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Fugiram ao Boko Haram e acabaram violadas e exploradas nos campos de deslocados

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Presidente da Nigéria diz estar “preocupado e chocado” com as denúncias da Human Rights Watch de que pelo menos 43 mulheres e raparigas foram alvo de abusos sexuais por parte responsáveis de campos de deslocados, membros de grupos de vigilantes, polícias e militares

Pelo menos 43 mulheres e raparigas que sobreviveram à violência do Boko Haram acabaram por ser alvo de abusos sexuais, nomeadamente violadas e coagidas a ter sexo em sete campos para deslocados em Maiduguri, capital do estado de Borno, no norte da Nigéria, segundo denuncia a Human Rights Watch (HRW) com base em inúmeros testemunhos.

Os abusos terão sido levados a cabo por responsáveis dos campos, vigilantes (membros de grupos de defesa civil que colaboram com os militares na luta contra os terroristas do Boko Haram), polícias e militares.

Muitas das mulheres que vão para estes campos são viúvas e meninas órfãs, ficando numa situação de grande vulnerabilidade. Quatro delas indicaram à HRW terem sido drogadas e violadas, 37 foram coagidas a ter sexo através de falsas promessas de casamento e ajuda material e financeira. Algumas engravidaram e em seguida abandonadas. Oito das vítimas indicaram que haviam sido abusadas pelos guerrilheiros do Boko Haram e sujeitas a casamento forçado, antes de terem conseguido escapar para Maiduguri.

“Já é suficientemente mau que estas mulheres e raparigas não estejam a obter o apoio de que muito precisam pelo terrível trauma sofrido às mãos do Boko Haram”, declarou Mausi Segun, investigador da HRW. “É lamentável e escandaloso que pessoas que deviam proteger estas mulheres e raparigas estejam a atacá-las e a abusar delas”, acrescentou.

O Presidente da Nigéria Muhammadu Buhari já reagiu às denúncias, declarando que “os nigerianos e a comunidade internacional podem estar seguros” de que as alegações apresentadas “não vão ser levadas de ânimo leve” e instruiu os responsáveis da polícia para que “iniciem de imediato investigações”.

Uma rapariga de 17 anos disse que há cerca de um ano, após ter ido para o campo para fugir aos ataques do Boko Haram, um polícia aproximou-se dela para conquistar a sua amizade e acabou por violá-la. “Um dia, exigiu ter sexo comigo. Eu recusei mas ele forçou-me. Só aconteceu uma vez, mas em breve descobri que estava grávida. Quando o informei da minha condição, ameaçou matar-me se contasse a mais alguém. De modo que fiquei com medo de o denunciar”, recordou.

O fornecimento de alimentos, roupas, medicamentos, assim como outros bens essenciais é muito irregular nos campos de Maiduguri. Para além disso, as mulheres de deslocadas não podem deslocar-se livremente, o que contraria as orientações das Nações Unidas.

O relatório da Human Rights Watch refere que, em alguns casos, homens usam a sua posição de autoridade e oferecem comida e outros bens, de que as mulheres necessitam desesperadamente, para terem sexo com elas.

O conflito com o Boko Haram já causou a morte mais de 10 mil civis desde 2009, o sequestro de pelo menos duas mil pessoas, centenas de homens foram recrutados à força, e cerca de 2,5 milhões de pessoas tiveram de abandonar os locais onde viviam no nordeste da Nigéria.