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Nevada. “Quando a crise financeira chegou, era como se houvesse sangue nas ruas”

EXECUÇÕES. No pico da crise, uma em cada 16 casas em Las Vegas teve a hipoteca executada pelos bancos

STEVE MARCUS / REUTERS

Mark Hostetler era agente imobiliário em Las Vegas quando a bolha do mercado imobiliário rebentou, deixando centenas de famílias sem casa. O estado do Nevada vive ainda hoje com as feridas da crise financeira

Cátia Bruno

Cátia Bruno

Jornalista


Este texto é o quinto de uma série que o Expresso está a publicar sobre os swing states (estados imprevisíveis e decisivos na eleição). Para ilustrar cada um dos nove estados, escolhemos um tema que marca a região − e o país − e um entrevistado para nos falar sobre ele

Mark Hostetler lembra-se bem do caos que se viveu em Las Vegas em finais de 2008. Como agente imobiliário, tinha como função vender as propriedades capturadas pelos bancos, depois de estes executarem as hipotecas daqueles que não conseguiam pagar. Mas o rebentamento da bolha imobiliária no estado do Nevada afetou igualmente Mark: “Muitos amigos meus perderam as suas casas, outros venderam-nas. Comigo, todas as propriedades que possuo passaram a valer metade do que valiam. Todas! Ninguém saiu incólume disto.”

A bolha de crédito fácil em Las Vegas rebentou e arrastou consigo centenas de famílias − muitas delas ainda hoje afetadas pelo que aconteceu há oito anos. A taxa de desemprego na cidade atingiu os 14%, enquanto o mercado imobiliário foi o mais afetado. No pico da crise, foram executadas as hipotecas de uma em cada 16 casas, quando a média nacional era de uma em 69. Quase 60% das casas passaram a valer menos do que o valor do empréstimo que as famílias tinham contraído para as pagar. Atualmente, um em cada quatro proprietários de Las Vegas ainda tem uma casa cujo valor de dívida ao banco é superior ao valor real do imóvel.

“Vivo em Las Vegas há 18 anos. Quando a crise financeira chegou, eu descrevia o sentimento geral aos meus amigos do Midwest dizendo que era como se houvesse sangue nas ruas”, ilustra Mark ao Expresso. “O problema é que até ali toda a gente conseguia um empréstimo. ‘Estás a respirar? É-te concedido um empréstimo.’ E Las Vegas é uma cidade de ‘ou vai ou racha’: quando tudo está bem, está mesmo muito bem. Mas quando tudo corre mal…”

AGENTE IMOBILIÁRIO. Mark Hostetler vende propriedade executada pelos bancos, mas ele próprio foi afetado quando a bolha rebentou

AGENTE IMOBILIÁRIO. Mark Hostetler vende propriedade executada pelos bancos, mas ele próprio foi afetado quando a bolha rebentou

d.r.

Para ajudar os milhares de pessoas afetadas pela crise imobiliária em todo o país, o Governo de Barack Obama criou o Home Affordable Modification Program (HAMP), que permite a alteração do empréstimo concedido, a fim de os proprietários conseguirem continuar a pagá-lo e poderem permanecer nas suas casas. As críticas ao HAMP têm surgido de todos os lados, seja pela dificuldade de chegar a acordo com alguns bancos, seja pelo facto de o programa não ajudar aqueles que pretendem vender as suas casas. Contudo, tem permitido a algumas famílias manter um teto sobre as suas cabeças. O verdadeiro problema surge quando confrontados com o facto de que o programa expira no final de 2016 − e não é certo se os atuais candidatos à presidência pretendem mantê-lo, alterá-lo ou eliminá-lo.

Os lobos de Wall Street

Oito anos depois do desastre que se abateu sobre a grande maioria dos habitantes de Las Vegas, o mercado parece estar a recuperar, com o preço das casas a voltar a subir, mas mantendo-se ainda em valores muito baixos. Mark estima que a subida ande à volta dos 35%, mas aquilo que à primeira vista parece uma boa notícia pode esconder um problema, segundo este agente imobiliário: “As taxas de juro estão muito baixas. Quando se pode comprar uma casa com uma taxa de juro de 3%, é dinheiro muito barato. Sinto que estamos a criar a próxima bolha.”

Mais relevante ainda, muitos dos que estão a comprar não são necessariamente cidadãos comuns. Em fevereiro, a Bloomberg alertava para o facto de que grande parte dos atuais compradores em Las Vegas são empresas de Wall Street ou investidores institucionais, que aproveitam os atuais preços de saldo − o artigo cita dados da CoreLogic, que estima que em 2012, 19% das casas cuja hipoteca foi executada, em Las Vegas, foram compradas por sociedades de capitais de investimento e fundos de cobertura de riscos (os chamados hedge funds). “As famílias americanas que recuperaram o seu crédito nos anos a seguir ao crash podem estar a competir pelas mesmas propriedades com empresas abastadas, tendo menos oportunidades de as comprar a preços tão baixos”, alertava a agência.

