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Iowa. “A nossa fidelidade é a Cristo. Precisamos de confrontar qualquer político que esteja no caminho errado”

NICHOLAS KAMM

Shane Vander Hart é um antigo pastor evangélico e um famoso blogger entre a comunidade religiosa. Muitos dos seus membros no Iowa, tradicionalmente apoiantes fervorosos do Partido Republicano, questionam-se se devem apoiar uma figura como Donald Trump. Este texto é o segundo de uma série que o Expresso Diário está a publicar sobre os swing states (estados imprevisíveis e decisivos na eleição). Para ilustrar cada um dos nove estados, escolhemos um tema que marca a região − e o país − e um entrevistado para nos falar sobre ele

Cátia Bruno

Cátia Bruno

Jornalista


Shane Vander Hart estava no segundo ano da faculdade quando percebeu que havia um vazio na sua vida. “Fiz algumas más escolhas relativamente ao consumo de álcool e chegou a um ponto em que percebi que estava a tentar viver a vida à minha maneira e não estava a resultar.” A resposta para os seus problemas chegou com o redespertar de um sentimento religioso que tinha deixado arrumado na infância, aquando das idas à igreja com os pais, mais por hábito do que por convicção. Aos 19 anos, Shane sentiu que tinha de voltar a criar aquilo a que chama “uma relação com Jesus”. Anos mais tarde, o jovem Shane tornar-se-ia pastor de uma igreja cristã evangélica em Des Moines, Iowa, EUA.

O seu trabalho com jovens detidos acabou por torná-lo conhecido entre a comunidade evangélica do Iowa, um estado de baixa densidade populacional - a capital, Des Moines, tem pouco mais de 200 mil habitantes -, mas onde a concentração de igrejas é grande. Daí a que o seu blogue pessoal, “Caffeinated Thoughts” (algo como “Pensamentos movidos a cafeína”), se tornasse uma referência na região, foi um passo. “Ao início era só um blogue pessoal, mas a partir de 2008 comecei a escrever sobre as eleições e aí tornou-se uma coisa maior do que esperava. Provavelmente sou responsável por um dos blogues políticos mais lidos no Iowa, sim”, admite Shane ao Expresso.

Pastor evangélico durante anos, o fundador do site “Caffeinated Thoughts” é um líder de opinião para muitos dentro da comunidade

Pastor evangélico durante anos, o fundador do site “Caffeinated Thoughts” é um líder de opinião para muitos dentro da comunidade

DR

Graças ao sucesso do seu blogue, o antigo pastor, de 44 anos, mantém-se regularmente em contacto com muitos evangélicos que o procuram e expõem as suas preocupações. Se é certo que a economia surge como problema número um na vida da maioria dos eleitores − e os evangélicos não são exceção −, também é cada vez mais claro que, nos últimos anos, há questões sociais onde o discurso religioso evangélico não se coíbe de entrar.

É a reação de um grupo que sente estar a perder a chamada “guerra cultural”: por um lado, as estatísticas revelam um país onde cada vez menos pessoas se identificam como “cristãs”; por outro, mudanças políticas como a legalização do casamento gay deixam os evangélicos cada vez mais isolados. “Sentimos que está a haver um retrocesso na liberdade religiosa, com a acomodação do movimento LGBT. Pasteleiros cristãos que são obrigados a fazer bolos para casamentos entre pessoas do mesmo sexo, por exemplo. Os cristãos querem servir as pessoas, não querem discriminar, mas também não querem ter de violar a sua consciência”, ilustra Shane.

Formação religiosa importa? Nem por isso

O discurso pode soar anacrónico em cidades como Nova Iorque ou São Francisco, mas a verdade é que é representante de uma fatia do eleitorado norte-americano - e uma que, em regiões como o Iowa, pode ser decisiva para a eleição presidencial. Apesar de os cristãos evangélicos corresponderam a apenas um quarto do eleitorado do estado, dentro dos eleitores do partido republicano o seu peso chega a atingir os 60%. “Temos bastante influência, é difícil ganhar o Iowa sem conquistar os evangélicos”, confirma Vander Hart. “O Ted Cruz saiu-se muito bem aqui [nas primárias] e ele tinha o apoio da maioria dos evangélicos.”

Shane Vander Hart foi um dos cristãos influentes da região a apoiar Ted Cruz, em parte por partilhar as ideias do candidato e em parte para impedir a vitória de Donald Trump. Agora, quase nove meses depois, o candidato republicano não é Cruz, mas sim o próprio Trump. Para Shane, tal é um desastre. “Há muitos apoiantes do Ted Cruz que estão a voltar-se para Donald Trump. E depois há outros como nós, que nos autointitulamos ‘Never Trumpers’ (Trump Nunca).” O candidato pode gozar do apoio de nomes sonantes no meio, como Jerry Falwell Jr., mas também enfrenta as críticas de alguns religiosos. Ainda recentemente, organizações anti-aborto, como a Iowa Right to Life, declararam-se “enojadas” com a gravação de Donald Trump onde este se gabava de beijar mulheres à força.

