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Carolina do Norte. “Anda-se a jogar ao jogo das cadeiras com os nossos filhos, mas as cadeiras para sentar são poucas”

EDUCAÇÃO. A discussão sobre o investimento na escola pública e as soluções alternativas de privados dominam a agenda

Larry W. Smith/ getty

Professora há mais de 20 anos, Angela Scioli tornou-se numa ativista depois de a Carolina do Norte ter feito cortes inéditos na área da educação − um tema de que poucos parecem querer falar na campanha

Cátia Bruno

Cátia Bruno

Jornalista

Este texto é o quarto de uma série que o Expresso está a publicar sobre os swing states (estados imprevisíveis e decisivos na eleição). Para ilustrar cada um dos nove estados, escolhemos um tema que marca a região − e o país − e um entrevistado para nos falar sobre ele

Angela Scioli acorda todos os dias às 3h40 da manhã para corrigir os trabalhos dos seus alunos antes de começar o dia. Aos sábados, acorda às 5h, para escrever cartas de recomendação que os seus estudantes possam incluir na candidatura à universidade. “Temos uma construção social na América do professor-herói, que faz tudo sozinho, é carismático, adora os miúdos e não precisa do apoio das instituições.” A vida real, segundo conta Angela ao Expresso, “não é assim tão bonita”. “O meu marido é um agente da polícia branco, numa cidade cuja maioria da população é negra, por isso pode imaginar. Acho que vamos olhar para este período das nossas vidas e pensar ‘como é que conseguimos’?”

Esta professora de Estudos Sociais nasceu e viveu grande parte da sua vida na Carolina do Norte, onde dá aulas há mais de 20 anos. Nos últimos três anos, assistiu às maiores mudanças de sempre na sua carreira, desde que os republicanos, liderados por Pat McCrory, assumiram a governação da Carolina do Norte, em 2013. O governador McCrory e a sua equipa decidiram levar a cabo um programa de cortes profundos na educação estatal, ao mesmo tempo que incentivaram a criação de vouchers e das chamadas charter schools (escolas privadas e independentes, mas financiadas com dinheiros públicos).

“Sou professora há 24 anos e vejo como os cortes orçamentais tiveram um impacto tremendo. Só para dar um exemplo: atualmente dou aulas de Ciência Política no liceu e o livro que usamos é tão antigo que diz que nunca tivemos um Presidente não-branco…”, conta Angela. Não é para menos: em 2014, os cortes que a Carolina do Norte fez sobre o financiamento dos manuais escolares, dados pelas escolas, atingiram os 80%.

PROFESSORA. Angela Scioli, nascida e criada na Carolina do Norte, dá aulas de Estudos Sociais há mais de 20 anos

PROFESSORA. Angela Scioli, nascida e criada na Carolina do Norte, dá aulas de Estudos Sociais há mais de 20 anos

d.r.

Para além dos alunos, também os professores sentiram na pele o efeito da austeridade: depois de seis anos sem aumentos (os democratas já tinham congelado salários no mandato anterior), a Carolina do Norte é agora o 46.º estado em termos de salários dos professores. Ou seja, só há quatro estados nos EUA onde um professor recebe pior. “O máximo que um professor consegue receber aqui, sem suplementos extra dos municípios locais, é 20 mil dólares por ano. Isto com 30 anos de experiência”, diz a professora Angela. O salário médio nacional de um professor do ensino secundário está atualmente um pouco abaixo dos 50 mil dólares/ano. “Vamos ter falta de professores em breve [no estado]. Tenho a certeza”, aventa.

Um tema incómodo

As voltas da vida − e da política educativa da Carolina do Norte − acabaram por tornar Angela Scioli numa ativista. Fundadora da organização Red 4 Ed NC, que se associou à Public Schools First, Angie tem dado nas vistas e foi até escolhida para protagonista de um documentário intitulado “Teacher of the Year” (Professora do Ano), que alerta para os problemas atuais que os professores enfrentam no estado.

Em fevereiro de 2015, a ativista Angela teve a oportunidade de escrever um artigo de opinião para o jornal local “The News & Observer”. Nele, denunciou os cortes no sector da educação e aproveitou para ir mais além, escrevendo que “o estado está a tentar convencer a população a perder fé na escola pública e a colocar os seus filhos em charter schools e em escolas privadas onde os professores não têm de ser qualificados, onde falta responsabilização financeira e onde se faz lucro às custas dos nossos filhos.”

PROTESTOS. Os sindicatos de professores têm organizado várias manifestações nos últimos anos, chamando a atenção para os problemas que professores e alunos enfrentam

PROTESTOS. Os sindicatos de professores têm organizado várias manifestações nos últimos anos, chamando a atenção para os problemas que professores e alunos enfrentam

JOSHUA LOTT / GETTY IMAGES

A crítica ao modelo das charter schools, argumentando que retira financiamento à escola pública para o dar a modelos duvidosos, é partilhada por alguns membros do Partido Democrata e, sobretudo, pelos sindicatos dos professores. Mas este está longe de ser um assunto consensual e Angie sabe-o: “O meu marido e a minha família são todos republicanos e concordam com o modelo. Muitos pensam que estas escolas são de facto melhores, mas não há dados que sustentem isso”, diz. “Acho que as pessoas só se lembram da escola como ela era no seu tempo… Mas há uma grande diferença entre o que os dados nos dizem e as perceções das pessoas.”

