente já existe um documentário sobre o assunto. Adam e a sua irmã foram abandonados pelos pais em bebés. Acabaram num orfanato, de onde foram levados juntos por um casal de americanos.

Estes maltrataram-nos severamente, e sete anos depois renunciaram às crianças. Adam e a sua irmã foram separados e andaram por uma série de famílias e instituições. Aos doze anos, Adam foi acolhido por Thomas e Dolly Crapser, um casal que chegava a ter dez crianças a viver com eles ao mesmo tempo.

Maus tratos, revolta

Aí, os maus-tratos ainda foram piores. As brutalidades incluíam cabeças atiradas contra portas e ter a boca selada com fita cola (os Crapser viriam a ser condenados em tribunal por abusos, de vários tipos). Nessas condições, não surpreende que Adam se tornasse um adolescente problemático. A meio da adolescência saiu de casa, ou foi expulso. Um dia entrou lá sem autorização – para recuperar a sua Bíblia coreana, explicou depois – e isso valeu-lhe dois anos na cadeia.

Com cadastro e sem papéis que lhe permitissem uma situação inteiramente legal – uma lei posterior que atribuiu a nacionalidade nesse género de situações não lhe foi útil, por não se aplicar retroactivamente – nunca mantinha um emprego por mais que noventa dias.

Pelo caminho, foi acumulando problemas criminais: agressões, posse de armas de fogo… Teve um filho de uma mulher que obteve uma ordem de proteção contra ele, à qual Adam desobedeceu. Uma acusação a acumular-se a outras, nenhuma delas extremamente grave mas muitas no seu conjunto.

Tentou regularizar-se, apanharam-no

Uma nova relação afetiva parece ter dado a Adam a estabilidade que ele nunca teve. Atualmente, estava em causa a cuidar de crianças (tem mais um filho) e abordara as autoridades para regularizar a sua situação. Foi aí que o apanharam.

Numa época de reação popular contra os emigrantes, ele enfrentou dificuldades acrescidas. O tribunal olhou para o seu cadastro e decidiu pela deportação. Adam ainda invocou que não tinha culpa de o terem levado para os Estados Unidos em bebé. Podia ter acrescentado que os seus problemas resultaram em parte – em grande parte, provavelmente – das falhas do Estado a protegê-lo na fase mais crucial do seu desenvolvimento.

Em vez disso, resolveu aceitar a decisão judicial. Invoca as condições terríveis no centro de detenção onde o puseram, e diz que prefere ir embora. De qualquer modo, como entretanto o seu caso se tornou conhecido na Coreia, deve conseguir ter no regresso a casa condições que jamais lhe dariam nos EUA.

Um aspeto bom da história, diz, é que à conta da publicidade recebida conseguiu estabelecer contacto com a sua família biológica: o padrasto é um empresário de construção e diz ter um emprego à sua espera. Embora a advogada de Adam preveja dificuldades de adaptação, ele espera endireitar por fim a sua vida.

Agora, só lhe falta mesmo aprender a língua coreana. Para se orientar nos primeiros tempos, em especial no que respeita aos sinais de rua, já arranjou um guia para turistas…