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Chefe do FBI “pode ter violado a lei” no caso dos emails de Hillary Clinton

Chip Somodevilla

Acusação foi feita por Harry Reid, líder da minoria democrata no Senado, horas antes de o Departamento de Justiça norte-americano ter obtido um mandado de busca para investigar os milhares de novos emails “de interesse”, cuja existência foi revelada por James B. Comey na sexta-feira, a menos de duas semanas das eleições presidenciais

Os investigadores federais do Departamento de Justiça norte-americano obtiveram este domingo à noite um mandado de busca para poderem investigar o conteúdo de uma série de emails de Huma Abedin, principal assessora da candidata democrata às presidenciais de 8 de novembro, Hillary Clinton, que foram encontrados no computador do seu marido, o congressista Anthony Weiner, de quem Abedin está separada mas não divorciada.

A notícia foi avançada pelo “New York Times” na noite deste domingo, citando três fontes federais anónimas, e surge a apenas oito dias da ida às urnas nos Estados Unidos, numa altura em que milhões de norte-americanos já votaram para escolher o seu próximo Presidente. A nova investigação aos emails privados de Clinton foi potenciada por um comunicado enviado pelo diretor do FBI, James B. Comey, aos membros do Congresso na sexta-feira, um texto de apenas 166 palavras que o jornal nova-iorquino classifica como “vago”.

Este domingo, o líder da minoria democrata no Senado Harry Reid juntou-se ao coro de críticas a Comey, tanto de democratas como de republicanos, pelo passo sem precedentes de levantar suspeitas sobre a idoneidade de um candidato presidencial quando falta tão pouco para a eleição do próximo líder dos EUA sem divulgar pormenores concretos sobre o caso.

Clinton já tinha estado sob investigação do FBI e do Departamento de Estado por ter usado um servidor privado de email enquanto secretária de Estado no primeiro mandato de Barack Obama, investigação essa que foi concluída em julho sem qualquer acusação formal à candidata.

Reid alega que Comey poderá ter “violado a lei” por decidir reabrir o processo contra Clinton a apenas uma semana das eleições presidenciais, perante a descoberta de milhares de novos emails de Clinton e de Abedin no computador de Weiner, o congressista caído em desgraça num escândalo relacionado com o envio de fotografias íntimas a várias mulheres. Atualmente está a ser alvo de uma nova investigação por ter enviado mensagens sexualmente explícitas a uma rapariga de 15 anos.

O NYT diz que “o FBI sabia há várias semanas que a sua investigação” a Weiner “tinha o potencial de reacender o caso Clinton”. Refere o jornal que, depois de terem obtido o computador portátil de Weiner, bem como o seu telefone e tablet, a 3 de outubro, os agentes “rapidamente perceberam que o computador continha uma série de emails da sra. Abedin”, que está separada do marido há vários meses.

Para já, continua por apurar se os agentes federais e os procuradores do Departamento de Justiça vão conseguir concluir um inquérito preliminar aos novos emails antes do dia das eleições, marcadas para a terça-feira da próxima semana, 8 de novembro. “O processo já começou”, diz um dos três agentes citados pelo diário nova-iorquino. O jornal sublinha que os investigadores só deverão analisar parte do material encontrado — apenas os emails de Abedin ligados à sua patroa, alguns dos quais trocados através do servidor privado que Clinton usou enquanto chefe da diplomacia e que, por esse motivo, já terão sido escrutinados pela agência federal na primeira investigação ao caso Clinton.

Durante o fim de semana, numa conferência de imprensa convocada para o efeito, a candidata democrata exigiu que o FBI diga claramente que suspeitas recaem sobre ela para não lançar dúvidas e confusão entre o eleitorado a tão poucos dias das presidenciais. “Pedimos ao FBI que divulgue toda a informação que tem em sua posse. Vamos torná-la pública.” Para já, ainda nenhuma informação foi divulgada.

Diretor do FBI está a ser criticado tanto por democratas como por republicanos

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Alex Wong

Na carta que enviou ao Congresso na sexta-feira, Comey diz que os milhares de emails de Clinton e de Abedin que foram encontrados no computador de Weiner podem ser “pertinentes” para apurar se a candidata cometeu algum crime enquanto chefe da diplomacia dos EUA. O seu rival na corrida presidencial tem-na acusado repetidamente, ao longo desta campanha, de violar a lei por ter apagado parte dos seus emails privados já depois de ter sido intimada pelo FBI e pelo Departamento de Estado a entregá-los aos investigadores responsáveis pelo primeiro caso no ano passado — tendo prometido, num dos debates televisivos com a adversária política, que se for eleito vai nomear um procurador especial para a investigar e prender.

Numa outra carta, enviada esta domingo por Harry Reid aos colegas do Congresso, o líder da minoria democrata no Senado acusa o chefe do FBI de querer intencionalmente ajudar um dos partidos políticos a vencer as eleições e de, com isso, violar a Lei Hatch, que proíbe funcionários federais de usarem a sua posição para tentarem influenciar o resultado de um plebiscito.

“Através das suas ações partidárias, você pode ter violado a lei”, escreveu Reid, lembrando que Comey tem sonegado a publicação de “informações explosivas sobre as ligações próximas de Donald Trump e dos seus principais conselheiros ao Governo russo” — que a administração Obama acusou formalmente de ingerência nas eleições norte-americanas através de ciberataques aos sistemas informáticos do Partido Democrata e de alguns dos seus membros. “O público tem o direito de conhecer esta informação”, sublinha o líder dos democratas no Congresso na missiva. “Escrevi-lhe [a Comey] há vários meses a pedir que essa informação fosse divulgada publicamente.”

Comey e os seus aliados, em particular Donald Trump, continuam a defender a postura do chefe da agência federal pelas circunstâncias “excecionais” do caso Clinton. Não dizer ao Congresso que foram encontrados estes novos emails, referiu Comey no fim-de-semana, deixaria o FBI vulnerável a críticas e criaria uma “nuvem que iria ensombrar a agência durante muitos anos”.

Ontem, Eric Holder, que foi procurador-geral dos Estados Unidos entre 2009 e 2015, disse num artigo de opinião publicado no "Washington Post" que Comey "é um bom homem mas cometeu um grave erro" que veio afetar seriamente a confiança pública no Departamento de Justiça e no FBI.

"Estou profundamente preocupado com a decisão do direitor do FBI, James B. Comey, de escrever uma vaga carta ao Congresso sobre potenciais emails relacionados com uma questão de interesse público e político", diz Holder. "Essa decisão foi incorreta. Viola políticas e tradições de longa data do Departamento de Justiça. E contraria a orientação que eu implementei há quatro anos para definir a condução apropriada de investigações em época de eleições. Essas diretiva, que veio reforçar as políticas estabelecidas, continua em vigor e aplica-se a todo o Departamento de Justiça — incluindo ao FBI. [...] O diretor Comey violou estes princípios fundamentais. Temo que ele tenha, sem intenção, afetado negativamente a confiança pública no Departamento de Justiça e no FBI. E permitiu — novamente sem motivos impróprios — que fosse disseminada desinformação por partidários com intenções menos puras [que as dele]."