O fenómeno volta a direcionar a atenção para Wall Street, apontada como principal culpada pela crise financeira. Não é por isso de espantar que um dos tópicos abordados tanto por Hillary Clinton como por Donald Trump seja o tipo de regulação financeira que os Estados Unidos devem ter, com os dois candidatos a divergirem profundamente. Clinton apoia o mecanismo de regulação em vigor, o Dodd-Frank Act, que coloca o foco na defesa do consumidor. Para além disso, impulsionada pelo empurrão para a esquerda que o rival Bernie Sanders provocou dentro do Partido Democrata, quer ir ainda mais longe e alargar a regulação a áreas como os hedge funds. No outro lado do espetro, Trump garante que irá acabar com o Dodd-Frank, pois considera que o documento está a inibir os bancos de concederem empréstimos e a prejudicar o crescimento económico.

LIGAÇÕES. A proximidade de Hillary Clinton ao Goldman Sachs lançou a questão: quão independentes do poder financeiro são os candidatos?

LIGAÇÕES. A proximidade de Hillary Clinton ao Goldman Sachs lançou a questão: quão independentes do poder financeiro são os candidatos?

BRENDAN MCDERMID / REUTERS

Os norte-americanos acompanham este debate preocupados, até porque a economia tem sido o tema prioritário para os eleitores ao longo da campanha. Mas, como Mark explica, os efeitos na sua vida concreta são um pouco diferentes, com os bancos a colocarem o ónus da regulação nos seus clientes: “Com o Dodd-Frank, passámos a ter de pagar mais taxas aos bancos”, explica. “Não se deve regular passando o custo para o consumidor. Não sei como isso se faz, mas sem dúvida que não temos sido bem sucedidos nisso.”

Muitos eleitores preocupam-se igualmente com as ligações dos candidatos ao sistema financeiro e questionam-se se serão independentes o suficiente. Ambos receberam doações avantajadas de grandes grupos económicos, mas Hillary Clinton sai mais prejudicada neste jogo, sobretudo depois da divulgação de gravações pela WikiLeaks dos seus discursos em eventos do Goldman Sachs. Nelas, Clinton é ouvida a dizer que a maior regulação após a crise de 2008 foi necessária “por razões políticas”, já que quando “toda a gente na imprensa diz que é culpa de Wall Street, não podemos ficar parados sem fazer nada”. No entanto, tal não tem inibido Clinton de anunciar que irá tentar uma maior regulação do sistema financeiro.

Donald Trump, contudo, também tem os seus telhados de vidro, nomeadamente no que toca à crise do imobiliário. Em 2006, o milionário disse que esperava que a bolha imobiliária rebentasse: “se isso acontecer, vou poder fazer imenso dinheiro”, disse. Quanto a Wall Street, apesar de não ser a favor de medidas que promovam uma regulação apertada, Trump diz estar atento ao comportamento do distrito financeiro: “Eu conheço Wall Street e as pessoas de Wall Street… Não vou deixá-los sair em liberdade. Wall Street já nos provocou imensos problemas.”

A terceira via

Apesar das diferentes posições dos candidatos, muitos eleitores não estão satisfeitos com nenhuma das hipóteses. “As pessoas estão zangadas, estão zangadas com a situação, com Washington D.C. e com o Governo”, garante o agente imobiliário Mark. “Neste momento temos dois candidatos e nenhum deles devia sê-lo. Ela porque mentiu e fez um monte de negócios obscuros e ele porque é narcisista e louco.”

O estado do Nevada tem sido imprevisível ao longo da História, votando geralmente a favor do candidato que acaba por sair vencedor (foi assim em 31 das 38 eleições presidenciais). Com grande parte da sua população concentrada em Las Vegas, a cidade pode ser decisiva para o resultado do estado. Aparentemente, o crescimento de grupos como os latinos e os afro-americanos poderão beneficiar Hillary Clinton, mas o Nevada tem um historial de causar surpresas aos democratas − como nas eleições de 2014 para o Congresso, com os republicanos a vencerem na região pela primeira vez desde 1929, neste tipo de eleição.

VEGAS. Três quartos da população do Nevada estão concentrados no condado de Clark, onde se insere a cidade de Las Vegas

VEGAS. Três quartos da população do Nevada estão concentrados no condado de Clark, onde se insere a cidade de Las Vegas

SAUL LOEB / AFP

Muitos, como Mark, ainda estão indecisos. “Tenho 41 anos e esta campanha tem sido a mais louca da minha vida. É possível que eu só decida em quem vou votar no dia das eleições!”, confessa. “Sinto que a decisão se baseia em escolhermos aquele cujos defeitos são menores do que os do outro e isso é uma péssima escolha quando se está a votar para a presidência.”

Em última instância, Mark, como muitos outros, pode bem optar por não votar nem em Clinton, nem em Trump. Afinal de contas, o estado do Nevada é o único estado que permite votar na opção “nenhum destes candidatos”.

NEVADA

Média das sondagens

44% Hillary Clinton
41% Donald Trump
7% Gary Johnson

Histórico eleições presidenciais (desde 1984)

1984: Ronald Reagan (Republicano)
1988: George H. W. Bush (Republicano)
1992: Bill Clinton (Democrata)
1996: Bill Clinton (Democrata)
2000: George W. Bush (Republicano)
2004: George W. Bush (Republicano)
2008: Barack Obama (Democrata)
2012: Barack Obama (Democrata)