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Ohio. “Trump não é politicamente correto, mas diz o que todos nós pensamos. Gosto dele por isso”

TRUMP. Ação de campanha do candidato republicano no Ohio, onde colhe algum apoio entre a classe trabalhadora branca

TY WRIGHT / GETTY IMAGES

O filho de Patty James é um dos milhares de norte-americanos que tiveram encontro marcado com a epidemia de opioides e heroína que abala o país. Para esta mãe do Ohio, o muro de Trump pode ajudar a resolver o problema

Cátia Bruno

Cátia Bruno

Jornalista

Este texto é o terceiro de uma série que o Expresso está a publicar sobre os swing states (estados imprevisíveis e decisivos na eleição). Para ilustrar cada um dos nove estados, escolhemos um tema que marca a região − e o país − e um entrevistado para nos falar sobre ele

A vida de Patty James ficou virada do avesso quando recebeu aquele telefonema, em 2010. A esquadra da polícia da sua cidade, Wakeman (Ohio), dava conta de que o seu filho mais novo, de apenas 17 anos, tinha sido detido. Quando conseguiu finalmente chegar ao pé de Gage, as primeira palavras que este lhe dirigiu incluíam uma série de nomes estranhos, que Patty mal conhecia: “Mãe, sou viciado em Opana. Preciso de Suboxone para desintoxicar.”

“Foi assim que fui apresentada ao mundo do vício”, resume esta mãe de 51 anos, nascida e criada no Ohio. A odisseia de Gage no mundo da droga não se ficaria por aí: desde então, passou a consumir heroína, contraiu hepatite C e foi detido por violar a sua pena suspensa. O fundo do poço acabou por levá-lo à desintoxicação, mas uma recaída quase lhe custaria a vida. “Agradeço ao Senhor por ele nesse dia ter consumido com uma pessoa que chamou o 112”, desabafa Patty ao Expresso. O seu filho teve uma overdose e teria morrido se os paramédicos não tivessem utilizado Narcan, um medicamento composto por Naloxone, que bloqueia os efeitos dos opióides.

PATTY Esta trabalhadora da indústria automóvel aprendeu a lidar com o vício do filho, que teve início aos 17 anos

PATTY Esta trabalhadora da indústria automóvel aprendeu a lidar com o vício do filho, que teve início aos 17 anos

d.r.

Patty James é apenas uma das várias centenas de norte-americanos cujos familiares diretos se viram envolvidos na epidemia de opióides e heroína que assola os Estados Unidos. Segundo dados do Centro para a Prevenção e Controlo de Doenças norte-americano, o número de overdoses por heroína no país quadruplicou entre 2002 e 2013 − na maioria dos estados, a morte por overdose é agora mais comum do que por acidente rodoviário. Ao todo, em 2014 registou-se o número mais alto de sempre no país: 47 mil mortes por overdose.

O Ohio é um dos epicentros desta tragédia. O procurador-geral do estado, Mike DeWine, classificou recentemente a epidemia como “generalizada”, em declarações ao “Irish Times”: “O rosto da heroína é o rosto do Ohio.” O estado foi o segundo com mais mortes por overdose em 2014, ficando apenas atrás do Kentucky. Em média, a cada três horas, uma pessoa morre por overdose no Ohio.

Vício: escolha ou doença?

O desespero levou Patty a procurar ajuda e encontrou-a num grupo de apoio, o “The Addict’s Mom”. Seis anos depois, esta trabalhadora da indústria automóvel ganhou um lugar de destaque na organização, servindo de conselheira para muitas outras mães e familiares de viciados. “Digo-lhes muitas vezes ‘nós ficamos viciados nos nossos viciados, mas não podemos. Não podemos controlá-los nem curá-los, só podemos tomar conta de nós próprios. Se o avião está a cair, temos de colocar a máquina de oxigénio em nós próprios antes de a darmos à pessoa ao nosso lado.”

DROGA. Os números revelam que a epidemia de heroína está a provocar um número sem precedentes de overdoses nos Estados Unidos

DROGA. Os números revelam que a epidemia de heroína está a provocar um número sem precedentes de overdoses nos Estados Unidos

SPENCER PLATT / GETTY IMAGES

As conversas de Patty com outras mães passam pelos avisos mais duros (“quando tens de começar a dormir com a tua mala debaixo da almofada ou a guardar coisas num cofre, é altura de o expulsares de casa”) até aos conselhos maritais (“tens de redistribuir o teu tempo e energia de igual forma por todos os membros da família”). Ao partilhar a sua história, Patty encontrou algum conforto: “Trouxe-me a minha sanidade de volta, porque eu parecia uma galinha sem cabeça a correr de um lado para o outro. Estava a tentar curar o vício do meu filho, sem perceber que era uma doença e não uma escolha.” Hoje em dia, Patty não se cansa de repetir àqueles que, como o seu ex-marido fez durante algum tempo, encaram o vício como uma escolha: “Quantas vezes tentaste deixar de fumar? Para um viciado em heroína, é dez vezes mais difícil!”

