Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Tribunal norte-americano absolve líderes de milícia armada do Oregon

Ammon Bundy liderou a ocupação armada da Reserva Natural de Malheur em fevereiro de 2016

Justin Sullivan

BBC fala numa decisão judicial “chocante”, "New York Times” cita “absolvição surpresa” de Ammon e Ryan Bundy e de outros cinco líderes da milícia antigovernamental que, no início do ano, ocupou a Reserva Natural de Malheur durante 41 dias

Os sete líderes de uma milícia armada anti-governamental que esteve barricada durante 41 dias numa reserva federal protegida do Oregon no início deste ano foram absolvidos dos crimes de conspiração e posse de armas de fogo, numa decisão que a BBC classifica como "chocante" e que o "New York Times" diz ser "surpreendente". Antes da leitura da sentença, o advogado de Ammon Bundy, o líder do grupo, teve de ser maniatado pela polícia depois de berrar contra o juiz responsável pelo caso.

Ammon e Ryan Bundy são filhos de Cliven Bundy, que ficou conhecido nos EUA depois de um protesto semelhante ao deste ano que teve lugar em 2014 no Nevada na sequência da cobrança de impostos federais não pagos sobre o pastoreio. Em Janeiro, os dois Bundy ocuparam a Reserva Natural de Malheur, no Oregon, em protesto contra o que dizem ser a "interferência ilegal" do Estado federal nas vidas e trabalho dos rancheiros. Um dos membros da milícia foi abatido pela polícia numa das várias trocas de tiro com a polícia que tiveram lugar durante os 41 dias de ocupação, que terminou no início de fevereiro com a rendição dos últimos membros do grupo que permaneciam no local.

Durante o julgamento, a procuradoria argumentou que os sete réus, liderados por Ammon Bundy, impediram que os funcionários federais cumprissem o seu horário de trabalho na reserva de Malheur com recurso à força e à ameaça de violência. O júri responsável pelo veredito aceitou os argumentos da equipa de defesa dos acusados, que disse que a milícia não representa qualquer ameaça pública e que foi contida a agir sob o direito a manifestar-se contra a interferência do governo.

Num claro sinal da tensão em torno deste caso, quatro marshalls dos EUA tiveram de usar uma arma-taser para controlarem o advogado de Ammon Bundy, Marcus R. Mumford, depois de este ter começado a berrar contra o juiz, que durante o julgamento deu a entender que os membros da milícia não iam escapar a sentenças de prisão.

"Eu sabia que o meu marido estava a fazer a coisa certa, mas estava nervosa, porque o juiz estava a controlar a narrativa", disse a mulher de Ryan Bundy, Angela, numa entrevista telefónica com o NYT a partir do rancho da família em Bunkerville, no Nevada. "Mas eles [jurados] viram a verdade. Estou muito agradecida por terem visto."

Não é para já claro que impacto terá a absolvição dos sete militantes na estratégia do Governo federal contra os irmãos Bundy e o seu pai no outro caso judicial em curso, referente à troca de tiros com a polícia durante o protesto antigoverno de 2014 na terra-natal da família no estado do Nevada. Os dois casos angariaram grande atenção mediática por representarem os ressentimentos latentes de uma parte da população norte-americana, em particular de comunidades rurais do oeste dos EUA, face ao que dizem ser a ingerência excessiva do Estado federal nas suas vidas.

Durante a ocupação da Reserva Natural de Malheur, o grupo estabeleceu patrulhas armadas para impedir quaisquer visitas ou trabalhos na área protegida sob administração federal. Depois de várias semanas de barricada, um dos membros da milícia, Robert 'LaVoy' Finicum, foi abatido a tiro pela polícia a 26 de janeiro, antes de os irmãos Bundy e outros militantes terem sido detidos.

Em declarações à imprensa, o procurador distrital do Oregon, Billy Williams, disse que "esperava um resultado diferente", embora tenha defendido a necessidade de o caso ser decidido por um júri. O FBI declarou estar "extremamente desapontado com os vereditos".

Em sua defesa, os sete réus disseram em tribunal que nunca impediram qualquer funcionário de aceder ao seu local de trabalho e que queriam apenas controlar a terra e os edifícios, argumentando ainda que a ocupação da reserva foi um "ato de desobediência civil justificado". O julgamento de outros militantes do grupo que participaram na luta contra as autoridades está marcado para o início do próximo ano.