TED CRUZ O candidato à nomeação do Partido Republicano conquistou as primárias no Iowa, muito por força do apoio de muitos evangélicos

TED CRUZ O candidato à nomeação do Partido Republicano conquistou as primárias no Iowa, muito por força do apoio de muitos evangélicos

Scott Morgan/Reuters

A verdade é que, à primeira vista, Donald Trump não parece o candidato ideal para um grupo de eleitores como os evangélicos. Triplamente divorciado e dono de vários casinos, Trump não se coíbe de falar abertamente sobre os seus comportamentos sexuais − estando atualmente sob escrutínio apertado depois das acusações de assédio sexual levantadas por várias mulheres. Apesar de ter crescido como protestante e de ter frequentado a igreja Marble Collegiate, em Manhattan, Trump tem dado alguns passos em falso religiosos ao longo da campanha, como admitir que nunca pediu perdão a Deus e referir-se à hóstia como “uma pequena bolacha”.

Nada que preocupe a maioria dos evangélicos. “Eu estou muito mais preocupado com o caráter deles do que com a sua formação religiosa”, comenta Shane, referindo-se a Hillary Clinton e Donald Trump. Clinton até tem um passado religioso mais marcado como metodista, tendo até dado catequese, mas não é por isso que a candidata democrata deverá reunir votos de eleitores evangélicos. “Ela simboliza muito daquilo que é contrário às crenças [dos evangélicos]: defesa do aborto, feminismo e a rejeição das ideias bíblicas de feminilidade”, ilustrou Sarah Pulliam Baley, jornalista do “Washington Post” especialista em religião. “Nas mentes dos cristãos conservadores, Hillary Clinton, como primeira-dama ativa que foi, está inextricavelmente ligada à derrota que tiveram nas chamadas ‘batalhas culturais’ que se iniciaram no primeiro mandato de Bill Clinton.”

Para além disso, há um ponto fulcral a distinguir Clinton de Trump e num tema que é caro aos evangélicos − o aborto. A democrata já prometeu que pretende escolher para o Supremo Tribunal juízes que defendam os princípios do Roe vs. Wade, o caso judicial que estabeleceu o direito à interrupção da gravidez no país, enquanto Trump prometeu escolher juízes que se lhe opõem.

Apoiar Trump ou não, eis a questão

Sendo certo que serão muito poucos os evangélicos a votar em Clinton no dia oito, Donald Trump procura não perder o apoio dos religiosos. A gravação onde o milionário garantia “agarrar as mulheres pela ****”, seguida das acusações de assédio sexual, não caíram bem na comunidade religiosa do Iowa: “Para muitas pessoas a gravação foi determinante, porque há qualquer coisa de diferente em ouvi-lo dizer aquilo, em vez de ler sobre isso… Algumas pessoas finalmente digeriram e pensaram: ‘ele é mesmo assim’”, explica Shane Vander Hart. “E ainda não vimos provas de que ele tenha mudado. Eu sei que as pessoas podem mudar − meu Deus, eu sou uma dessas pessoas! −, mas não tenho visto isso com Donald Trump.”

Já antes do episódio, o candidato republicano sabia que necessita de agradar ao eleitorado evangélico. A escolha do antigo governador do Indiana Mike Pence, cristão, para o lugar de candidato a seu vice-presidente não terá sido inocente, bem como a sua promessa de revogar a chamada “Johnson Amendment”, que proíbe organizações que não pagam impostos (como as igrejas) de apoiar publicamente candidatos em eleições. As medidas colhem simpatia, mas o maior trunfo de Trump entre os evangélicos continua a ser a rejeição a Clinton: “Há muita gente que diz: ‘sabem que mais? O Donald é um tiro no escuro, mas com ela já sabemos o que vamos ter, por isso prefiro arriscar nele.’”, analisa Shane.

ABORTO A nomeação de juízes pró ou contra a interrupção voluntária da gravidez é um dos temas da campanha que mais motiva os eleitores evangélicos

ABORTO A nomeação de juízes pró ou contra a interrupção voluntária da gravidez é um dos temas da campanha que mais motiva os eleitores evangélicos

NICHOLAS KAMM/AFP

O antigo pastor, à semelhança da maioria dos “Never Trumpers”, recusa-se a votar quer em Clinton quer em Trump. Restam-lhe outros candidatos minoritários, como o libertário Gary Johnson, Darrell Castle, do partido da Constituição (direita cristã) e o independente Evan McMullin. Shane ainda não decidiu em qual deles votará, mas guarda a esperança de que esta eleição possa servir para os evangélicos perceberem que não têm de votar em bloco nem apoiar o candidato republicano, seja ele qual for. “A nossa fidelidade é a Cristo e à palavra de Deus e precisamos de estar dispostos a confrontar qualquer político que achemos que está no caminho errado, independentemente do seu partido.”

As sondagens, no entanto, dão conta de que esse movimento não deverá surgir, pelo menos para já. Ao todo, mais de 70% dos evangélicos brancos dizem apoiar o candidato republicano, apesar das recentes deserções de peso, como a do teólogo Wayne Grudem. Por entre as fileiras religiosas, já há quem siga a boa tradição cristã de perdoar as falhas de Trump, citando uma frase da ativista conservadora Phyllis Schlafly: “Se está à procura de um candidato perfeito, não vai encontrar o nome de Jesus Cristo no boletim de voto.”

Artigo publicado na edição do Expresso diário de 26/10/2016