Vários responsáveis no Ohio, como o procurador DeWine, partilham essa opinião e têm alertado para a necessidade de combater o problema das drogas como um problema de saúde pública. O senador republicano do Ohio Rob Portman foi inclusivamente responsável pela elaboração de um projeto de lei que prevê medidas como a distribuição de Narcan por polícias e a oferta de tratamento a infratores, em vez de lhes ser apenas concedida uma pena de prisão. A proposta foi aprovada com o apoio tanto do Partido Democrata como do Republicano, mas muitos criticam o facto de o Congresso não ter adjudicado um fundo monetário para aplicar o programa.

O consenso (possível) entre ambos os partidos surge por esta ser uma epidemia que tem afetado a sociedade norte-americana de forma transversal. Em tempos, o imaginário coletivo norte-americano pensava no típico viciado como um jovem, muitas vezes de raça negra, e habitante de uma grande cidade. Hoje em dia, essa imagem está longe da realidade. A heroína chega às zonas mais rurais do país e não faltam homens e mulheres brancos, de meia idade, a consumi-la. A menos de dez dólares por saco, a droga é acessível à maioria.

NARCAN. Os medicamentos com Naloxone são utilizados para contrariar os efeitos de overdose de opióides. Clinton propõe que sejam distribuídos pela polícia

NARCAN. Os medicamentos com Naloxone são utilizados para contrariar os efeitos de overdose de opióides. Clinton propõe que sejam distribuídos pela polícia

SPENCER PLATT / GETTY IMAGES

“Eu sou uma americana típica de classe média”, reconhece Patty James. “Para o meu filho, tudo começou numa festa. Estes adolescentes tiravam do armário da casa de banho dos pais todos os comprimidos que lá encontravam, punham-nos dentro de um cesto e tiravam um comprimido cada um à vez, sem saber o que lhes calhava. Foi assim que ele ficou viciado em opioides. Quando soube, fiquei de boca aberta.” O número de norte-americanos que ficam viciados em opióides, seja porque estes lhes foram prescritos por um médico, seja porque os tomaram sem receita, não pára de aumentar. Para muitos, daí à heroína é um pequeno passo.

Um muro para impedir a droga de entrar

Tanto Hillary Clinton como Donald Trump têm admitido nos seus discursos que os EUA enfrentam uma epidemia sem precedentes. O tema está longe de ser um dos mais centrais da campanha, é certo, mas ambos os candidatos já fizeram algumas propostas para ajudar a resolvê-lo.

Clinton garante que, se for eleita Presidente, avançará com um fundo de dez mil milhões de euros (a serem usados num programa a dez anos) para financiar programas a nível local, tanto no tratamento como na prevenção. A candidata defende igualmente um foco maior no tratamento dentro do sistema judicial, em vez do encarceramento. Já Donald Trump não oferece um programa tão detalhado, mas promete que irá ajudar todos os viciados em heroína, “trabalhar com eles, gastar o dinheiro e quebrar esse hábito.” Quanto a medidas concretas, o republicano tem-se limitado a dizer que o muro que pretende construir na fronteira com o México irá impedir que a maior parte das drogas entrem nos EUA.

MÉXICO. A principal medida enunciada por Donald Trump para lidar com a epidemia de droga é a construção do muro com o México, defendendo que impedirá a maioria das substâncias ilícitas de entrarem no país

MÉXICO. A principal medida enunciada por Donald Trump para lidar com a epidemia de droga é a construção do muro com o México, defendendo que impedirá a maioria das substâncias ilícitas de entrarem no país

CHIP SOMODEVILLA / GETTY IMAGES

O discurso de Trump, até neste ponto, tem colhido muito apoio em zonas como o Ohio. Patty James vê com bons olhos as medidas propostas por Clinton, mas desconfia demasiado da candidata para acreditar que ela levará a bom porto o programa. “Já Donald Trump, acho que ele tem uma certa razão…”, acrescenta. “Temos de controlar as nossas fronteiras.” Num swing state como o Ohio qualquer voto pode ser determinante e, historicamente, nenhum republicano conseguiu ser eleito Presidente sem ter conquistado o Ohio. Quanto aos democratas, o último a conseguir fazê-lo foi John F. Kennedy, em 1960.

Apesar das sondagens atuais darem vantagem a Clinton, Donald Trump tem bolsas de apoio fiéis no estado, nomeadamente nas antigas cidades mineiras da Appalachia. Mas o apelo de Trump estende-se a muitos outros locais, como testemunha Patty: “Eu vivo no norte do Ohio, mesmo ao pé da zona dos lagos, e nesta área há muitos apoiantes de Trump. Até hoje só vi um cartaz de apoio a Hillary num quintal. O resto é tudo Trump, embora muita gente não o admita. É engraçado, Trump não é politicamente correto, mas diz o que todos nós pensamos. Gosto dele por isso.” Patty já decidiu que irá votar no candidato republicano no dia oito de novembro, por várias razões − a sua proposta quanto ao problema das drogas é apenas parte dessa motivação.

O seu filho Gage tem agora 21 anos e está sóbrio há três. Trabalha e vai poupando para poder sair de casa do pai, com quem vive atualmente, e alugar um quarto. “Ele arranjou um cão!”, conta Patty entre risos, não escondendo uma ponta de orgulho na voz. “Acho que a palavra que define o meu filho em recuperação, neste momento, é responsável. Ele está finalmente a ser responsável pelas suas ações.” Gage, ao contrário da mãe, não tenciona ir votar no dia oito de novembro. Nem em Trump, nem em Clinton, nem em ninguém.