O tema é tão polémico que não tem sido muito discutido durante esta campanha presidencial − àqueles que esperam que o seu voto tenha mais consequências na área da educação, Angela aconselha a prestar atenção à corrida para o Congresso ou à eleição dos governadores, que decorrem ao mesmo tempo que a eleição presidencial. Donald Trump defende claramente as charter schools e o sistema de vouchers (“chamo a isto competição, à boa maneira americana”), à semelhança da maioria dos republicanos, mas no seio dos democratas a situação é mais delicada. Hillary Clinton já defendeu no passado medidas como esta − “acredito que as charter schools são uma forma de aproximar professores, pais e a comunidade”, dizia Clinton em 1998. O apoio dos sindicatos dos professores, opositores ferozes da medida, à antiga primeira-dama, pode ajudar a explicar o silêncio de Hillary sobre este tema agora.

Em vez disso, a candidata democrata tem-se focado em propostas mais vagas, como o alargamento da rede de pré-primárias e o investimento financeiro na escola pública. “O Governo federal está a retirar-se cada vez mais do campo da educação e a passar responsabilidades para os estados”, resume Angie. “Os políticos querem ter vitórias claras e as escolas e as crianças não são bons ratos de laboratório, porque se comportam de forma inesperada.” Mesmo assim, esta professora crê que as propostas de Clinton ajudam as famílias e está decidida a conceder-lhe o seu voto − mesmo sendo a única na sua família a fazê-lo.

Um clima de tensão

A Carolina do Norte é um estado com diferenças profundas entre zonas rurais (onde Trump capitaliza) e zonas urbanas (mais favoráveis a Clinton), prevendo-se por isso uma corrida renhida. O governador atual é republicano, mas o seu antecessor era democrata e o estado tem dois senadores, um de cada partido. A nível presidencial, o estado tem votado esmagadoramente a favor dos republicanos, mas Barack Obama foi responsável por uma vitória impressionante ao conquistar o estado em 2008 − cenário que pode repetir-se este ano com Clinton, segundo dizem as sondagens, graças ao apoio que reúne nos subúrbios e, sobretudo, entre as mulheres.

AFRO-AMERICANOS Manifestação em Charlotte, Carolina do Norte, a propósito da morte de um cidadão negro por um agente da polícia em setembro de 2016

AFRO-AMERICANOS Manifestação em Charlotte, Carolina do Norte, a propósito da morte de um cidadão negro por um agente da polícia em setembro de 2016

NICHOLAS KAMM / GETTY IMAGES

Trump, por sua vez, irá tentar explorar a desaceleração da economia nas zonas rurais e o sentimento de desconfiança que se vive em muitas áreas. Num estado do sul com cicatrizes históricas profundas, assiste-se cada vez mais a tensões raciais, como os protestos de setembro em Durham, depois de mais um negro ter sido morto a tiro por um polícia. “A Carolina do Norte é um microcosmos das divisões do eleitorado americano, mas com esteroides: a divisão entre eleitores brancos com e sem cursos superiores é enorme, a divisão entre brancos e não brancos é enorme e a divisão entre zonas rurais e urbanas é enorme”, resumiu Steve Greene, cientista política da Universidade estatal.

Angela assegura que as escolas públicas da Carolina do Norte estão cada vez mais segregadas e não consegue evitar ver uma ligação entre esses problemas e o clima atual. “Conhece o jogo das cadeiras? Aquele da música a tocar com todos a dançar à roda e quando a música pára todos procuram sentar-se? Tenho a sensação que se anda a jogar ao jogo das cadeiras com os nossos filhos, mas as cadeiras para sentar são muito poucas”, reflete Angela, falando nas dificuldades de acesso ao ensino superior e na falta de empregos. “O problema é que esse jogo está a deixar-nos tão preocupados que só pensamos na maneira de o nosso filho conseguir uma cadeira. Já ninguém pensa no bem do próximo.”

CAROLINA DO NORTE

Média das sondagens
45% Hillary Clinton
43% Donald Trump
6% Gary Johnson

Histórico eleições presidenciais (desde 1984)
1984: Ronald Reagan (Republicano)
1988: George H. W. Bush (Republicano)
1992: George H. W. Bush (Republicano)
1996: Bob Dole (Republicano)
2000: George W. Bush (Republicano)
2004: George W. Bush (Republicano)
2008: Barack Obama (Democrata)
2012: Mitt Romney (Republicano)

  • Iowa. “A nossa fidelidade é a Cristo. Precisamos de confrontar qualquer político que esteja no caminho errado”

    Shane Vander Hart é um antigo pastor evangélico e um famoso blogger entre a comunidade religiosa. Muitos dos seus membros no Iowa, tradicionalmente apoiantes fervorosos do Partido Republicano, questionam-se se devem apoiar uma figura como Donald Trump. Este texto é o segundo de uma série que o Expresso Diário está a publicar sobre os swing states (estados imprevisíveis e decisivos na eleição). Para ilustrar cada um dos nove estados, escolhemos um tema que marca a região − e o país − e um entrevistado para nos falar sobre ele

  • Colorado. “Se ganhasse um dólar sempre que alguém me diz que quer votar no Obama outra vez, já tinha pago todas as propinas”

    A norte-americana Ayriana Rackham é um dos vários jovens que irão votar pela primeira vez nestas eleições e num estado decisivo − o Colorado. Mas nem todos os millennials, na sua maioria antigos apoiantes de Bernie Sanders - o candidato à nomeação democrata que Hillary Clinton venceu na corrida interna do partido - veem com bons olhos Hillary Clinton e Donald Trump. Este texto faz parte de uma série que o Expresso irá publicar ao longo dos próximos dias sobre os swing states (estados imprevisíveis e decisivos na eleição). Para ilustrar cada um dos nove estados, escolhemos um tema que marca a região − e o país − e um entrevistado para nos falar sobre ele