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Internacional

Ofensiva rebelde em Alepo pode corresponder a crimes de guerra, avisa ONU

KARAM AL-MASRI

Staffan de Mistura diz estar "consternado e chocado" com uso "desproporcional e indiscriminado" de artilharia pesada em áreas de maioria civil pelos rebeldes da oposição a Bashar al-Assad

O representante especial das Nações Unidas para a Síria, Staffan de Mistura, diz estar "consternado e chocado" com o uso indiscrimado de artilharia pesada em zonas de maioria civil no leste de Alepo pelos rebeldes que combatem o regime de Bashar al-Assad e que há três dias lançaram uma ofensiva contra o cerco montado pelas forças leais ao Presidente sírio que já provocou dezenas de mortos.

Em comunicado, Staffan de Mistura disse esta segunda-feira, citado pela Associated Press, que "aqueles que argumentam que [a ofensiva] tem como objetivo aliviar o cerco ao leste de Alepo devem ser lembrados que nada justifica o uso desproporcional e indiscriminado de armas, incluindo artilharia pesada, em áreas de maioria civil", ações que, avisou, "podem corresponder a crimes de guerra".

No domingo, os insurgentes da oposição a Assad continuaram a bombardear as áreas de Alepo sob controlo das forças do regime, provocando pelo menos sete mortos, incluindo três crianças, avançou a televisão estatal. Entre as armas utilizadas contam-se carros armadilhados e veículos de combate que os rebeldes têm estado a enviar para o oeste da cidade. O governo sírio acusa-os ainda de usarem armas químicas nessa ofensiva.

Nos últimos três dias, pelo menos 41 civis, entre eles 16 crianças, perderam a vida nos ataques da oposição, de acordo com dados do Observatório Sírio de Direitos Humanos, com sede em Londres, que diz ainda que os rebeldes já usaram centenas de morteiros contra zonas ocidentais de Alepo, atualmente o epicentro da guerra civil da Síria, em curso há quase seis anos. A ofensiva tem como objetivo forçar a retirada das forças do Governo, que desde julho mantêm sitiado o leste da cidade, onde cerca de 275 mil civis continuam encurralados.

O Governo sírio e as forças russas suas aliadas suspenderam os ataques aéreos contra as zonas sob controlo dos rebeldes na semana passada, para permitirem a retirada de civis, em particular feridos. Contudo, até agora ainda não teve lugar qualquer operação de evacuação, nem foi permitida a entrega de ajuda humanitária às áreas sitiadas. Apesar da suspensão dos bombardeamentos aéreos, as forças do regime sírio continuam a levar a cabo a ofensiva no terreno.

"Os civis dos dois lados de Alepo já sofreram o suficiente por causa das tentativas fúteis mas letais de subjugação da cidade de Alepo", sublinha Staffan De Mistura. "Agora merecem e precisam de um cessar-fogo estável nesta cidade antiga da Síria."

Ontem, alguns rebeldes da oposição conseguiram avançar para a linha de batalha no bairro de al-Hamadaniyeh, com vídeos publicados pelo Fatah al-Sham, um grupo com ligações à Al-Qaeda, a mostrarem os avanços dos insurgentes no bairro com tanques e outros veículos militares. O líder do grupo, Abu Mohammed al-Golani, surge em alguns desses vídeos a discutir detalhes das batalhas no terreno com comandantes.

Num comunicado emitido no sábado, a aliança de insurgentes avisou os residentes das zonas sob controlo do regime de que deveriam permanecer dentrode casa ou em abrigos, declarando o oeste de Alepo como zona militar. Nesse dia, fonte do Exército sírio disse sob anonimato que o Governo ia reforçar as suas posições dentro e ao redor da cidade para contrariar os avanços dos rebeldes.

O porta-voz de um dos grupos rebeldes, Idriss Raad, do Faylaq al-Sham, recusou as acusações do Governo de que estão a ser usados gases tóxicos na ofensiva pelo controlo de Alepo, garantindo que a oposição não tem armas químicas em sua posse e que nunca atacaria áreas onde existem apoiantes da insurgência. De acordo com a televisão estatal síria, 48 pessoas deram entrada num hospital da zona ocidental de Alepo com dificuldades respiratórias consistentes com o uso deste tipo de armas.

Uma equipa independente de especialistas internacionais já determinou que o regime de Assad usou armas químicas contra civis sírios num ataque de 2015, o terceiro desta natureza a ser até então atribuído ao Governo. Num relatório divulgado em agosto deste ano, os investigadores acusaram ainda militantes do autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) de usarem armas químicas num outro ataque no ano passado. Embora esteja presente noutras zonas da Síria, o Daesh não integra a insurgência em Alepo.