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Começou “a mãe de todas as batalhas” em Alepo

ABDALRHMAN ISMAIL/Reuters

Oposição tenta, mais uma vez, quebrar o cerco imposto pelo regime sírio na zona leste de Alepo. Embora a ofensiva esteja a ser controlada e executada a partir do exterior da cidade, há a expectativa de que os rebeldes ali instalados também se juntem à batalha

Helena Bento

Jornalista

Há cerca de dois meses, a oposição síria ao Presidente Bashar al-Assad tentou quebrar o cerco imposto pelo regime à zona leste de Alepo, pela tomada de uma importante estrada que separava a zona ocupada a este às aldeias a norte e à vizinha Turquia. As cerca de 275 mil pessoas que ali viviam podiam, finalmente, ter acesso a comida, medicamentos e outros bens essenciais, que escasseavam há demasiado tempo. Mas esses planos, por mais bem intencionados que fossem, caíram desastrosamente por terra. O regime, incapaz de recuar um único milímetro que fosse na sua ambição de reconquistar Alepo, antiga capital comercial e industrial do país, ordenou de imediato ao seu Exército que largasse dezenas de bombas sobre a estrada, impedindo qualquer um de a atravessar. Hoje, Castello, assim se chama essa crucial via de acesso ao exterior, continua controlada pelo regime.

Do mesmo modo que o regime luta até às últimas consequências pelo domínio de Alepo, também os rebeldes da oposição têm-se recusado a entregar de mão beijada a zona leste da cidade. “Continuarei em Alepo e continuarei a defender a minha cidade, a minha casa, mesmo que o preço a pagar por isso seja elevado. Mesmo que, para isso, tenha de pagar com a minha alma e com o meu corpo”, dizia recentemente, em entrevista ao Expresso, Abo Alezz, um dos poucos médicos que permanecem no leste de Alepo, onde já só restam seis hospitais. Os restantes foram bombardeados e destruídos.

Esta sexta-feira, a oposição confirmou que está em curso uma nova ofensiva contra o regime sírio, designada internamente como “a mãe de todas as batalhas”. Os ataques começaram, no entanto, já no início da semana. Um porta-voz da oposição, citado pela Associated Press, disse que “todas as fações revolucionárias, sem exceção, estão a participar na batalha”. Elas incluem, por exemplo, a Frente al-Nusra, braço da Al-Qaeda na Síria, agora designada Jabhat Fateh al-Sham e já sem qualquer ligação ao grupo terrorista sunita, assim como rebeldes do movimento islâmico Ahrar al-Sham. Ambos integram a coligação Exército da Conquista.

De acordo com a BBC, que cita um grupo de monitorização do conflito, os ataques dos rebeldes na zona oeste de Alepo, controlada pelo regime, resultaram na morte de pelo menos 15 civis e em ferimentos noutros 100.Três veículos carregados de explosivos foram, na segunda-feira, detonados por rebeldes contra posições do regime. Dois dos ataques com carros foram reivindicados pela Jabhat Fateh al-Sham. O Observatório Sírio para os Direitos Humanos fala também de centenas de rockets disparados contra alvos governamentais. O aeroporto de Al-Nayrab, já na região leste, foi também outro dos alvos visados. Embora a ofensiva esteja a ser controlada e executada a partir do exterior da cidade, há a expectativa de que os rebeldes do leste também se juntem à batalha, aponta a BBC.

Um repórter da televisão Al-Mayadeen, com sede em Beirute, no Líbano, reportou vários “ataques de parte a parte”, do regime apoiado por aviões russos e da oposição, que se têm estendido de “norte a sul da cidade”, acompanhados de explosões, disparos de morteiros e fumo, muito fumo. Têm-se falado também no uso de “Grad rockets” por parte dos rebeldes, sistemas de lançamento múltiplo de foguetes desenvolvidos nos anos de 1960 na antiga União Soviética (suspeita-se que tenham ido parar às mãos dos rebeldes sírios por via dos países que apoiam a oposição dita moderada na Síria).

A ofensiva dos rebeldes é anunciada cerca de três semanas depois de o Presidente sírio Bashar al-Assad ter prometido, numa entrevista ao jornal russo “Komsomolskaya Pravda”, que vai continuar a “limpar” a zona leste de Alepo, onde já morreram milhares de pessoas vítimas dos bombardeamentos levados a cabo pelas forças do seu regime, aliadas às forças russas. Nessa ocasião, Assad disse ainda esperar que Alepo sirva de “trampolim” para expulsar os “terroristas” (que é como ele designa os membros da oposição) que restam no país para a Turquia ou, pelo contrário, matá-los.