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Acordo de Paris: entrada em vigor é revolução, mas exige mudanças radicais

David McNew/Getty Images

O combate às alterações climáticas requer o abandono dos combustíveis fósseis, a aposta na eficiência energética e nos transportes limpos, lembram as associações de defesa do Ambiente

A entrada em vigor na sexta-feira do acordo de Paris sobre redução de gases com efeito de estufa é, para os ambientalistas, uma revolução no combate às alterações climáticas, mas exige mudanças do estilo de vida.

Associações de defesa do ambiente contactadas pela Lusa fazem questão de lembrar que o acordo de Paris terá de ser acompanhado pelo abandono dos combustíveis fósseis e pela aposta na eficiência energética e nos transportes limpos.

Para entrar em vigor, o acordo conseguido em dezembro de 2015 na capital francesa necessitava da ratificação de pelo menos 55 países, ou por um número que representasse pelo menos 55% das emissões de gases com efeito de estufa, o que foi conseguido a 04 de outubro, com a ratificação pela União Europeia (UE), que se juntou aos dois maiores emissores - a China (20% do total) e os Estados Unidos (18%).

Até hoje, 92 dos 197 signatários da Convenção da Nações Unidas sobre Alterações Climáticas já ratificaram o acordo de Paris.

Os ambientalistas contactados pela agência Lusa são unânimes no significado da rapidez da ratificação por tantos países, ao contrário do que aconteceu com o Protocolo de Quioto acordado em 1997, mas reconhecem dificuldades na concretização do estipulado no acordo, além das dúvidas que algumas áreas suscitam.

Para João Joanaz de Melo, do Grupo de Estudos de Ordenamento do Território e Ambiente (GEOTA), "a rapidez com que o acordo foi ratificado significa que uma grande parte dos países a nível mundial tem consciência que a alteração climática é um assunto verdadeiramente importante e sério".

"Conseguiu-se a ratificação mais depressa do que a maior parte das pessoas estava à espera, é um bom sinal no que toca à convicção e eventualmente à disponibilidade para tomar medidas mais profundas", acrescentou.

O presidente da associação ambientalista Zero, Francisco Ferreira, falou de uma "revolução à escala mundial em prol do combate às alterações climáticas", mas lembrou que conter o aquecimento global nos 1,5 graus celsius em relação à era pré industrial, "implica que a sociedade mude de forma radical, com uso muitíssimo menor de combustíveis fósseis" e com o sistema energético muito mais exigente e baseado em energias renováveis.

"Isso terá implicações óbvias no nosso estilo de vida, no desenvolvimento tecnológico e nos equilíbrios entre países desenvolvidos e em desenvolvimento", afirmou.

As mudanças na área energética, tal como nos transportes, são referidas por todos os ambientalistas, como a Quercus que realçou a necessidade de Portugal "acelerar a reabilitação urbana com requisitos ambiciosos de eficiência energética".

O GEOTA aponta a eficiência energética nos edifícios, na indústria e nos transportes, "o setor económico com maiores emissões e onde a aposta deve ser melhorar os transportes públicos para conseguir retirar tráfego individual" das estradas.

João Joanaz de Melo aponta que o principal problema é que, no consumo de energia, "em particular o fóssil continua a ser subsidiado e isso tem de acabar, mas vai ser um grande desafio", enquanto a Quercus, liderada por João Branco, defende a revisão da política de transportes.

Ana Marta Paz, da Liga para a Proteção da Natureza (LPN), reforça que em Portugal o maior problema é no setor dos transportes "onde o consumo energético continua insustentavel".

A ambientalista alertou para a "deslocalização das emissões", explicando que, por exemplo, a UE "faz muito boa figura ao diminuir nos últimos anos as emissões, mas uma parte disto é feita à custa da deslocalização das emissões para países como a China".

No acordo de Paris, defendeu Francisco Ferreira, o mais difícil de cumprir é "a descarbonização da economia", no setor dos transportes, que tem maiores emissões de gases com efeito de estufa, e na produção de energia elétrica recorrendo ao carvão.

"São as duas áreas mais dramáticas, significam não apenas uma mudança no paradigma da mobilidade no sentido do uso da eletricidade, mas também um investimento nos transportes coletivos e de mercadorias, de ordenamento e funcionamento das cidades, já defendido há décadas, mas que não tem conseguido ser concretizado", salientou o especialista em alterações climáticas.

Também a Quercus aponta a implementação de estratégias e medidas de adaptação às alterações climáticas a nível local, principalmente nas cidades, e a análise de soluções conjuntas.